Diário da abadessa Paula “consagrada antes do nascimento”
![Paola: Diario storico di una vergine votata prima di nascere (I parte 402-416) di [Mazzini, Innocenzo]](https://images-eu.ssl-images-amazon.com/images/I/61%2BdKmXTkdL.jpg)
Foto: capa do livro de Innocenzo Mazzini
“Muitas famílias nobres e ricas poderiam ter aliviado com as suas reservas a fome das massas urbanas mas em vez disso pensaram apenas na sua salvação e fugiram – comenta Paula. –
Desde há muitos dias uma grande quantidade de pobres, doentes, crianças sozinhas, mulheres crianças no colo, – todos magros, desnutridos e sujos – aglomera-se desde o início da manhã na porta da nossa domus.
Pedem, choram, suplicam, lamentam-se. Dilaceram-me o coração
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Um diário tardo antigo para contar, por meio de uma história pessoal, como era o cristianismo das origens. Nas 157 páginas do livro «Paola, diario di una vergine votata prima di nascere» [“Paula, diário de uma virgem consagrada antes de nascer”] (Amazon) é reconstruído um período de 18 anos: de 402 a 420. “Não foi fácil expressar em italiano conceitos e realidades materiais, típicos do mundo tardo antigo” – diz o autor Innocenzo Mazzini, ex-professor de História da Língua Latina na Universidade de Macerata.
A protagonista é ‘Iulia Tossotia Paula’, “domina clarissima“. Nas suas veias corre o sangue de “gentes” ilustríssimas. Senadores o pai e os avós paternos e maternos. Cônsules e magistrados entre os parentes próximos. A avó paterna mandou construir a suas expensas o mosteiro feminino de Belém e foi a sua primeira abadessa. Paula foi destinada à vida religiosa ainda antes de nascer.
Através das fases da vida da jovem, registradas em forma de diário, surge um quadro significativo de uma época em que a figura central é Gala Placídia, filha do imperador Teodósio. Tomada como refém pelo rei visigodo Alarico em 410 casou-se com o cunhado dele, Ataulfo, e, depois da morte deste, casou-se com o patrício Constâncio, regente do imperador Valentiniano III, filho dela, tendo o cuidado de manter especialmente uma relação de lealdade para com o papado .

O contexto, de fato, é a luta entre o mundo pagão em decadência e a civilização cristã em rápida expansão. Com contragolpes devastadores e resistências sangrentas numa Itália dilacerada por
- guerras,
- massacres,
- povos inteiros obrigados a migrar de uma terra para outra,
- dor e violência por toda a parte.
Na grande história da Igreja em processo de estruturação e dos sofrimentos pessoais de Paula tem um papel determinante são Jerônimo (imagem ao lado), secretário do Papa Dâmaso e o maior tradutor e exegeta das Sagradas Escrituras.
O Papa Dâmaso encarregou-o de traduzir para o latim o Velho Testamento, e de rever o Novo.
Paula descreve a sua vida diária com competência.
“Na minha domus (casa – NdR) trabalham muitos servos, homens e mulheres – escreve em 1o de fevereiro de 405. – Nem todos cuidam de mim, mas todos são muito gentis comigo. Todos sorriem para mim, cada um tem as próprias tarefas”. Retratos fulgurantes.
“Fidústio é o porteiro e fica quase sempre na porta da frente: levanta-se muito cedo e cuida da multidão de ‘clientes’ que vêm falar com o meu pai para pedir favores e trazer presentes: seleciona-os, dá a precedência de acordo com os critérios fixados pelo meu pai – conta a futura abadessa. – Durante a noite dorme sobre uma esteira no cubículo à esquerda do vestíbulo, se faz frio envolve-se numa coberta feita de muitos pedaços de pano, uma manta de retalhos. Dizem que tem quarenta anos, já não tem dentes e para comer a sua broa tem que molhá-la na água”.
Num outro fragmento, escrito quando Paula tinha 12 anos, é mencionado pela primeira vez são Jerônimo.
“A minha avó chama-se Paula, como eu – diz. – Antes de eu nascer, ela foi viver na Palestina, junto com a tia Eustóquio e deixou sozinhos, aqui em Roma, o meu pai, a tia Paulina e a tia Rufina. Seguiu o exemplo de um famoso eremita chamado Jerônimo. ‘Ela seguiu Jesus, é santa’, assim diz a minha mãe. Eu não entendo por que se torna santo quem abandona os próprios filhos e a própria família”.
As tragédias da história convulsionam a experiência quotidiana da jovem. No dia 01 de julho de 410, Alarico está de novo às “portas” de Roma e os pobres à porta da domus de Paula que observa: “Alarico voltou a sitiar Roma, as negociações entre Alarico e Honório foram interrompidas e os Godos tomaram como refém a cidade de Roma pela segunda vez”.
A cidade ainda não se recuperou das consequências do cerco de 408, os Godos agora já conhecem rotas de abastecimento e os depósitos de alimentos de Roma. Bloquearam o porto de Augusto e apoderaram-se dos celeiros da zona. Roma está novamente passando fome. A grande massa de pessoas que vivem das distribuições gratuitas de alimentos está nas últimas.
“Muitas famílias nobres e ricas poderiam ter aliviado com as suas reservas a fome das massas urbanas mas em vez disso pensaram apenas na sua salvação e fugiram – comenta Paula. – Desde há muitos dias uma grande quantidade de pobres, doentes, crianças sozinhas, mulheres crianças no colo, – todos magros, desnutridos e sujos – aglomera-se desde o início da manhã na porta da nossa domus. Pedem, choram, suplicam, lamentam-se. Dilaceram-me o coração”.
Cenas angustiantes. “Todos pedem um pedaço de pão, carne seca ou peixe, em suma, alguma coisa para pôr entre os dentes, alguma coisa para engolir – continua. – Alguns estão tão debilitados que, deitados diante do portão, já não conseguem nem pedir, soltam ganidos como cães doentes, não conseguem articular uma única palavra”.

Giacomo Galeazzi