
Elena Loewenthal – 04/01/2017
Tradução: Orlando Almeida
Fotos: da internet
A história de Edgardo Mortara, o menino judeu de Bolonha, batizado em segredo e levado para longe da família por vontade do Papa, vai tornar-se um filme de Spielberg.
No séc XIX originou uma batalha política e cultural que dividiu Itália e a Europa.
É uma história terrível e cruel, mas também cheia de dolente melancolia e até mesmo de uma doçura estranha, absurda. É um encontro fatal de um destino pessoal e de interesses públicos, um nó de contradições que não há jeito de desatar. É uma história obscena no sentido original do adjetivo: a absurda implosão de algo que não deveria acontecer e ao contrário acontece e torna-se um escândalo público.

“O sequestro de Edgardo Mortara” no quadro pintado por Moritz Oppenheimer em 1862
É antes de tudo isto uma história de dor insuportável, dita e calada, como mostra bem o quadro da Oppenheimer Moritz que retrata a cena principal:
- um menino perdido mas no centro de tudo,
- disputado por mãos e hábitos talares.
- E uma mulher torturada.
Talvez, nesta pintura magnífica e trágica, encontre inspiração Steven Spielberg que, dentro de algumas semanas, começará na Itália as tomadas do filme baseado nesta história que o deixou fulgurado quando a leu.
Ordenado sacerdote aos 23 anos
Em 23 de junho de 1858 o pequeno Edgardo Mortara, então com sete anos, é levado para sempre da sua casa em Bolonha. É judeu, mas tinha sido batizado secretamente pela jovem empregada da casa, Anna Morisi, pouco mais do que uma criança também, com treze ou catorze anos.
Tempos depois a Inquisição de Bolonha, cidade que à época ainda estava dentro das fronteiras do Estado Pontifício, inicia as investigações e, após confirmação do acontecido, manda os gendarmes apreender a criança e levá-la para a casa dos Catecúmenos – instituição criada expressamente para os recém-convertidos e mantida graças a uma taxa imposta às comunidades judaicas – para começar a sua “inevitável” educação católica.
Por quê? Devido a uma cadeia terrível de incongruências. Os Mortara tinham em casa uma doméstica católica, embora isso fosse proibido aos judeus. Anna batiza o menino (Edgardo tinha então apenas um ano) por medo de que morresse sem o sacramento, embora fosse proibido aos católicos batizar judeus às escondidas.
Segundo uma lógica férrea da fé, tudo agora se tornara irreparável: tendo entrado sem saber na comunidade de Cristo, a criança
- tinha de ser tirada do seu mundo para não incorrer no pecado de apostasia.
- Tinha de ser educado como cristão, longe daquele mundo de “pérfidos” (no sentido de “infiéis”) judeus a que já não pertencia desde o momento em que tinha recebido o batismo.
Desde aquele dia, os seus pais quase nunca o viram, exceto por breves e dolorosíssimos instantes. O pequeno Edgardo Mortara foi ordenado sacerdote aos vinte e três anos, e tomou o nome de Pio – o mesmo do Papa (foto ao lado) que o tinha arrancado das suas raízes, de si mesmo. Viajou por muito tempo como evangelizador e missionário. Passou os últimos anos de vida recluso num mosteiro e morreu em Liège em março de 1940, quando o nazismo se alastrava pela Europa.
“Non possumus”
Quem sabe quanta solidão trespassou o coração daquela criança e do homem que ela se tornou:
- primeiro no sequestro,
- depois na vocação,
- e finalmente dentro da cela do mosteiro.
Nas trocas esporádicas de olhares e palavras com os pais e os irmãos.
Porque, na realidade, a vida do pequeno Edgardo foi roubada duas vezes, e não uma.
- A primeira naquele dia em que o levaram para longe de casa para que visse a luz da fé que o batismo lhe dera sem que ele o soubesse.
- A segunda, e talvez ainda mais feroz, porque o seu tornou-se “o caso Mortara”:
uma batalha cultural e política que viu alinhada de um lado a Igreja mais conservadora e do outro as forças políticas e intelectuais – incluindo uma parte do clero – que pressionavam para fazer o mundo respirar o liberalismo.
Quando a notícia do sequestro começou a circular, ergueram-se protestos em toda a Europa. Foi dito que para o conde de Cavour o caso era conveniente por colocar em má luz o Papa Pio IX e reforçar as pretensões do Reino da Sardenha. “Non possumus” – respondia pontualmente o Pontífice cada vez que lhe pediam para devolver o menino à sua família, ao seu mundo.
Um choque de civilizações
E também havia ele: o pequeno Edgardo (na foto, com a mãe)
- que logo começou a falar de iluminação, de graça da Providência.
- Que, desde que foi ordenado padre, passou a vida e a vocação tentando converter judeus.
- Que ainda antes da ordenação não quis saber mais de voltar para casa, mesmo quando após 20 de setembro de 1870 – com a tomada de Porta Pia e o fim do Estado Pontifício – teria a possibilidade de fazê-lo.
O choque de civilizações que se travou em torno da vida de Edgardo Mortara
- marca o momento delicadíssimo de transição para o liberalismo,
- acompanha o processo de emancipação dos judeus da Europa,
- e de maneira mais geral a conquista coletiva dos direitos civis.
E, muitas vezes, nos longos arrastões da história, no eco de dor e da raiva que ela traz em si, na contemplação impotente de todo esse absurdo, esquecemos que no meio está ele, essa criança e esse homem que, desde o dia negro em que o levaram para longe de casa e também na longa estação de uma fé vivida com declarada plenitude, conserva dentro de si alguma coisa de hermético.
Quem sabe qual era para ele o sabor da nostalgia, quem sabe que recordações de casa guardava na alma. Quem sabe se ele sabia quem era. Quem sabe o que a sua fé inabalável lhe revelava, e o que lhe escondia.

Elena Loewenthal
Leia Mais: (em italiano)
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