Bancada republicana queria acabar com órgão independente de investigação dos conflitos de ética, mas recuou após críticas de Trump.
JOÃO RUELA RIBEIRO – 03/01/2016
Foto : Donald Trump durante a festa de fim de ano na Florida REUTERS/JONATHAN ERNST
“Com todo o trabalho que há para fazer no Congresso, tinham mesmo que tornar o enfraquecimento do gabinete de ética, apesar de ser injusto, na prioridade número um. Concentração na reforma fiscal, saúde e tantas outras coisas mais importantes” – “tweetou” Trump.
Mas pouco antes do arranque dos trabalhos parlamentares, McCarthy convocou uma reunião de última hora da bancada republicana para apresentar uma moção que repõe os poderes do gabinete de ética.
A emenda proposta pelo congressista republicano da Virgínia, Bob Goodlatte, pretendia transformar o gabinete num serviço dependente do comité de ética da Câmara de Representantes – que, como todos os comités, é composto por congressistas numa base proporcional aos votos. A ideia, disse Goodlatte, era no sentido de proteger os direitos dos deputados investigados contra investigações excessivamente zelosas.
A notícia deixou o establishment político de Washington à beira de um ataque de nervos. “Parece que a ética é a primeira baixa do novo Congresso republicano”, reagiu a líder da minoria democrata na câmara baixa, Nancy Pelosi, criticando duramente o que descreveu como manobras na sombra, na véspera da entrada em funções da nova legislatura, para “destruir” o gabinete de ética.
A algumas horas da abertura da sessão legislativa, Paul Ryan já justificava a posição do partido. “Muitos membros acreditam que o Gabinete de Ética necessita de uma reforma para proteger o processo justo e assegurar que está a trabalhar de acordo com a missão que lhe é definida.”
O momento-chave do dia aconteceu por volta das 10h, quando o Presidente eleito veio recordar aquela que foi uma das promessas que mais ressonância teve junto do eleitorado que lhe deu a vitória – “drenar o pântano” político de Washington.
“Com todo o trabalho que há para fazer no Congresso, tinham mesmo que tornar o enfraquecimento do gabinete de ética, apesar de ser injusto, na prioridade número um. Concentração na reforma fiscal, saúde e tantas outras coisas mais importantes”, acrescentou Trump.
Bastaram 140 caracteres – ou melhor, 280, – para que a liderança republicana recuasse logo no seu primeiro dia da legislatura em que controlam as duas câmaras do Congresso. Ao mesmo tempo que reconhece que o gabinete de ética é “injusto”, dando razão à linha do partido, Trump não se coibiu de sugerir outros temas a que os congressistas devem dar prioridade.
O primeiro dia do domínio absoluto do Partido Republicano no Congresso acabou por resultar num “olho negro para a bancada e para a sua liderança”, declarava a revista The Atlantic, “talvez tornado ainda mais humilhante pelo reparo público feito pelo seu próprio Presidente eleito”.
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