Colômbia, as mães dos falsos guerrilheiros: “O Estado matou os nossos filhos, agora queremos a verdade”

Jovens sequestrados na periferia de Bogotá, assassinados e depois disfarçados de rebeldes. Era o plano do governo entre 2002 e 2008 para mascarar o fracasso da guerra contra as FARC

Doris Tejada, 66 anos , mostra a foto do seu filho Oscar que ela mandou tatuar no seu braço direito

“Condenados um coronel e outros 20 soldados. Penas de até 53 anos”. Doris Tejada, 66 anos, lê a primeira página de “El Espectador” e esboça um sorriso amargo. Depois balança a cabeça. “O assassino do meu filho não está entre esses soldados”. Oscar sorri numa fotografia ao lado da TV. “Tinha 28 anos quando foi assassinado a sangue frio pelo exército”.

A sua morte está registrada como “falso positivo”. Um eufemismo que esconde um dos maiores horrores da história colombiana. Entre 2002 e 2008, durante a guerra contra as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o exército matou milhares de civis que, depois de mortos, eram disfarçados de guerrilheiros. Uma macabra encenação para mostrar a eficácia da ofensiva contra a guerrilha, encorajada pelas recompensas prometidas pelos comandantes: dinheiro, promoções ou dias de folga por cada cadáver.

O massacre dos falsos guerrilheiros: “Nenhum perdão para os assassinos do meu filho”

No jargão militar um “positivo” é um inimigo abatido em combate. No entanto, aqueles jovens, que foram incluídos na contagem do exército, eram estranhos à guerra: “falsos positivos”, realmente. “O meu Oscar foi morto por quem devia protegê-lo. É uma vítima do terrorismo de Estado” – acusa Doris em lágrimas. Na sua casa em Soacha ela mostra um braço no qual está tatuado o rosto do seu filho. Nesta cidade – um subúrbio pobre de Bogotá, onde em 1989 os sicários de Pablo Escobar mataram o candidato presidencial Luis Carlos Galan – começou a tragédia de dezenas de adolescentes inocentes. Estas estradas poeirentas não pavimentadas e as casas com tijolos à vista escondem a banalidade do mal.

O caso veio à tona em 2008. Em Ocaña, no norte da Colômbia, foi descoberta uma vala comum com 14 cadáveres. Eram os corpos de rapazes desaparecidos algumas semanas antes, todos de Soacha. Uma coincidência que despertou as suspeitas das mães. Poucos meses depois, vem a público um ritual macabro. Os rapazes eram sequestrados ou recrutados por um intermediário com a falsa promessa de um emprego. Depois eram levados para lugares a 700 quilômetros de distância, próximos aos redutos das FARC, e entregues aos militares. Ali eles eram mortos a sangue frio e disfarçados de guerrilheiros. Com artifícios cheios de incongruências: o uniforme imaculado não tinha nenhuma marca de buracos de bala; as botas, símbolo dos guerrilheiros, estavam calçadas nos pés errados; na mão dos cadáveres era colocada uma pistola, sempre na direita, mesmo nos canhotos. A organização Human Rights Watch estima que os casos de “falsos positivos” foram mais de 3.000.

Foto: Maria Sanabria com a foto do filho Jaime Estiven quando criança

“Seu filho morreu em um confronto com o exército. Era um guerrilheiro”. Estas poucas palavras anunciavam a tragédia às mães. Abrindo um abismo de desespero e de interrogações. Como é que o meu filho acabou lá? É possível que se tenha tornado um guerrilheiro em poucos dias?

Entre aqueles rapazes estava Jaime Estiven Valencia. Tinha 16 anos quando foi morto. “Quando denunciei o seu desaparecimento, a polícia disse-me que provavelmente havia fugido com uma garota. Nunca mais voltou” – diz a mãe, Maria Sanabria. Ela viajou de ônibus 700 quilômetros de Soacha em Ocaña para reaver o seu Jaime. “Não me deram a autorização. Tive que roubar o corpo e trazê-lo num saco de lixo. Mas agora posso levar-lhe uma flor no cemitério. Outras mães não têm a minha sorte”.

Algumas fotos de família tiradas antes de os filhos de Doris e de Maria serem mortos

Por causa das suas denúncias Maria recebe ameaças de morte há algum tempo. Ela saiu da sua casa em Soacha e pediu para nos encontrarmos no Museu da Memória de Bogotá. Desde 2010, ela luta contra mentiras e encobrimentos do exército junto com as Mães de Soacha, uma associação que pede verdade e justiça. Um fio trágico liga-as às Mães da Plaza de Mayo argentinas. Diante do desaparecimento dos filhos tiveram de aguentar a mesma frase da polícia: “Por alguma razão será”. Alguma coisa os vossos filhos terão feito para acabarem dessa forma. Um insulto pronunciado também pelo ex-presidente Uribe: “Esses rapazes não estavam lá para colher café”

A fábrica da morte estendia-se por toda a Colômbia. Mas um plano sistemático sempre foi negado pelos altos escalões militares. Depois da explosão do escândalo, as mortes dos “falsos guerrilheiros” caíram 80%. Um acaso? “De modo algum – explica Alirio Uribe Muñoz, senador e defensor dos direitos humanos –. Havia um plano preciso do exército”.

Naquela época o ministro da Defesa era Juan Manuel Santos, o atual presidente da Colômbia. “Ele próprio, o mesmo a que concederam o Prêmio Nobel da Paz. Esse dia foi como cuspir na memória dos nossos filhos”- brada Doris. “Não teremos justiça até que sejam condenados os generais” – diz por seu lado Maria. Até hoje, no entanto, nenhum dos 16 generais sob investigação foi condenado.

Agora o pesadelo das Madres chama-se impunidade, num país onde foram proferidas 130 sentenças para um total de 90.000 casos de desaparecimento forçado. E há alguns meses os militares condenados pediram para serem beneficiados pelo Tribunal especial para a paz criado após os acordos entre as FARC e o governo. Em troca de confissões, poderão obter um desconto significativo por crimes de guerra. “Os assassinos poderão sair da cadeia ou cumprir poucos anos” – denuncia Maria. Recentemente foi concedida liberdade condicional a dois soldados condenados a 35 anos por um caso de “falso positivo”. “Uma vergonha, deveriam apodrecer numa cela” – diz Maria. Os carrascos de seu filho estão sendo processados, embora os juízes continuem a adiar as audiências. “Acham que vão nos enfraquecer, mas deste modo tornam-nos mais fortes. Vamos lutar até o último alento. Devemos isso aos nossos filhos e a todas as vítimas inocentes”.

Autora: FILIPPO FEMIA

ENVIADO A SOACHA (COLÔMBIA)

Fonte: http://www.lastampa.it/2017/06/26/esteri/le-madri-dei-finti-guerriglieri-lo-stato-ha-ucciso-i-nostri-figli-1WKyikd3syT9FvGi4XcctI/pagina.html

 

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