Não à lógica do tudo ou nada

 

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1. Perante o rumo assustador que a política internacional está a tomar e a múltipla inconsciência na “União Europeia”, fui interpelado por alguns católicos, que se identificam com a herança do Vaticano II, para a urgência de reunir pessoas de “boa vontade”, não apenas para interpretar os sinais deste tempo, mas sobretudo para encontrar formas activas de responder à pergunta dos Actos dos Apóstolos: que fazer?

O Islão, pelo contrário, está forte, tem um exército planetário, constituído por inumeráveis crentes prontos a morrer por Alá e o seu Profeta, ancorados em apetecíveis recompensas celestes.

A referida Revista está recheada com uma entrevista a M. Onfray, extractos do seu livro e algumas mansas réplicas.

O entrevistado deleita-se no exercício do contra ponto.

  • Nós somos os últimos da civilização moribunda e mergulhados no niilismo,
  • eles no fervor;
  • nós estamos esgotados,
  • eles cheios de saúde;
  • nós deixamo-nos engolir pelo instante,
  • eles movidos por uma eternidade gloriosa;
  • temos por nós o passado,
  • eles têm o futuro;
  • para eles, está tudo a começar,
  • para nós, está tudo a acabar.

Segundo este filósofo, cada coisa tem o seu tempo.

  • O judeo-cristianismo reinou quase dois mil anos. Uma duração honrosa para uma civilização.
  • Aquela que a substituirá também será substituída. É uma questão de tempo.
  • O nosso barco afunda-se, resta-nos desaparecer com elegância.

Este determinismo coloca os próprios católicos fora de jogo. O Concílio Vaticano II em nada nos pode ajudar. Querendo ser um remédio, aumentou a doença.

Ao fazer

  • de Deus um colega que trata por tu;
  • do padre, um amigo convidado para férias;
  • do mundo simbólico, uma velha lua a ignorar;
  • do mistério da transcendência, uma rasteira insignificância;
  • da missa, uma cenografia decalcada das emissões televisivas;
  • do ritual resistente, uma cançoneta ligeira;
  • da mensagem de Cristo, um simples panfleto sindicalista;
  • da batina, um disfarce de teatro;
  • das outras religiões e espiritualidades, algo equivalente ao cristianismo.

Enfim: a Igreja, ao precipitar o movimento de fuga para a frente, provocava o seu descalabro.

 

2. Dir-se-á que esta caricatura ignorante não passa de mais uma reprodução lefebvrista. Está longe da cultura da subtileza e do rigor. A experiência do autor, num colégio católico, deixou-lhe recordações da violência, real e simbólica, que não são indiferentes à sua vontade de desconstrução radical.

Seria, todavia, grave que, por causa das análises inadequadas do autor, não perguntássemos com insistência:

o que aconteceu, ao longo dos séculos, para se esquecer, que numa das primeiras comunidades cristãs não havia, entre eles, nenhum indigente (…); distribuía-se a cada um segundo a sua necessidade[ii]? Hoje, o abismo entre ricos e pobres continua escandaloso. Alguns desses ricos e opressores ainda passam por benfeitores. Que enxertos perversos foram feitos na árvore cristã para dar frutos tão maus?

No ano 2000, o Papa João Paulo II multiplicou as confissões de arrependimento pelos pecados e crimes dos homens da Igreja. Pretendia ser um trabalho de purificação da memória e os contínuos incitamentos à globalização da solidariedade e a oposição frontal à guerra no Iraque. Estamos confrontados com a “vitória” de Donald Trump, a religião dos muros, as ameaças em todas as direcções e a derrota da civilização! Há muita gente assustada e outra resignada. Há também quem resista.

 

3. O Papa Francisco, no longo discurso da audiência natalícia à Cúria romana, deu publicamente contas do que foi realizado na reforma da Cúria, no banco do Vaticano, de todas outras reformas em curso, com todos os pormenores, marcando bem qual é a lógica que o guia:

se a lógica do Natal é a subversão

  • da lógica do mundo,
  • da lógica do poder,
  • da lógica do controle,
  • da lógica farisaica
  • e da lógica casualística ou determinista,

então também a lógica da reforma da Cúria deve ir nesta direcção[iii].

Há quem diga que é muito exigente e extremamente severo com cardeais, bispos e padres, quando não espelham uma Igreja pobre, dos pobres e para os pobres. De facto, para ele, o clericalismo é um mal terrível que tem raízes antigas e, como vítimas, sempre “o povo pobre e humilde”.

Não é por acaso que também hoje, na missa, o Senhor repete, aos “intelectuais da religião”, que os pecadores e as prostitutas os precederão no reino dos céus[iv].

O Papa não é um Trump de batina. Numa homilia, estava a proclamar que é preciso viver a santidade pequenina da negociação, ou seja, aquele realismo sadio que a Igreja nos ensina: rejeitar a lógica do isto ou nada e de empreender o caminho do possível para nos reconciliarmos uns com os outros.

Nisto, uma criança desata a chorar: “não vos preocupeis porque a pregação de uma criança na igreja é mais bonita do que a do sacerdote, do bispo ou do Papa. Deixai-a chorar, porque é a voz da inocência que nos faz bem a todos”[v].

 


[i] Cf. 5 Janvier 2017, pp.38-53; Décadence, Flammarion, Paris 2017.

[ii] Act.4,31-35

[iii] L’Osservatore Romano, 29. Dezembro. 2016.

[iv] L’Osservatore Romano, 22. Dezembro. 2016, p.12 – Refere-se a Mt 21, 28-31.

[v] L’Osservatore Romano, 16. Junho. 2016, p.14

 

 Frei_bento_domingues

Frei Bento Domingues

Fonte: https://www.publico.pt/2017/01/22/mundo/noticia/nao-a-logica-do-tudo-ou-nada-1759197

 

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