
Patrizia Caiffa – 15 junho de 2017
Foto:Encontro internacional contra corrupção Agensir.it
A corrupção priva as pessoas, sobretudo os pobres, da liberdade, da dignidade e da justiça. A corrupção está presente em toda a parte, em todos os países do mundo, porque nasce no coração do homem.
Para encontrar propostas concretas e combater este “flagelo social” que é também “a linguagem das máfias” – como diz o Papa Francisco – foi realizado hoje um debate internacional organizado pelo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. As entrevistas com o cardeal Turkson e com don Ciotti.
Tradução: Orlando Almeida
É um verdadeiro desafio cultural contra a corrupção o iniciado hoje pela Santa Sé. O Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, em colaboração com a Pontifícia Academia das Ciências, organizou hoje na Casina Pio IV [sede da Academia], no maravilhoso cenário dos Jardins Vaticanos, um evento internacional convidando a participar magistrados, associações, forças da ordem, vítimas crimes e logicamente expoentes eclesiásticos, para discutir aquele que o Papa Francisco define como “o pior flagelo social” e “a linguagem das máfias”. Os participantes estão discutindo um texto preliminar do documento que será aprovado no período da tarde, para identificar propostas concretas que poderiam levar a políticas e leis capazes de prevenir a corrupção.
Falamos desta questão com o cardeal Peter Appiah Turkson, prefeito do referido Dicastério, e autor do livro-entrevista “Corrosão”, lançado hoje. E com don [padre] Luigi Ciotti, fundador da Libera [Associação Libera contra os abusos das máfias da Italia].
A ENTREVISTA:
Card. Turkson, é a primeira vez que a Santa Sé organiza uma iniciativa sobre um tema tão importante e delicado. Por quê?
O Papa nos seus discursos tem falado muitas vezes de corrupção. Este problema social está entre os que são da competência do nosso Dicastério; o livro-entrevista, e o evento de hoje se encaixam neste contexto. A corrupção já é um fenômeno global. O papa Francisco, falando da ecologia e da mudança climática, disse que os problemas globais devem ser resolvidos em nível global, envolvendo todos. O processo começou no ano passado com quatro encontros, envolvendo advogados, juízes, professores, em nível local. Esta é uma tentativa de ampliar um pouco o horizonte mas percebo que é preciso incluir ainda mais pessoas para tornar a consulta universal, estendendo-a outros aspectos e a outros países.
Quais são as raízes da corrupção e o que a Igreja pode fazer?
A corrupção está profundamente arraigada no coração do homem, somos nós que decidimos o que escolher: a avareza e a ganância ou a justiça e o bem comum. A grande missão da Igreja é a redenção do homem através da mudança e da conversão do coração.
Há países virtuosos?
A corrupção está um pouco em toda a parte. É um fenômeno generalizado em todo o mundo, em formas mais ou menos sutis. A última quarta-feira era o dia da festa nacional da Rússia, mas nesse dia houve manifestações contra a corrupção. Para não falar da África.
E com relação à Itália?
Não me atrevo a dizer nada. Durante os meus estudos testemunhei as lutas e os homicídios da máfia. Felizmente diminuíram, mas sei que quando o papa João Paulo II falou contra a máfia fizeram explodir uma bomba em São João de Latrão, como se fosse uma resposta. É um fenômeno que não deve ser subestimado. Se a corrupção é a base que garante o próprio bem-estar, quando se querem fazer mudanças encontram-se resistências. A menos que se ajudem as pessoas a desenvolver outras formas de segurança de vida.
O senhor pode citar algum episódio pessoal a respeito disso?
Quando um estudante faz o exame para entrar na universidade, espera-se que seja admitido com base no mérito. Mas às vezes verifica-se que [há também quem], mesmo tendo notas altas mas não conhecendo ninguém, não é admitido no curso. Esta é uma experiência concreta de corrupção.
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Aqui na Itália, por exemplo, porque é que nas grandes universidades alguns lugares nunca são liberados para novos professores? Por que são intocáveis e inamovíveis?
Há estudantes jovens que não têm qualquer chance de ocupar esses lugares. O que é isto senão corrupção? Deveria haver leis nas universidades que definissem melhor estas regras. Há também casos em que a cátedra é repassada para um parente. É necessária uma mudança do coração, um sistema de valores, é preciso amar um pouco a justiça. Há exigências que devem ser respeitadas. Se vivemos numa sociedade é preciso buscar o bem de todos. São as leis basilares da justiça.
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Don Ciotti, o que o senhor acha das palavras do Papa Francisco contra a corrupção?
O Papa convida-nos a um exame de consciência, a olhar os nossos comportamentos, linguagens e modos. A olharmos para dentro, para depois olharmos par fora: uma Igreja que convida a olhar para o céu sem descuidar-nos das responsabilidades com a terra.
É um grande desafio cultural para sacudir as consciências e educar para a responsabilidade. Aqui ouvi dizer muitas vezes a palavra legalidade mas é preciso cuidado: a legalidade corre o risco de se tornar um ídolo atrás do qual todos se escondem um pouco.
A lei é um instrumento, um meio importante mas o objetivo continua a ser a justiça social.
Legalidade não pode nem mesmo ser tida como uma palavra educativa: é importante fazer projetos nas escolas, mas a legalidade deve concretizar-se , traduzir-se, traduzir-se
- em emprego,
- em serviços,
- oportunidades para os jovens, sustentáculo para as famílias,
- combate às as várias formas de violência e de crime, à heroína que voltou com força, aos jogos de azar.
Caso contrário, continua sendo uma palavra abstrata. Precisamos uma atenção particular também com a dependência dos “eremitas digitais”, aqueles garotos que navegam por horas e horas na internet e se fecham em si mesmos e se tornam patológicos. Aqui nós nos reunimos pra dizer: como Igreja, devemos dar um passo para diante.
Qual foi a sua contribuição para o debate?
Eu tomei a liberdade de dizer que a criminalidade política e econômica andam de braço dado e encorajam a criminalidade organizada. Máfia e corrupção na Itália são duas faces da mesma moeda. A presença criminosa da máfia voltou muito forte apesar do compromisso e do
de muitos. Não é apenas um problema de natureza judicial. As leis sozinhas não bastam. Há uma dimensão cultural e educativa que deve ser levada m conta. E é preciso uma mudança de baixo para cima. Mas não é suficiente: é necessário que os movimentos venham de dentro senão tornam-se eventos, manifestações. Três palavras são fundamentais: a continuidade em fazer as coisas, a partilha e corresponsabilidade. A disponibilidade em colaborar com as instituições se as instituições atuam bem e de ser um aguilhão propositivo se elas não fazem o que devem fazer.
O papa Francisco diz que a corrupção afeta principalmente os pobres.
Certamente. Por exemplo, quando se privatiza a saúde há mais crianças que têm menos acesso aos medicamentos. Este é um dado que devemos levar em conta para dizer que quem é mais frágil e excluído paga um preço alto, porque tem menos acesso aos direitos e à dignidade. Na Itália as máfias não são filhas da pobreza e do atraso em sentido estrito, mas aproveitam-se da pobreza e do atraso para ter um terreno fértil para o recrutamento dos ‘picciotti’[jagunços], para explorar o cansaço e o desespero de tantas pessoas. Há uma pesquisa feita algum tempo atrás que ainda é válida atualmente: pais de família italianos com crianças em casa que procuravam desesperadamente trabalho e declararam estar dispostos, desde que assim pudessem sustentar a família, a aceitar trabalhos em que poderia haver grandes ilegalidades.
Qual é o papel das Igrejas contra a corrupção?
Preciso reconhecer que já existem por aí algumas boas experiências. Devemos apoiar e valorizar as muitas coisas positivas que já estão sendo feitas, mas elas ainda são muito pequenas em comparação com a grande necessidade que existe. As Igrejas têm um papel muito importante no despertar das consciências.
A palavra que se deve gritar aqui hoje é liberdade: porque
- os pobres não são livres,
- as máfias e a corrupção tiram a liberdade, empobrecem.
- Formas de exploração e de escravidão esmagam a vida e a liberdade das pessoas.
- Então é preciso libertar a liberdade, mesmo na Itália.
Muitas realidades têm medo de reagir por causa de situações difíceis e pesadas. Temos de denunciar certo silêncio que mata a esperança e verdade. Na Itália, 70% das vítimas da máfia não sabe a verdade. Há apenas um massacre do qual sabemos a verdade, o de Piazza della Loggia, em Brescia. De todos os outros massacres não sabemos a verdade. Precisamos de liberdade e de verdade.
Patrizia Caiffa