Entrevista com Marie Collins, após a demissão da Comissão para a tutela dos menores, no Vaticano: “É preciso mudar a mentalidade, mas o Vaticano continua a luta contra a pedofilia, o saldo é positivo”
Andrea Tornielli –Cidade do Vaticano -02/03/2017 
Na foto: Marie Collins. – La Stampa
“Quando há três anos aceitei a minha nomeação para comissão, eu tinha declarado: se eu encontrasse um conflito entre o que estava acontecendo nos bastidores e o que estava sendo dito publicamente, eu não permaneceria. Isto aconteceu e por isso saio”.
O telefone da casa de Marie Collins em Dublin está fervendo, ligam de todo o mundo”.
Tradução: Orlando Almeida
A notícia da sua demissão da comissão anti-abusos criada pelo Papa Francisco foi um raio em céu azul no dia em que a Igreja Católica celebra o início do período penitencial da Quaresma. Marie, quando criança, foi abusada por um padre e sempre esteve empenhada em ajudar as vítimas da pedofilia.
Eis a Entrevista:
A senhora falou de resistências internas. Acredita que a Cúria esteja resistindo às novas normas contra este terrível fenômeno dos abusos contra menores?
Não, eu não creio que haja resistências às normas ou a ações específicas contra a pedofilia. Trata-se mais de uma sensação de que o trabalho da nossa comissão tenha sido considerado por alguns como uma interferência. Não sei dizer se isso faz parte das resistências ao Papa. O que encontrei foi antes uma relutância geral em colaborar.
No entanto a senhora citou pelo um caso específico, sustentando que havia sido gota que fez transbordar o vaso: a falta de compromisso por parte da Congregação para a Doutrina da Fé em responder a todas as cartas das vítimas…
Não quero dizer os nomes dos dicastérios. Mas, este sim, é um caso específico. Se és uma vítima, um sobrevivente, e escreves para contar a tua história pedindo ajuda e justiça, e vês que não te respondem, és ferido novamente. Isto é difícil de entender.
No entanto, Bento XVI e Francisco encontraram-se com as vítimas, ouviram-nas, receberam-nas. Francisco tinha dito sim à nossa recomendação. Pedíamos que se respondesse sempre e diretamente a cada uma das vítimas. O Papa estava de acordo, mas alguns não quiseram seguir esta indicação.
Qual a razão da recusa?
Eles têm os seus próprios procedimentos internos para despachar a correspondências, e esses procedimentos prevêem que não se responda diretamente às vítimas, uma tarefa que cabe aos bispos locais.
Como a senhora reagiu a esta notícia?
Não consegui suportar esta atitude para com as vítimas. Parece-me uma falta de respeito e eu não posso continuar, as pessoas devem saber que existem pessoas que criam essas dificuldades.
A senhora vê algum recuo em relação às decisões tomadas até agora para combater este crime hediondo?
Não, o trabalho continua. Gostaria que fosse feito mais depressa, que se fizesse mais. Mas a luta contra a pedofilia continua e, embora existam pessoas que resistem às nossas indicações, isso não significa que a pedofilia não é combatida. O cardeal O’Malley foi nomeado como um dos membros da Congregação para a Doutrina da Fé, espero que se possa mudar e seguir em frente.
A senhora vai continuar a trabalhar com a Santa Sé?
O que me fez deixar [a comissão] foram certas resistências por parte de alguns curiais; mas sim, eu continuo envolvida nas iniciativas educativas do Vaticano, porque, apesar das resistências, encontrei na Cúria muitas pessoas verdadeiramente disponíveis para ouvir, empenhadas em mudar para proteger sempre melhor as crianças. O saldo, em suma, é positivo. Não há apenas sinais negativos. Penso por exemplo nos grandes passos dados na formação dos seminaristas, o trabalho da Congregação do Clero foi excelente. São também importantes os cursos de formação na Universidade Gregoriana. Portanto, o compromisso continua, a “tolerância zero” para com quem abusa de menores não está em discussão.
Qual é a avaliação da luta contra o fenômeno nos últimos anos?
Em muitos países deram-se passos para diante, outros países estão mais atrás, e entre eles está a tália. Pode-se ter as regras mais eficazes, as melhores garantias e proteções para as crianças, mas se não mudar a mentalidade das pessoas, elas não são suficientes. E para mudar a mentalidade é preciso mais tempo.
Andrea Tornielli
