
Anselmo Borges 20/01/2017
“O biblista célebre acaba de publicar uma obra com o título em epígrafe: Quién era la serpiente del Paraíso… y otras 19 preguntas sobre la Biblia.
Dada a sua importância, servir-me-á de inspirador para as duas próximas crónicas. Importância, porquê? Vivemos em tempos de urgência do diálogo inter-religioso.”
1. É claro que a fé não deriva da razão, à maneira da matemática ou da ciência, não sendo, portanto, demonstrável cientificamente. Mas também se deve tornar claro que a fé não pode agredir a razão, com a qual tem de dialogar, dando razões de si mesma.
Há que distinguir entre saber e crer. Como dizia o médico e filósofo Pedro Laín Entralgo, o penúltimo é da ordem do saber, mas o último é da ordem da crença.
Por isso,
- o crente não pode dizer que sabe que Deus existe e que há vida depois da morte,
- como o ateu não pode dizer que sabe que Deus não existe e que com a morte a pessoa acaba:
o crente e o não crente não sabem, crêem, com razões.
Neste contexto, Kant é inultrapassável, também quando escreveu que, apesar da sua majestade, a religião não está imune à crítica. Aliás, o Evangelho segundo São João inaugura-se dizendo: “No princípio, era o Logos“, portanto, o Verbo, a Palavra, a Razão. E “foi pelo Logos que tudo foi criado”, provindo daí, como sublinharam vários cientistas, que a criação, a natureza, é investigável, pois é racional.
Uma religião que tem medo
- da razão,
- da investigação crítica,
- do confronto e diálogo com as ciências,
não é humana nem presta verdadeiro culto a Deus, correndo o risco de um dogmatismo estéril e, no limite, ridículo. Como o não crente também não pode ser dogmático nem fundamentalista.
2. Uma das aberturas do Concílio Vaticano II consistiu num diálogo aberto com as diferentes ciências, sem medo da investigação, e na salvaguarda dos direitos humanos, como o da liberdade de expressão. Depois, nos pontificados de João Paulo II e Bento XVI, foi reduzida a liberdade de investigação teológica, contando-se por centenas os teólogos
- condenados,
- admoestados,
- proibidos de escrever e ensinar.
A Teologia tornou-se, assim,
- afónica,
- remetida para um silêncio forçado,
- ou tolhida dentro de uma linguagem escolástica e repetitiva, passando ao lado dos grandes problemas do mundo,
de tal modo que o famoso bispo Pedro Casaldáliga pôde denunciar em 1995:
“Com muita frequência nós, os bispos, julgamos que temos a razão, normalmente pensamos que a temos sempre. Ora, o que acontece é que nem sempre temos a verdade, sobretudo a verdade teológica, de modo que vos peço, a vós, teólogos, que não nos deixeis numa espécie de ignorância dogmática.”
Uma das novidades fundamentais do pontificado de Francisco é que a liberdade dos teólogos regressou como algo natural, sem censuras nem condenações. Isabel Gómez Acebo chamou a atenção para o facto:
“Uma das mudanças que o Papa Francisco introduziu, e sem que ninguém se tenha dado conta, é que a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé não publicou nenhum documento para toda a Igreja nestes últimos anos, quando em épocas anteriores o fazia entre duas e quatro vezes por ano” – com uma excepção, anoto eu: aquele sobre a cremação e o sepultamento dos mortos.
E é um facto que, embora o tenha mantido no cargo, não tem utilizado os serviços do seu Prefeito, cardeal Gerhard L. Müller, concretamente não o chamou para apresentar documentos oficiais, nomeadamente “A Alegria do Amor”, referente às questões da sexualidade, do amor e da família.
Mais: de modo indirecto, Francisco tem tentado a recuperação e a reconciliação com teólogos condenados. É assim que se poderia explicar, só para dar exemplos, a aproximação
- a Leonardo Boff, que ainda recentemente confessou publicamente que, em caso de necessidade de alguma comunidade, continua a presidir à Eucaristia,
- a Hans Küng, a quem já escreveu duas vezes,
- a José M. Castillo...
Mais significativo é que levantou, numa carta pessoal autografada, a sanção que o Vaticano, por intermédio do cardeal T. Bertone, tinha imposto ao biblista argentino Ariel Álvarez Valdés, proibindo-o de “ensinar, escrever, publicar, dar aulas e cursos, e falar através da rádio e da televisão”.
3. O biblista célebre acaba de publicar uma obra com o título em epígrafe: Quién era la serpiente del Paraíso… y otras 19 preguntas sobre la Biblia. Dada a sua importância, servir-me-á de inspirador para as duas próximas crónicas. Importância, porquê? Vivemos em tempos de urgência do diálogo inter-religioso.
Ora, uma das sua condições essenciais é a leitura histórico-crítica dos textos sagrados: não uma leitura literal, mas uma leitura que conhece as regras exegéticas e hermenêuticas: atenção
- ao contexto histórico,
- à língua,
- ao género literário,
- aos destinatários,
- à sua intencionalidade última…
E Ariel Álvarez é um bom exemplo para os fundamentalistas cristãos e, consequentemente, para seguidores de outras religiões, nomeadamente no mundo islâmico. Seja como for, apesar de tudo, dentro do cristianismo, deram-se passos de gigante neste domínio.
4. Afinal, “quem era a serpente do Paraíso?” Houve as interpretações mais díspares: que era
- uma víbora autêntica, mas possuída pelo Diabo;
- uma imagem, símbolo de Satanás;
- “um símbolo geral dos maus desejos e dos prazeres sensuais”.
De facto, nada disto está no texto, concretamente não há conotações sexuais no pecado de Adão e Eva. Como não há maçã nenhuma: a confusão veio do facto de em latim maçã se dizer malum e mau se dizer malus e malum.
A serpente é apenas o símbolo da religião cananeia, que via nela três qualidades:
- conceder a imortalidade,
- garantir a fecundidade,
- ser o protótipo da sabedoria.
Um escritor anónimo escreveu, e isso aparece no livro do Génesis, sobre os perigos da religião cananeia: em vez do paraíso para todos, estava–se a viver no meio de injustiças, fome, dores, morte, e a causa da situação estava na religião cananeia, que levava o povo a refugiar-se numa religião de ritos exteriores e fetichistas, incluindo a prostituição sagrada, em vez de seguir a Lei do Deus vivo e “procurar a felicidade numa vida moral justa e honesta, ao serviço dos irmãos”.
Anselmo Borges
