Após o impeachment do Park, favorito o candidato do Partido Democrático Moon Jae-in, que propõe a retomada do diálogo com a Coreia do Norte e da “ Sunshine policy “
Paolo Affatato -Roma, 17/03/2017
Foto: Moon Jae-in . REUTERS
Seria um presidente católico, o que certamente não desagradaria a Igreja coreana. Moon Jae-in, advogado de 63 anos e líder do Partido Democrata, é o grande favorito para as próximas eleições presidenciais na Coreia do Sul, marcadas para 9 de maio. De fato, o caso envolvendo a agora ex-presidente Park Geun-hye (que mudou seu nome para “Partido da Liberdade da Coreia”), abrindo caminho para a frente democrática reconquistar, depois de oito anos na oposição, a presidência.
Moon Jae-in, com uma longa carreira de advogado e de ativista pelos direitos humanos, tinha perdido as eleições de 2012 para Park, mas agora apresenta-se como franco favorito, segundo os prognósticos, num momento em que os eleitores democratas decidiram levantar a cabeça. São dois os pontos chave do seu programa eleitoral que hoje, segundo as pesquisas, conta com o apoio da maioria da opinião pública: a recuperação econômica e a paz com a Coreia do Norte.
No plano econômico, Moon propõe a reforma radical dos “chaebol”, os grandes conglomerados empresariais que dominam a economia coreana e estiveram no centro da crise política, por sua contaminação com o poder executivo: reforma, esta, também defendida no passado, para pôr fim à corrupção e aos conluios perniciosos entre política e economia. Além disso, deixando os observadores desorientados e provocando muitas dores de cabeça à administração americana, Moon declarou candidamente que, se for eleito, gostaria de ir “antes a Pyongyang antes de Washington,” relegando simbolicamente o principal aliado político e estratégico do seu país a segundo plano frente à urgência de lançar uma ponte sobre a cortina de bambu.
Para compreender esta abordagem, é preciso lembrar que os pais de Moon são originárias do Norte. Fugiram para o Sul durante a Guerra da Coreia e estabeleceram-se em Busan em uma favela onde cresceu Moon. Preso em 1975 por protestar contra a ditadura de Park Chung Hee (pai de Park Geun-hye), Moon depois escolheu o caminho da advocacia e iniciou a carreira política entre os democratas, trabalhando como chefe de gabinete ao lado do ex-presidente Roh Moo-hyun (que dirigiu o país entre 2003 e 2008), figura carismática e muito popular.
Moon está ligado politica e espiritualmente a Roh e ao seu antecessor, Kim Dae-jung, que também era um católico fervoroso. Kim Dae-jung, presidente entre 1998 e 2003, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2000, passou a vida inteira promovendo os direitos humanos, a democratização e a paz na península coreana. Deve-se a Kim a “Sunshine policy” – a política externa em relação a Pyongyang – que representou o ponto mais alto das relações inter-coreanas nos últimos 60 anos, simbolizada pela histórica reunião de cúpula entre Kim Dae-jung e ditador da Coreia do Norte Kim Jong-il, em 2000.
A “Sunshine policy” de Kim baseava as relações bilaterais em três princípios:
- parar as provocações militares da Coreia do Norte;
- garantir que o Sul não queria anexar o território do Norte;
- ativar canais e iniciativas de cooperação.
O objetivo final era lançar as bases para uma convivência pacífica em vez da mudança de regime ou a reunificação imediata.
Esta abordagem radicalmente diferente da dos governos anteriores, demonstrou ser também mais efetiva: entre os frutos colhidos,
- o lançamento do projeto turístico conjunto no Monte Kumgang (na Coreia do Norte),
- o restabelecimento da ligação entre ferrovias das duas Coreias,
- os encontros frequentes entre as famílias divididas.
E, durante o período de presidência de Roh Moo-hyun, foi a continuidade da “Sunshine Policy” que permitiu a instalação do Parque Industrial de Kaesong, um projeto conjunto Norte-Sul iniciado oficialmente em 2005, que permitiu a implantação de um complexo de 250 empresas da Coreia do Sul em território norte-coreano, com trabalhadores de ambos os países (mais de cem mil trabalhadores eram norte-coreanos).
O fechamento do parque de Kaesong, decidido pela presidente Park antes do escândalo que provocou o seu ‘impeachment’, é a marca da inversão de rumo realizada nos últimos dez anos pelos governos conservadores de Lee Myung-bak e Park Geun-hye: dois líderes que repudiaram abertamente a política que hoje o candidato Moon Jae-in quer decididamente reeditar.
Esta perspectiva tem o beneplácito da Igreja coreana. De fato reativar canais de intercâmbio e relações institucionais com o Norte poderia também ser benéfico para os fiéis cristãos de Pyongyang: segundo as autoridades norte-coreanas, seriam cerca de 3 mil, mas segundo outras fontes da Igreja sul-coreana, poderiam ser 10 mil as pessoas que professam a fé cristã nos seus corações e a praticam em segredo.
Paolo Affatato
