Quando as Curvas ilógicas dão vazão lógica às Retas

Niemeyer: “Projetar Brasília para os políticos que vocês colocaram lá, foi como criar um lindo vaso de flores pra vocês usarem como PINICO. Nunca deveria ter sido projetada como avião. A forma de camburão seria mais propícia.”

 

Usuário: Mhario Lincoln*

 

Com o corpo de Oscar Niemeyer, embalsamado, e fazendo sua penúltima viagem, às 6h30 desta quinta-feira (6), até o Hospital Samaritano, em Botafogo, na Zona Sul, foram junto, também, muitos altos e alguns baixos, inúmeras opiniões, discussões sobre política e comunismo. Debates acalorados sobre socialismo e capitalismo.
Há alguns anos li na revista ‘Domingo’, do então ‘Jornal do Brasil’, (e guardei) uma frase dele que diz muito desse momento:“Lógico que ainda acredito no comunismo. Não sou cretino. É uma ideia que está no coração de todo mundo”. Esse era o Oscar em sua plenitude.

Destarte, Niemeyer não tinha lá muito bom humor quando o assunto era comunismo ou oposição às suas ideias básicas da arquitetura. Tinha posicionamento forte com relação às últimas décadas (mesmo entre 99 e 104 anos) da política nacional.
Aliás, o pensamento político de Oscar Niemeyer sempre foi muito discutido. Em sua longa e obstinada vida, o arquiteto sempre se disse comunista, mesmo sendo alvo constante de críticas por seu pensamento radical, visto por alguns como ultrapassado.
Na verdade, Niemeyer ingressou no Partido Comunista 1945. Sobre isso, cabe aqui uma opinião de Hélio Fernandes, fundador do jornal “Tribuna da Imprensa”. Diz ele, “o Oscar já pertencia ao ‘Socorro Vermelho’, muito antes de o Partido Comunista ser fundado e legalizado em 1932. Fomos perseguidos durante a ditadura militar, instaurada no Brasil em 1964”.

Com sua língua autêntica, às vezes ferina, Niemeyer chegou a declarar decepção com o ex-presidente, logo após a eleição de Luis Inácio Lula da Silva, da qual participou ativamente gravando, inclusive, elogios públicos e eleitorais a favor de Lula.
Essas palavras foram publicadas na revista Veja, em 2006, que explica que tal opinião do arquiteto vieram após a o ex-presidente Lula ter dito: “(…) Niemeyer é uma pessoa idosa de esquerda e deve ter problemas (…)”.
Sobre o assunto e respondendo rapidamente a um repórter na “Folha de São Paulo”, Niemeyer teria deixado escapar: ‘É, que remédio… Surpreendeu todo mundo’, afirmou ele.

“(…) Aos amigos que estiveram com ele nos dois últimos dias, o arquiteto afirmou ter sentido decepção com a declaração do presidente. Disse que não esperava algo do tipo de uma pessoa de origem humilde, que militou no sindicalismo e na política com discurso e posicionamento esquerdistas”. (Veja).

Dono de um carisma impressionante, até mesmo nos últimos dias quando ainda, em cadeiras de rodas, visitou o Sambódromo, no Rio de Janeiro e se emocionou muito, Oscar Niemeyer deu a admiradores, curandeiros, pastores, padres ou umbandistas razões suficientes para tratá-lo como um “quase semideus”, como disse a mãe-de-santo Ubaldina, da Bahia. Mas não foi apenas ela.
Outro exemplo saiu da boca do pastor evangélico sergipano Alair Sérgio. Disse ele que Oscar Niemeyer não morreria tão cedo, pois é ”a reencarnação de Tera, personagem bíblico que viveu exatamente 205 anos. Vocês que acham que ele [Niemeyer] está perto da morte, estão muito enganados. É um senhor bondoso que ainda viverá muito, pregando a palavra do nosso amado Jesus Cristo”.
Mas, Oscar Niemeyer sempre disse ser ateu. Talvez, o pastor sergipano desconhecesse tal verdade. Todavia, o arquiteto que construiu muitas das mais belas igrejas católicas do Brasil – vide livro “As igrejas de Oscar Niemeyer” – destacando a de Brasília e a da Pampulha, em Belo Horizonte, quando perguntado, por exemplo, se acreditava em Deus, sempre repetia:
– Acredito na natureza: tudo começou não se sabe quando nem como. Eu bem que gostaria de acreditar em Deus. Mas não. Sou pessimista diante da vida e do homem.
Mas faz uma ressalva, quando suas obras revelam um lado místico muito grande:
– Acredito que essa mensagem seja assimilada pelo público não em razão de uma fé que não possuo, mas em virtude do meu cuidado em realizar uma obra capaz de exprimir a minha busca da beleza, inseparável do meu interesse pela surpresa arquitetural. Fico sempre contente em saber que as minhas igrejas causam agrado e o espanto necessário, disse.

O arquiteto, que completaria 105 anos no próximo dia 15/12/2012, morreu às 21h55 da quarta-feira (5), em decorrência de infecção respiratória, após estar internado no Samaritano havia pouco mais de um mês.
Mas, antes de morrer, teve participação ativa em diversos e complicados movimentos político-sociais brasileiros. Na sua obra ‘Crônicas’, por exemplo, faz revelações acerca de sua militância comunista, esclarecendo porque ingressou no Partido e porque admirava Brizola, Cuba e Fidel Castro.
Num dos parágrafos afirma: “A revolução de 1905, Outubro de 1917, a vitória contra o nazismo, a libertação de Cuba, tudo isso vai se repetir depois desses tempos sombrios que o capitalismo brutalmente instituiu e o império de Bush procura manter”.
Ainda em ‘Crônicas’, Niemeyer nomeia os seus autores favoritos: Albert Camus, Franz Kafka, Jean-Paul Sartre e André Malraux (de quem foi amigo, na época em que o romancista e aventureiro era Ministro da Cultura). Mas sua admiração maior era também Stalin.
Na entrevista concedida à revista ‘Domingo’, do ‘Jornal do Brasil’, há algum tempo, Niemeyer foi claro com relação a essa sua posição, de direito e de fato: “Nunca dei atenção a essa história de que o comunismo morreu. O que está doente e sem remédio é o capitalismo ainda existente. A revolução soviética representa 70 anos de vitória. A ela devemos a destruição do nazismo. As histórias de Krushev sobre Stalin nunca me convenceram. Com que prazer li no JB: ‘Comunistas soviéticos a caminharem pela Praça Vermelha com o retrato de Stalin!’. Agora, no Canadá, o partido comunista está relançando uma série de livros sobre a vida de Stalin, para reviver a ideia dele. Tudo que foi dito sobre ele foi uma invenção do mundo capitalista. A revolução soviética foi um acidente de percurso. A coisa vai mudar.”
Em outra ocasião, sobre os mesmos pensamentos político-sociais, disse em entrevista ao portal ‘G1’, respondendo ao questionamento de que depois da queda do Muro de Berlim, continuava comunista, mas que o ‘socialismo real’, feito à base de partido único e economia centralizada, ruíu e, por causa disso, poderia ele ser considerado um dinossauro:
– Não. Nunca passou por minha cabeça a ideia de que o que houve na União Soviética tenha sido uma coisa definitiva. Aquilo foi um acidente de percurso muito natural. Foram setenta anos de luta e glória. Os soviéticos viajaram para o espaço. Marx inventou uma história fantástica. Criou uma esperança nos homens. Por que pensar que tudo acabou? Quem leu os clássicos soviéticos sabe que eles são patriotas demais para aceitar essa humilhação, disse Niemeyer.
Além dessas declarações que causaram grande desconforto entre os ditos ‘democráticos puros’, disfarçados de capitalistas selvagens, Oscar não estava feliz com a situação em Brasília. Há alguns meses acabou confidenciando:
– Projetar Brasília para os políticos que vocês colocaram lá, foi como criar um lindo vaso de flores pra vocês usarem como PINICO.
De certa forma, veio a confessar depois, a frase é o resultado da imensa decepção no que tange à vida política de Brasília, tão diferente da época em que JK acompanhava a construção da cidade-sede do País. Niemeyer relembra:
– Uma noite, quando estava sozinho no Palácio, Juscelino me chamou para conversar. Ficava divagando sobre as metas que iria cumprir. Já eram duas horas da manhã quando saímos. Juscelino nos acompanhou até o lado de fora do Palácio da Alvorada. Como era noite, o Palácio, branco, se destacava na escuridão. Juscelino, então, me pegou pelo braço e me disse: ‘Que beleza!’.

Igreja de Brasília, idealizada por Niemeyer.

Para muitos, Oscar nunca foi um bom moço, mas aquele que conseguiu, além de milhares de outras qualidades e como arquiteto em sua plenitude, enriquecer a reta com suas curvas deslumbrantes.
Mesmo em Brasília, onde o grande mentor foi o arquiteto Lúcio Costa, ele arrematou as linhas da cidade com obras deslumbrantes. Entre diversas obras consideradas notáveis, as seguintes são as mais reconhecidas e mais populares: Museu de Arte Contemporânea de Niterói em Niterói; Escola Estadual Governador Milton Campos em Belo Horizonte; Cidade Administrativa de Minas Gerais em Belo Horizonte; Edifícios da Esplanada dos Ministérios, em Brasília; Sambódromo da ‘Marquês de Sapucaí’, no Rio de Janeiro e Memorial da América Latina em São Paulo.
Conte-se ainda um Prêmio Pritzker de Arquitetura (1988) e a Medalha de Ouro do RIBA (1998).

Enquanto velado no Palácio da Cidade, no Rio de Janeiro, cujo enterro está marcado para sexta-feira (7/12/2012), no Cemitério São João Batista, em Botafogo, o corpo de Oscar Niemeyer não traduz, ali, inerte, a sagacidade de sua forma de pensar pulsante e atrevida.
Desse pensamento ativo (mesmo aos 104) anos, saíram pérolas como as que mostro abaixo:
– Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e         sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein.

– Meu médico me proibiu de tomar vinho todos os dias. Sorte que ele não falou nada sobre Smirnoff Ice.
– Existem apenas dois segredos para manter a lucidez na minha idade: o primeiro é manter a memória em dia, o segundo eu não me lembro.
– Brasília nunca deveria ter sido projetada em forma de avião. O de camburão seria mais adequado.
– Perto de mim Justin Bieber ainda é um espermatozoide. (ON).
– Na verdade quem projetou Brasília foi Lúcio Costa. Eu fiz uns prédios e avisei que aquela merda não ia dar certo.
– Sim, ela é aquele avião que não decola NUNCA. Segundo a Nasa, Brasília é inconfundível vista do espaço.
– Duro admitir, mas atualmente Marcela Temer é o monumento mais comentado de Brasília.
– Ganhei um convite para ver o filme da Bruna Surfistinha. Espero que seja MESMO um filme sobre surf.
– O filme da Bruna Surfistinha é uma apologia ao baixo meretrício e aos mais baixos instintos humanos. Mas pelo menos rolou uns peitinhos.
– O frevo foi criado há 104 anos. Ou seja: só tive um ano de sossego desse pessoal pulando de guarda-chuvinha.
– Segredo da Longevidade 48 – Não viva cada dia como se fosse o último. Viva como se fosse o primeiro.
– Na minha idade, a melhor coisa de acordar de madrugada para ir ao banheiro é ter acordado.
– Andei comprando apostilas para Concurso do Banco do Brasil. Não quero viver de arquitetura o resto da vida.
– Só me arrependo de UMA coisa na vida: de não ter cuidado melhor da minha saúde para poder viver mais.
– São Paulo mostrou ao Brasil como se urbanizar com inteligência: basta fazer o exato contrário do que aconteceu lá.
– A quem interessar possa: eu NÃO estive presente na fundação de São Paulo há 457 anos. Na verdade eu não fui nem convidado.

Oscar Niemeyer, por viver tanto tempo, criou um imenso arquivo de bytes que tiveram start nas caixas de tipo, passando pelos linotipos da vida moderna.  No meio desses arquivos, a serem continuados nas nuvens, certa vez disse:
– Passei a considerar minha arquitetura não, como alguns podem pensa, o caminho ideal, mas somente a minha arquitetura. E, para ser coerente, passei a afirmar que, como eu, cada arquiteto deve procurar o seu próprio caminho, sem preconceitos. (Aqui, algo considerado egoico por analistas do contra.).
Quando à opinião de muitos sobre ele e sua forma pujante de pensar, lembro, enfim, uma declaração do escritor português José Saramago:
– Niemeyer. Trata-se de ser fiel a princípios, e não a táticas, estratégias de política, conquista de poder, não tem nada que ver com isso. Trata-se de princípios e não podemos renunciar a eles. Oscar Niemeyer não renunciou e eu não o felicito. Não felicito o Oscar por não ter renunciado. Não lhe agradeço porque simplesmente é uma expressão de sua própria humanidade. Eu creio que é uma pessoa que está em paz consigo mesmo. E estar em paz consigo mesmo não é fácil. Porque vivemos num mundo de contradições, de tensões. No fundo vivemos num temporal. E manter o rumo no meio deste temporal, com ventos que sopram de todos os lados, isso o Oscar conseguiu. Afirmou o escritor português.
FONTE: http://portalaquibrasil.com.br/noticias/ver/mhario-lincoln-quando-as-curvas-ilogicas-dao-vazao-logica-as-retas-ID.3526
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* Mhario Lincoln é jornalista e diretor-geral do
Portal Aqui Brasil.
www.portalaquibrasil.com.br

Categoria: Mhario Lincoln

Fonte: Mhario Lincoln/Fotos Google

Tags: Oscar Niemeyer , arquitetura, brasil, doença

 

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