A perfeição não consiste em ser perfeitos, mas em caminhar para ela. O autoritarismo eclesiástico toma suas decisões sem dar explicações. Como custa a alguns bispos pôr-se em dia! Não seguem o exemplo de Francisco.
Jesus propôs ao povo outra parábola: “O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?’ O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’”.
Os empregados lhe perguntaram: ‘Queres que vamos arrancar o joio?’ O dono respondeu: ‘Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e o amarrai em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro!”.
- As parábolas de Jesus são comparações que ele usava para facilitar ao povo a compreensão dos grandes valores do Reino de Deus. Por isso Jesus começa-as dizendo: “O reino dos céus é semelhante… Na parábola de hoje Jesus ensina-nos que neste mundo não há nada de bom que não tenha algo de mau, nem nada de mau que não tenha algo de bom. Na dimensão imanente do homem não existe a perfeição absoluta. Lutemos o mais possível para ser perfeitos, mas conscientes de que aqui nunca o seremos, pois a perfeição aqui não é ser perfeitos, mas caminhar para ela, perdoando a nós mesmos os nossos próprios erros, assim como os dos outros, incluindo também os defeitos de todas as outras criaturas, porque elas tampouco são perfeitas nesta etapa da vida.
- Portanto, é necessário que todos tenhamos capacidade e generosidade suficientes para reconhecer a parte de bem que há no outro, junto com as suas limitações. Isto vale também para os demais seres da criação. Ninguém pode pretender que o seu seja sempre o bom e o do outro sempre o mau.
- Isto tem aplicação em muitas esferas da vida, especialmente na política e ainda mais nas religiões. Uma opção política considera a si mesma a melhor de todas e pretende que lhe devamos dar adesão incondicional. A corrupção fez os políticos perderem muita credibilidade: a corrupção é o joio da política… Temos bastante corrupção na Espanha e temos muita em alguns partidos.
Mas no campo religioso há opções e movimentos que se consideram donos da verdade absoluta, que até mesmo se julgam infalíveis e que a sua verdade é a Verdade, e que não há mais verdade do que a deles. Consideram-se com direito e até com o dever de obrigar os outros a acatar os seus postulados e a submeter-se às suas regras de conduta, até ao ponto de considerar que os que não são como eles são inimigos e que é preciso expulsá-los e até persegui-los. É o fanatismo religioso, que em setores importantes do islamismo atual chega a crueldades incríveis, particularmente com as mulheres. Bem longe de possuir a verdade absoluta está o Papa Francisco que se reconhece pecador e não infalível (Entrevista ao “Die Zeit”).
A Igreja Católica hierárquica considerou-se durante séculos a dona e depositária de toda a verdade. Hoje vemos que essa concepção de si mesma a levou a cometer graves e grandes erros históricos como com Galileu, com a inquisição, com Lutero, ou com a expulsão já nos dias atuais dos Teólogos da Libertação e de movimentos cristãos, religiosos e leigos, muito comprometidos com os mais pobres e, inversamente, a abençoar outros de sinal contrário, elitistas, conservadores e integristas quando não corruptos e corruptores como os pederastas, encobertos e oficialmente ignorados durante anos: isso foi, infelizmente, arrancar o trigo e deixar o joio. Tornou-se notório nestes dias o caso de pelo menos 547 meninos do coro da catedral de Regensburg, no sul da Alemanha, que foram vítimas de abusos físicos e sexuais entre 1945 e princípios dos anos 90. Durante 30 desses anos, entre 1964 e 1994, o diretor do coro foi Georg Ratzinger, irmão do Papa Bento XVI, que é acusado de ter feito vista grossa e não ter tomado providências (Ver Religión Digital de 18/07/2017).
Este acreditar-se dona absoluta da verdade também a levou a excluir as mulheres em serviços e ministérios de que Jesus Cristo não as privou, e a dizer como o fez um Papa anterior que questão estava encerrada. É muito perigoso crer-se detentor exclusivo do conhecimento divino e consequentemente agir em nome de Deus. Acabamos de ver, alguns dias atrás, como os bispos do Paraguai proibiram um ciclo de conferências bíblicas que iria fazer o teólogo e biblista católico, Dr. Ariel Alvarez Valdés, organizadas pela Editora São Paulo [Edições Paulinas] em parceria com várias paróquias e instituições eclesiásticas das dioceses de Assunção. Como custa a alguns bispos pôr-se em dia! Quão pouco imitam Francisco!
Ademais o autoritarismo eclesiástico toma as suas decisões sem dar explicações de qualquer tipo, como aconteceu a nós todos, os 35 voluntários da Pastoral Penitenciária Villabona*, que após mais de um ano e meio ainda não recebemos a menor explicação, nem muito menos justificativa, dos motivos pelos quais fomos despedidos, para não dizer expulsos, com graves danos para os presos. Será que não têm a explicação porque a decisão foi tomada pelas autoridades eclesiásticas, por motivos inconfessáveis, alheios à Pastoral Penitenciária, e, portanto, não pode ser tornada pública?
- A solidariedade entre os seres humanos deve ser um valor essencial e prioritário, que deve estar acima de toda a especulação filosófica ou teológica, um valor em razão do qual toda a religião é para os seres humanos, e não os seres humanos para a religião porque “o sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado”. Para Jesus Cristo todo o ser humano é um valor em si mesmo, e como tal deve ser reconhecido, longe de qualquer manipulação, submissão e limitação ilegítima. Por isso Jesus Cristo é o grande libertador do homem em todas as suas dimensões.
Reconhecer o bem que existe no outro coloca-nos no caminho para que também seja reconhecido o bem que existe em nós mesmos. Por exemplo, há quem pense que os que estão na prisão são uns indesejáveis, o pior de cada família e da sociedade, que não têm nada de bom, puro joio. Se nós tivéssemos sofrido a amarga sorte que muitos deles sofreram, certamente estaríamos onde eles estão. Eles não são apenas joio, muito menos todos os que estão lá dentro; nem nós tampouco somos apenas trigo, nós todos que estamos cá fora. E mais, as prisões são o resultado da grande quantidade de joio que existe na sociedade: injustiças, falta de uma verdadeira educação, famílias fracassadas, miséria mais que pobreza, violência, falta de trabalho, negócios sujos como as drogas, a prostituição, a corrupção, etc.
Jesus não pensava como nós, quando disse: “Eu estava na prisão e fostes ver-me…, quando o fizestes, a mim o fizestes”.
“Um grande defeito dos homens consiste em preocupar-se com arrancar o joio dos campos dos outros, descuidando do dos seus próprios campos.” (Confucius).
Faustino Linares Vilabrille
Asturias
Religión Digital – Reflexión y Liberación
http://www.reflexionyliberacion.cl/ryl/2017/07/22/arrancar-el-trigo-y-dejar-la-cizana/
*Sobre este episódio:
Jesús Sanz suspende “toda actividad” de la Pastoral Penitenciaria de Asturias
O AUTOR
Faustino Vilabrille Linares
Nací en 1936 en San Andrés de Logares, Fonsagrada (Lugo). Estudié en el Seminario de Oviedo y ejercí de cura rural casi toda mi vida en la Parroquia de Trevías (Asturias) compuesta por 18 pueblos, ninguno de los cuales tenía agua a domicilio: superar esta carencia en colaboración con todos ellos fue mi primer compromiso social. De ahí surgió la constitución de una Cooperativa Agrícola, hoy de ámbito interprovincial, en la cual fui un trabajador más, desvinculándome de la paga oficial y viviendo de mi trabajo a la vez que atendía la Parroquia. Desde la jubilación colaboro como voluntario en una parroquia de barrio de Gijón y en Cooperación Internacional de Caritas, lo que me llevó a viajar varias veces a Guatemala para apoyar proyectos con clara incidencia sociopolítica en varias Comunidades Indígenas muy pobres, porque el asistencialismo solo da de comer puntualmente, pero no quita el hambre ni el subdesarrollo. Actualmente un equipo de personas seguimos apoyando algunos proyectos en Ruanda y Guatemala. Todo ello fue posible gracias a muchos y excelentes colaboradores de los que me siento infinitamente deudor y agradecido. Qué Dios los bendiga.