Putin soube transformar as incertezas políticas do Ocidente em oportunidades para Moscovo.
Real ou imaginário, o poder de Putin desorienta os ocidentais, ultrapassados pela sua capacidade de iniciativa.
A Rússia
- anexou a Crimeia
- e continua activa na Ucrânia,
- dita a sorte da guerra na Síria,
- reorganiza alianças no Médio Oriente,
- alarga a sua influência na Ásia,
- desafia a União Europeia, onde sopram os populismos,
- ameaça os vizinhos bálticos
- e, last but not the least, passa por ter influenciado a eleição do novo Presidente americano.
Reconhece o Le Monde:
“Se em 2016 Trump monopolizou a actualidade, Putin foi o homem do ano. A corrida de fundo em que o Presidente russo se lançou há 16 anos para recolocar o seu país no centro do jogo está a dar os seus frutos de forma espectacular.”
Soube transformar as incertezas políticas que dominam o Ocidente em oportunidades para Moscovo. Longe vão os tempos em que a Administração Bush e a União Europeia subestimaram a capacidade de a Rússia defender os seus interesses geopolíticos.
As obsessões de Moscovo
A Rússia tem algumas obsessões existenciais.
- A primeira é ver reconhecida a sua “esfera de influência”, perdida com a desintegração da URSS e a marcha da NATO para leste.
- A segunda é assegurar os seus “interesses vitais” noutras regiões do mundo, como a Ásia e, agora, o Médio Oriente, de onde foi afastada pelos EUA de Kissinger nos anos 1970.
- E, enfim, exige ser tratada pelos Estados Unidos como uma potência igual.
“A Rússia não é a União Soviética, não estamos na Guerra Fria e Moscovo já não visa o domínio mundial. O objectivo de Putin está limitado a reduzir a influência dos EUA no mundo como forma de assegurar os seus interesses vitais, mas o poder que pode projectar continua minado por uma economia débil e por uma capacidade global que empalidece, se comparada com a dos Estados Unidos”, escreve David Filipov, correspondente do Washington Post em Moscovo.
Toda a acção de Putin se desenrola no sentido de pôr termo à ordem internacional que sucedeu à Guerra Fria, a breve Pax americana. Não foi a Rússia quem pôs termo a esta ordem, foi a emergência da China e das novas potências regionais que entretanto se firmaram no tabuleiro internacional. Os Estados Unidos reconheceram este facto e até antes do mandato de Obama:
- permanecem como a maior potência, única pelo seu poderio económico-militar e pela capacidade de projecção global.
- Mas perderam a capacidade de ditar unilateralmente a ordem mundial.
Sublinha Jeffrey Matloff, do think tank Center for Strategic and International Studies:
“Moscovo deseja diminuir as tensões com os Estados Unidos e obter o acordo de Washington sobre um novo mundo multipolar baseado em esferas de influência das grandes potências, em detrimento das normas e instituições liberais que dominaram a era pós-Guerra Fria.”
Da Síria à Ucrânia
É dentro da sua “visão” que Moscovo entende negociar. E os temas em disputa são mais complicados do que parecem. A cooperação antiterrorismo será o tema mais fácil. Mas outros há.
“Não é difícil inferir o que Putin desejaria obter num ‘grande negócio’ entre ele e Trump”, escreve na Foreign Affairs o historiador britânico Niall Ferguson.
- “Item n.º 1: o levantamento das sanções.
- Item n.º2: um fim da guerra na Síria em termos russos — que incluiria a preservação de Assad no poder, no mínimo após um ‘intervalo decente’.
- Item n.º 3: o reconhecimento de facto da anexação russa da Crimeia e algumas mudanças constitucionais destinadas a tornar impotente o governo de Kiev, concedendo à região oriental do Donbass um permanente direito de veto pró-russo.”
Que daria a Rússia à América em troca de tais concessões?
É indiscutível que a guerra síria precisa de acabar, tal como o conflito “congelado” na Ucrânia, diz Ferguson.
“Mas os termos de uma paz podem e devem ser muito diferentes daquilo que Putin tem em mente. Qualquer acordo que pacifique a Síria sacrificando a Ucrânia seria um grave erro.”
E que concessões está Putin disposto a aceitar sobre uma Ucrânia neutral e independente?
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Moscovo aposta no argumento de que nem na Ucrânia nem na Síria estão em jogo “interesses vitais” americanos. E aposta noutro plano, pensando:
um “negócio” com o adversário tem precedência sobre a defesa de um aliado, tanto mais que a Ucrânia não faz parte da NATO. E, explorando o que Trump até agora disse em termos de política internacional, calculará que a Europa ficaria à margem de um entendimento entre os “grandes”.
“Moscovo está pronta para uma nova ‘grande negociação’ e tornou-o claro”, escreve a analista russa Lilia Shevtsova, do think tank britânico Chatham House. “Quer
- não apenas um ‘novo [acordo de] Ialta’ – foto- (entre Rússia, USA, Inglaterra, em 1945, para repartyir o Mundo em Zonas de Influência dos vencedores de 2ª guerra mundial – NdR),
- mas também um acordo sobre o direito de a Rússia interpretar as regras globais e construir uma ordem baseada no equilíbrio dos interesses e poderes.”
O raciocínio de Shevtsova parece excessivo, dada a fraqueza real da Rússia em relação à América. Mas é útil para iluminar a nova era internacional e as tensões que vão disparar. O grande novo risco é o dos equívocos na interpretação das palavras e das intenções do adversário — que em 1914 a Europa pagou muito caro.
Por fim, um “grande negócio” russo-americano não pode iludir o factor China. É evidente que as ideias de Trump se inserem no triângulo Washington-Moscovo-Pequim.
Diga-se que a linha dura de Trump em relação a Pequim não desagrada a Moscovo, que se lembrará de Kissinger.
Dizia ele que, naquele triângulo, a América deveria estar mais próxima de Pequim e de Moscovo do que estas entre si. Isto fica para outro texto, sobre a “revolução” de Trump.