Desordem grave na “Ordem de Malta”: o cardeal Raymod Burke ataca de novo. Mas é desmentido pelo Vaticano.
Nicolas Senèze, de Roma, em 2017/01/06
Tradução: Orlando Almeida
Uma troca de cartas entre o Secretário de Estado da Santa Sé e o Grão-Mestre da Ordem de Malta incrimina o Cardeal Raymond Burke na demissão do grão-chanceler Albrecht von Boeselager.
“Resta saber por quais razões o cardeal americano Raymond Burke – notório opositor do Papa Francisco – envolveu a responsabilidade da Santa Sé nesta questão, apenas alguns dias antes do anúncio da nomeação do irmão de Albrecht von Boeselager para o Conselho de Superintendência do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o “banco do Vaticano.”
O semanário católico britânico The Tablet tornou pública, na quinta-feira, 5 de janeiro, uma carta do cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado da Santa Sé, ao Grão-Mestre da Ordem de Malta, que revela que – ao contrário das afirmações do cardeal Raymond Burke, representante do papa junto à Ordem – a Santa Sé nunca pediu a destituição do Grão-Chanceler.
Na Foto: Papa Francisco e Frei Matthew Festing, Grão-Mestre da Ordem Soberana de Malta
Em 6 de dezembro, o Grão-Mestre da Ordem Soberana de Malta, Frei Matthew Festing, tinha convocado ao seu gabinete o grão-chanceler, Albrecht von Boeselager, exigindo a sua demissão na presença do Cardeal Raymond Burke, cardeal protetor e representante do Papa junto à Ordem, que teria explicado que este pedido era feito “de acordo com os desejos da Santa Sé”.
De acordo com uma carta, enviada poucos dias depois pelo cardeal Parolin a Frei Matthew Festing, fica claro que o Papa nunca quis a demissão do chanceler.
“Em primeiro lugar devo lembrar que estas medidas não devem ser atribuídas à vontade do papa ou a suas recomendações”, – escreveu o cardeal em uma carta enviada ao Grão-Mestre em 21 de dezembro.-
O Cardeal Parolin solicita que a demissão seja “suspensa”.
“Como eu lhe disse na minha carta de 12 de dezembro de 2016, – continua o Cardeal Parolin – ‘no que diz respeito ao uso e difusão de métodos e de meios contrário à lei moral, Sua Santidade pediu o diálogo como meio para tratar e resolver os eventuais problemas’. Mas ele nunca falou para demitir alguém!”.
Parolin solicita ainda que a demissão de Albrecht von Boeselager (Foto) seja “suspensa” até que a comissão instituída pelo Papa para se pronunciar sobre este caso apresente as suas conclusões.
Uma comissão da qual o grão-mestre contestou a competência, argumentando que a sua decisão de demitir o grão-chanceler decorre de “um ato de governo interno” da Ordem Soberana.
Mas, em sua carta, o cardeal Parolin lembra que a Ordem de Malta é também uma “ordem religiosa leiga (que atua) a serviço da fé e do Santo Padre”, e que, portanto, a Santa Sé é realmente competente na matéria.
Resta saber por quais razões o cardeal americano Raymond Burke – notório opositor do Papa Francisco – envolveu a responsabilidade da Santa Sé nesta questão, apenas alguns dias antes do anúncio da nomeação do irmão de Albrecht von Boeselager para o Conselho de Superintendência do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o “banco do Vaticano.”
Junto com dois outros banqueiros, Georg von Boeselager foi efetivamente nomeado pelo papa para substituir vários dirigentes do IOR, que, defendendo a ideia de criar um fundo de investimento em Luxemburgo à qual se opunha o papa, renunciaram em maio passado.
De acordo com Albrecht von Boeselager, a sua demissão foi motivada pela distribuição de preservativos dentro do quadro de três projetos da Ordem na Birmânia na época em que ele era o Grão-Hospitalar da Ordem (encarregado da ação humanitária), cargo que ele deixou em 2014.
“Quando isso foi descoberto durante a auditoria de rotina, dois desses projetos foram interrompidos de imediato” – escreveu ele ao Tablet. – “O fechamento imediato do terceiro projeto resultaria no fim abrupto de todos os serviços médicos básicos numa região extremamente pobre de Myanmar; este problema foi submetido a uma comissão de ética (da Ordem). Posteriormente o projeto foi suspenso, depois de uma declaração da Congregação para a Doutrina da Fé”.
Embora resolvido há muito tempo, o caso ressurgiu de repente antes da nomeação do seu irmão para o IOR, notadamente numa publicação do Instituto Lepanto, uma organização dirigida a partir de Estados Unidos por Michael Hichborn, leigo
- muito envolvido nos círculos pró-vida,
- mas também cético do clima
- e engajados contra as principais associações de promoção do desenvolvimento que, como papa, questionam um liberalismo econômico sem limites.

Nicolas Senèze