Autorização de preservativo foi pretexto para um conflito entre Francisco e ordem com origem no século XI; mas por trás está a luta de poder entre os sectores mais conservadores e os mais progressistas da Igreja Católica.
O Papa Francisco vai nomear um homem de sua confiança para liderar temporariamente a Ordem Soberana de Malta, depois de o grão-mestre desta organização humanitária fundada na época medieval se ter demitido, no culminar de uma disputa com o Vaticano sobre a sua soberania.
A Ordem de Malta é reconhecida como uma entidade soberana por uma centena de países, e o Vaticano é um Estado, o que eleva o nível deste confronto. A nomeação do “delegado pontifício” para liderar a Ordem seria “temporária”, dizem fontes do Vaticano, até os cavaleiros de Malta estarem em condições de eleger o seu próprio líder outra vez.
No entanto, fontes que conhecem o caso dizem que o afastamento de Boeselager é na verdade a expressão exterior de uma luta de poder mais profunda no interior da Igreja Católica,
- entre a linha mais conservadora, representada por Festing e o super-conservador cardeal norte-americano Raymond Leo Burke, o patrono da Ordem de Malta,
- e forças mais progressistas.
Em 2014, o cardeal Raymond Leo Burke foi afastado da Segnatura Apostolica, o Supremo Tribunal do Vaticano, após Francisco se ter tornado Papa. Burke tem assumido posições polémicas. Diz que o “feminismo radical” está na origem de muitos problemas na Igreja Católica, como a pedofilia.

Festing e o cardeal Burke: eles quiseram desafiar a autoridade de Francisco…
Quando Festing despediu Boeselager, acusou o alemão de lhe esconder o facto de permitir o uso de preservativos quando dirigiu a agência humanitária da Ordem, a Malteser Internacional. Boeselager diz que encerrou dois projectos quando descobriu que estavam a ser distribuídos preservativos, e manteve um terceiro, porque não queria terminar de forma abrupta a prestação de cuidados médicos a uma população sem alternativas.
A Igreja Católica não autoriza os preservativos como forma de controlo de natalidade e considera a abstinência como a melhor forma de evitar o contágio da sida.
Os líderes da Ordem Soberana de Malta
- não são padres,
- mas fazem votos de pobreza, castidade e obediência ao Papa.
A instituição tem 13,500 membros, emprega 25 mil pessoas e tem 80 mil voluntários espalhados pelo mundo. A Ordem foi fundada no século XI, para dar protecção e cuidados de saúde aos peregrinos na Terra Santa, e mantém relações diplomáticas com mais de 100 Estados, com a União Europeia e tem estatuto de observador permanente nas Nações Unidas.

Philip Pullella