
Flavio Aguiar, de Berlim. – 02/01/2017 11:23 – Copyleft
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O cessar-fogo aponta mais para uma estagnação do que para uma solução do conflito: ninguém quer se desarmar ou abrir mão de posições.
A primeira semana do novo ano começa com maus sinais: atentados em Istambul, Bagdá (assumidos pelo ISIS/Estado Islâmico) e Mogadishu, na Somália, dezenas de mortos e mais de uma centena de feridos. Desastre previsível na Indonésia: uma barca para 100 passageiros larga com 230, mais a tripulação, pega fogo, deixa dezenas de mortos e desaparecidos…
Há também um confronto patético entre Obama e Putin, em que aquele esperneia e este o esnoba. Levado pela versão de que foram os hackers russos, patrocinados pelo governo de Moscou, que provocaram a derrota de Hillary para Trump (e não o perverso sistema eleitoral norte-americano, que permite que ela, com dois milhões de votos a mais do que ele, perca a eleição), Obama resolveu endurecer jogo.
Expulsou dezenas de diplomatas russos, sob as mais variadas alegações. Instado por seu ministro de Relações Exteriores, Sergei Lavrov, a retaliar na mesma moeda, como é praxe, Vladimir Putin deita e rola. Diz que nano vai retaliar, convida os norte-americanos residentes em Moscou para ir a uma missa comemorando o novo ano, recebe os familiares dos expulsos dos EUA no Kremlin…
O fato é que Putin está, por assim dizer, “por cima da carne seca”. Está ditando as cartas na Síria, escanteando os Estados Unidos. Estes se afundaram no seu erro de avaliar que o regime de Bashar Al-Assad, se atacado, derreteria, como aconteceu com os de Muhammad Gaddafi e Sadam Hussein. Nada disto aconteceu.
O Exército Sírio permaneceu coeso, e com apoio da Rússia e do Irã o regime de Damasco se manteve de pé e partiu para a contra-ofensiva, retomando a cidade de Aleppo com apoio ainda do Irã e dos curdos. Depois de um estremecimento com Moscou, o governo de Tayyip Erdogan, derrotando uma tentativa fracassada de golpe e impondo uma dura repressão sobre o país, retomou a iniciativa diplomática, se reaproximando da Rússia.
Esta apoiou decisivamente Assad em Aleppo e negociou um cessar-fogo com a Turquia que, até o momento, está em vigor apesar de algumas violações e acusações de parte a parte. Pelo menos os principais grupos rebeldes e as tropas de Damasco o estão procurando respeitar. O Irã, que não participou das negociações, aceitou o cessar-fogo, que ganhou apoio no Conselho de Segurança da ONU. Os curdos também, apesar de estarem pressionados pela Turquia que não deseja vê-los senhores de um território perto de sua fronteira com a Síria.
Ainda assim, o cessar-fogo, embora seja o mais promissor de quantos já foram prometidos, postos para funcionar e fracassar, está longe de apontar para o fim do conflito armado, tal é a pluralidade de antagonismos em todos os campos.
A Rússia apoia Assad, mas tem dado sinais de que aceitaria uma negociação que substituísse Assad por um outro governante de transição. O Irã não aceita esta hipótese e, é claro, o próprio Assad muito menos. A Turquia quer o presidente sírio fora do tabuleiro e do baralho. Os grupos rebeldes, por seu turno, não aceitam a permanência de Assad, mas estão por demais divididos para imporem qualquer coisa.
O cessar-fogo, portanto, aponta mais para uma estagnação do que para uma solução do conflito, em que os grupos sabem que não há como resolve-lo militarmente, mas ninguém quer se desarmar ou abrir mão de posições.
Neste terreno a Rússia também esnoba os Estados Unidos, dando-se ao luxo de esperar a posse de Trump (no dia 20.01) para ver o que vai acontecer. Este, por sua vez, só quer minar a posição de Obama, para esfacelar o seu legado – o que, diga-se de passagem, nada trará de bom.
Trump é um falastrão, mas seus assessores e escolhas de secretariado (ministério, nos nossos termos) que vem fazendo nada tem de fanfarronice, sendo o que a política norte-americana apresenta de pior:
- financistas,
- dentistas,
- falcões,
- racistas,
- xenófobos,
- retrógrados em direitos humanos,
- etc.
De qualquer modo, de momento, o cessar-fogo é o que a Síria pode esperar de melhor, até porque ele isola o Estado Islâmico e grupos como o Fateh al-Sham (ex-Jabat el-Nusra, próximo da Al Qaída).
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Flavio Aguiar
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