Foi assim que El Yunque se infiltrou na Academia de Líderes Católicos do Chile

 A única coisa que nos resta é poder contar o que nos aconteceu e assim evitar que mais jovens sejam vítimas de uma organização que te afasta da tua família, que escolhe os teus amigos e te distorce a fé

 

Dominique Soriagalvarro Neira, 28/12/2016

Tradução: Orlando Almeida
Foto: O símbolo do El Yunque

Cooptação de jovens, nichos de poder político e influência midiática

Ex-membros da seita revelam os seus mecanismos de filiação e doutrinação

 

(Dominique Soriagalvarro Neira, em The Clinic Online)

“Podes passar, está tudo pronto para fazeres o juramento. Deves sentir-te feliz, foste escolhida por Deus” – disseram-lhe. Andrea (29) passou de uma sala cheia de luz, para a sala de estar do apartamento.

As cortinas estavam fechadas e a sua vista demorou a se acostumar; quando o fez, distinguiu no centro de uma mesa grande um par de velas que iluminavam os retratos do Papa e de Alberto Hurtado. Três golpes e deu-se início à sessão.

 

Os participantes estavam divididos por sexo e postos em fila, usando o uniforme oficial: eles, um terno preto e camisa branca; elas, saia e blusa. A cerimônia começou a rezando o terço em latim para depois prosseguir com o juramento da nova integrante:

“Em nome de Cristo Rei e de Maria Rainha juro fazer da organização El Yunque a atividade primordial da minha vida. Juro manter a mais absoluta reserva sobre a sua existência, os seus integrantes, ações e estratégias. Juro obediência” – lembra ter dito Andrea.

O juramento foi realizado na casa do mexicano José Antonio Rosas, atual diretor geral da Academia de Líderes Católicos, depois de participar de uma missa na paróquia de El Bosque. O rito ligaria Andrea por toda avida à sociedade secreta cuja filiação não podia sequer revelar à sua família.

Nesse momento os membros do grupo, liderado por José Antonio, batizaram-na com um pseudônimo bíblico para resguardar a sua identidade e manter em segredo a sua participação no grupo.

Assim, em 2006, Andrea começou a militar em El Yunque, uma organização cívico-política com a missão de preparar uma espécie de elite espiritual e, através dela, assumir importantes posições de poder. Sua missão: instaurar o reino de Cristo na terra.

 

A vida e a morte

Andrea cursava o segundo ano na Universidade Finis Terrae quando uns amigos a convidaram para ser monitora de grupos na Escola de Líderes Católicos, agora convertida  em academia. Lá, ele iria ouvir palestras com base na Doutrina Social da Igreja e formar grupos de jovens do ensino secundário e universitário que faziam debates em torno destas ideias.

“Era uma formação super casada com a direita: os políticos que participavam dos seminários eram sempre

  • DC [Democracia Cristiana],
  • UDI [Unión Demócrata Independiente],
  • RN [Renovación Nacional]”

– diz ela.

 

Durante seis meses Andrea colaborou com a escola. Disposta a continuar ajudando na formação de grupos de jovens com valores cristãos, ela aceitou o convite de um amigo do grupo. “Bem, como acabaram as aulas, nós gostaríamos de convidar-te para este grupo, é pró-vida e faz parte de ‘Muévete Chile’” – propôs ele.

“O estilo de filiação desta gente é de

  • convidar-te a participar de algo muito grande para criar vínculos e para saber como és, o teu ambiente e os teus amigos;
  • se passas nessa primeira prova convidam-te para uma coisa mais pequena 
  • e se passas nessa  convidam-te para uma terceira coisa que é El Yunque “

–  diz Andrea.

Ignacio – nome fictício que usa para proteger a sua identidade – foi convidado para fazer parte de El Yunque em janeiro de 2015, depois de pertencer a um grupo de oração formado por  amigos que conheceu na pastoral da Universidade Católica e com os quais participou  da Academia de Líderes Católicos.

Em maio de 2014, ao finalizar a academia, estes amigos propuseram-lhe formar um grupo de oração de que participariam todas as semanas. “Nestas plataformas os membros de El Yunque

  • conquistam a confiança e a amizade das pessoas,
  • dão-lhe protagonismo
  • mas sempre direcionado para as intenções da organização” 

–  explica Andrea.

Cada integrante devia preparar um tema aleatório para ser discutido à luz da moral católica, e assim se fazia rotineiramente até que um dia um dos membros apresentou aos presentes um questionário sobre seus antecedentes socioeconômicos e perguntas sobre [o que fariam] em situações hipotéticas.

“Disseram-nos que era um formulário para um amigo da faculdade que estava fazendo um trabalho, de modo que respondemos com toda a confiança. Perguntaram-nos até em quem votámos e em quem votaram os nossos familiares na última eleição” – lembra Ignacio.

Depois disso, continuaram as reuniões de maneira normal e nada despertou suas suspeitas. “Espero que todos participem hoje, porque tenho um convidado especial” – escreveu no whatsapp um dos membros do grupo.

Ao chegarem, os participantes depararam-se com Rodrigo Donoso, engenheiro comercial da Universidade de Chile, membro do movimento gremial desta universidade, que na época era vice-diretor de finanças da Academia de líderes Católicos. “Vou dar-lhes a palestra de hoje. É uma que costumo dar na academia: sobre a vida e a morte” – disse Donoso e começou a expor as suas ideias com a ajuda de um projetor.

“Cultura da morte:

  • aborto,
  • divórcio,
  • capitalismo,
  • comunismo,
  • homossexualismo
  • e masturbação.

Muitas citações de João Paulo II e de Escrivá de Balaguer da Opus Dei. Nós não questionámos isso. Donoso é um tipo super carismático, lembro que também o tinha visto na Fundação Jaime Guzmán [ fundador do movimento gremial da PUC do Chile], mas de longe” – diz Ignacio.

Quem participou da palestra não se surpreendeu, era comum ver Rodrigo Donoso falar nesses termos quando dava suas aulas como professor voluntário na academia. O debate animava-se sempre que Rodrigo pedia participação.

Passaram duas semanas e, por whatsapp, um amigo do grupo de oração convidou Ignacio a tomar um café no centro de Santiago para conversar sobre “algumas coisas importantes”.

“Muito obrigado por ter vindo, mas não estaremos sós. Falta um convidado” – avisou. Pouco depois Donoso juntou-se a eles, conduzindo a conversa: “Eu sei que vocês tinham um grupo de amizade e de oração para o qual vocês me convidaram da última vez. Estava me perguntando o que tu terias achado” – começou Donoso.

“Serviu-me para fortalecer a nossa amizade, a fé, me aprofundar em temas de cultura católica” – respondeu Ignacio um pouco confuso com a conversa de Donoso.

Ignacio estava surpreso com a quantidade de informações de que ele dispunha sobre o seu grupo de amigos já que só os tinha visto uma vez. “Gostarias que houvesse mais desses grupos? O que estarias disposto a fazer para que houvesse mais desses grupos? Que tal se eu te disser que há um grupo de pessoas que trabalha motivando a formação destas comunidades, gostarias de conhecer esse grupo? – perguntou Donoso.

“Sim, parece-me ótimo que as pessoas compartilhem a sua fé” – respondeu.

Em seguida, a conversa tomou um rumo em que as perguntas se centraram na importância do segredo e da prudência. Foi este o momento que Donoso aproveitou para fazer-lhe o convite para fazer parte de El Yunque, um grupo que até então só tinha mencionado eufemisticamente como “A Organização”.

“Tu sabes que o demônio mete o rabo em todos os lugares, porque neste grupo um dos valores principais é esse, as coisas importantes ficam entre nós, as pessoas não podem saber da existência da organização, porque temos muitos inimigos. Ademais políticos, sacerdotes e bispos ajudam-nos, e são parte deste grupo” –  disse Donoso.

A conversa tomou outros rumos, Rodrigo Donoso punha ênfase no reinado social do Cristo e como os católicos são chamados a defender essas ideias no discurso público. Assim, entre perguntas e reflexões Ignacio aceitou entrar em El Yunque. Para isso se  tornar oficial devia apresentar-se nesse mesmo fim de semana na Igreja da Transfiguração do Senhor, localizada em Hernando de Magallanes, ali seria realizada a missa e o rito de iniciação teria lugar no apartamento de um dos membros.

No juramento ele deveria participar com terno preto e camisa branca. “Era muito importante para Donoso que eu levasse essa roupa na mochila e a vestisse lá para evitar ser identificado por esses inimigos que para mim foram sempre invisíveis” – acrescenta Ignacio.

Algum tempo após o convite, Ignacio comentou o episódio com os seus amigos da pastoral. Aí então percebeu que não tinha sido o único a que tinham feito proposta de ingressar no El Yunque. Dentro do grupo, uma amiga comentou que desde os 14 anos militava na organização. “Disse-nos que tinha entrado quando estava na oitava série do básico no Colégio São Francisco de Assis e que, desde então, tinha mantido o segredo até agora, quando por fim tinha conseguido desvincular-se” – lembra Ignacio.

Perguntado sobre a sua participação em El Yunque e sobre o seu cargo na Academia de Líderes Católicos, Rodrigo Donoso disse que estava afastado da subdireção há mais de um ano, negando categoricamente a sua vinculação com o grupo e sua condição de recrutador de El Yunque.

Também não quis admitir a sua ligação com o movimento ‘Hazte Oír’ em 2014.  “Não é a primeira vez que me vinculam a isso. É um grupo de pessoas ociosas que não aparecem e que querem prejudicar a minha carreira como assessor político. Quando participei de El Círculo, diziam que eu pobre demais para ser do Opus,  agora dizem que eu estou pedindo  segredo” – declara Donoso.

 

A origem

Os membros do El Yunque reconhecem que são

  • antimarxistas,
  • anticapitalistas,
  • contra o casamento gay,
  • autodenominam-se pro-vida e propõem a castidade dos seus partidários.

Com o passar do tempo criaram códigos, ritos e formas de recrutamento, infiltrando-se para conseguir adeptos em vários grupos católicos juvenis, como na Academia de Líderes Católicos, em organizações anti-aborto e grêmios estudantis nas universidades.

A organização nasceu no México em 1953 – há quem sustente que tem raízes neonazistas e anti-semitas – e define-se como uma associação civil secreta que procura defender e instaurar a moral cristã mais conservadora e tradicional. O seu fundador, Ramon Plata, morreu assassinado a tiros em 1979 e o seu co-fundador, Marcelo Cid, admitiu em 2003 que El Yunque procurava “evangelizar as instituições públicas através da infiltração de todos os seus membros nas mais altas esferas do poder político”.

El Yunque se concentraria em três áreas:

  • atração de jovens,
  • nichos de poder político
  • e influência midiática.

Através destes três eixos tentou influir nas políticas públicas de vários países onde se expandiu:

  • Colômbia,
  • Argentina,
  • Espanha,
  • Peru,
  • Paraguai
  • e, desde 2006, também no Chile.

Na época, conforme denunciado por The Clinic, começavam a mostrar-se através de movimentos como Hazte Oír y Muévete Chile.

O mesmo modus operandi foi utilizado na Espanha. Santiago Mata, jornalista e historiador, autor do livro ‘El Yunque en España: La sociedad secreta que divide a los católicos’ demonstrou a vinculação de El Yunque com organizações públicas como Hazte Oir, Instituto de Política Familiar e Profissionais da Ética.

“Na Espanha o seu principal façanha foi a de dividir os católicos e fazer com que em todas as suas iniciativas surgissem dúvidas de estarem infiltradas por esta sociedade secreta. A consequência foi a esterilidade de todas as iniciativas sociais e políticas em defesa das convicções morais cristãs” – diz Mata.

 

Depois de se tornar pública a presença da organização na associação espanhola HazteOir.org,  esta criou a fundação CitizenGO, apresentada como uma associação composta por milhões de “sócios”, que procuram envolver-se em campanhas de protesto em todos os países da América Latina.

Algo semelhante aconteceu no Chile onde, após a dissolução de Muévete Chile, os integrantes formaram novas plataformas de ação, como Soñando Chile y Juntos por la Vida.

 

Academia de Líderes católicos

Pouco tempo depois de começar a militar em El Yunque, foi derminado a Andrea que participasse de uma “ação” – atividades que iam de pintar cartazes até infiltrar-se em diversos eventos – que geralmente se disfarçavam como seminários de líderes católicos no exterior.

Foi sob esta tosca estratégia que, com o objetivo de infiltrar-se, Andrea participou de um congresso feminista na Argentina, durante um fim de semana inteiro. A missão de Deus era desarticular o grupo de mulheres, sabotando as suas conclusões.

“Tínhamos de nos oferecer para tomar nota dos temas discutidos nos seminários e deste modo  inserir  valores católicos nas conclusões, no lugar das reflexões abordadas pelas feministas. Uma coisa que me pareceu infantil e absurda” – diz agora Andrea.

Depois dessa viagem, voltou para Santiago com um certificado da Academia de Líderes Católicos que justificava a sua ausência. O mesmo disfarce seria usado para enviá-la ao México durante um mês para frequentar a escola de formação de El Yunque.

Durante duas semanas, Andrea esteve internada num centro de retiro mexicano recebendo instrução ideológica.

  • As manhãs começavam com o hino de El Yunque e uma palestra de formação.
  • Depois tinha aulas sobre a origem da organização, sobre os valores cristãos e sobre formas de filiar pessoas.
  • Depois as  garotas foram levadas correndo até um descampado onde tiveram treinamento militar.
  • “A ideia era ensinar-nos a resistir à guerra santa.

Quando terminámos esta fase levaram-nos de novo para o retiro onde fomos recebidas com um coquetel” – conta Andrea. Depois acrescenta:

“Mas eu já queria ir embora, achei que estava doente. Coisa de loucos, totalmente anacrônica. Lá eu soube que José Antonio Rosas era um enviado de El Yunque do México para criar a Academia de Lideres que é uma ferramenta para o recrutamento de El Yunque”.

José Antonio Rosas ainda continua participar da direção geral da academia, que uns dois anos atrás, passou a fazer parte dos planos acadêmicos da Universidade Católica Finis Terrae, San Sebastián e DUOC-UC [Departamento Universitario Obrero Campesino- Universidad Catolica].  Assim, através de um sistema de bolsas, 100 alunos têm a oportunidade de graduar-se na academia todos os anos.

Rosas nega conhecer qualquer organização chamada El Yunque e sua vinculação com a Academia.

“A Academia de Líderes Católicos é um centro de formação autônomo, com seus próprios órgãos de governo, independente de qualquer movimento e organização política ou religiosa. Portanto, eu nego categoricamente o meu pertencimento a El Yunque”.

 

O mesmo itinerário que fizeram Andrea e Ignacio, teria sido feito pela última promessa da direita intelectual chilena: Henry Boys. Ambos os ex-militantes do grupo reconhecem também o seu amigo Benjamin Lagos como militante de El Yunque, com o qual criaram a organização Soñando Chile que realizou uma campanha anti-aborto distribuindo adesivos para carros. Boys e Lagos foram contatados por The Clinic, mas não responderam ás nossas perguntas.

Cristian Roncagliolo, presidente do diretório da Academia de Líderes Católicos e vice-Grão Chanceler da Universidade Católica, reconhece ter ouvido falar de El Yunque em conversas informais,

“mas sempre como um movimento político estranho ao Chile. Jamais imaginei que poderia estar na minha cara. Quero deixar claro que a Academia de Líderes Católicos não pode ser um instrumento para partidos políticos, nem para El Yunque. Nesta universidade não existem espaços para grupos secretos e vamos iniciar uma investigação”.

No Vicariato da Educação reconhecem que não fazem a não fazem divulgação da Academia de Líderes Católicos. O vigário Thomas Scherz explica que isso se deve ao carácter político da organização, diferentemente da vocação da comunidade pastoral promovida pelo Vicariato. Scherz, no entanto, fez um relatório com depoimentos de pessoas que conseguiram desvincular-se do El Yunque em 2006, quando apenas começavam a ser gestadas as primeiras células no Chile.

“Eu estive pesquisando um pouco mais acerca de El Yunque, há coisas que me fazem pensar. A ligação com José Antonio Rosas pareceria uma coisa séria e seria muito ruim se a Academia fosse usada como recrutadora para El Yunque” – afirma Scherz.

No Arcebispado indicam que El Yunque não tem aprovação da Igreja, nem formal ou escrita. “Na Igreja não há espaços para o segredo, especialmente após os escândalos em que tem sido envolvida por causa disso” – declara Scherz.

O autor do mais recente livro sobre El Yunque na Espanha, Santiago Mata, diz que o Vaticano está ciente das intenções do grupo e que é realmente uma questão que divide a Igreja: uma organização onde o segredo é a base para permanecer no grupo e, assim, livrar-se dos inimigos de Deus instalados nos  governos seculares.

No Arcebispado de Santiago asseguram que El Yunque é uma organização “no limiar do sectarismo”, que conseguiu dividir a estrutura eclesial no México e na Espanha.

Até o momento na Universidade Católica não foram criadas instâncias para que  ex-membros da Academia de Líderes possam contar as suas experiências na organização secreta. Cristian Roncaglioglo comprometeu-se a esclarecer a relação de José Antonio Rosas com El Yunque através de uma investigação.

“A única coisa que nos resta, por enquanto, é poder contar o que aconteceu  e assim  evitar que mais jovens sejam vítimas de uma organização que te afasta da tua família, escolhe teus amigos  e te distorcer a fé” –  conclui Andrea.

 

 Dominique Soriagalvarro Neira

 

http://www.periodistadigital.com/religion/america/2016/12/28/religion-iglesia-chile-asi-se-infiltro-el-yunque-en-la-academia-de-lideres-catolicos-de-chile-captacion-de-jovenes-nichos-de-poder-politico-e-influencia-mediatica.shtml

 

Para saber mais:

 

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