As organizações dos excluídos — e de tantas outras de diversos sectores da sociedade — estão chamadas a revitalizar e a refundar as democracias que atravessam uma verdadeira crise.
Frei Bento Domingues O.P. – 11/12/2016
“A desigualdade é a raiz dos males sociais[2]. Por isso, o Papa Francisco disse e repetiu: o futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos, na sua capacidade de se organizarem e orientarem este processo de mudança com humildade e convicção[3]. Não devem consentir em serem excluídos da Política, com letra grande, e reduzir cada um dos movimentos à sua pequena horta.”
1. A partir dos finais dos anos 60 do século passado, os militantes dos movimentos cristãos eram bombardeados com repetidas afirmações marxistas:
- a fé é a alienação da vida humana,
- a Igreja é o secular instrumento da alienação
- e os padres são os intelectuais orgânicos desse processo alienador.
Muitas atitudes e práticas religiosas, do passado e do presente, merecem bem esta crítica, mas diante do texto do domingo passado, e que desejo continuar hoje, essa crítica faz-nos sorrir. Não foram poucos os marxistas da época que se emburguesaram. Muitas pessoas da Igreja — e muitas que não se reconhecem em todas as suas expressões —, lideradas pelo Papa Francisco, vêem o mundo a partir dos excluídos e vivem em função da transformação da sociedade, como ficou claro no 3.º Encontro com os participantes dos Movimentos Populares.
Imagem da internet
Como vimos no domingo passado, Bergoglio não acredita na fórmula beata: vai-se fazendo o que se pode e depois se verá. Para revitalizar a democracia é preciso não fechar os olhos e alimentar ilusões.
Enquanto não forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres,
- renunciando à autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira
- e atacando as causas estruturais da desigualdade social,
não se resolverão os problemas do mundo nem problema algum.
A desigualdade é a raiz dos males sociais[2]. Por isso, o Papa Francisco disse e repetiu: o futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos, na sua capacidade de se organizarem e orientarem este processo de mudança com humildade e convicção[3]. Não devem consentir em serem excluídos da Política, com letra grande, e reduzir cada um dos movimentos à sua pequena horta.
2. O velho argentino tocou num segundo risco dos Movimentos: deixar-se corromper. Assim como a política não é uma questão de “políticos”, também a corrupção não é um vício exclusivo da política. Há corrupção na política, nas empresas, nos meios de comunicação, nas igrejas e, também, nas organizações sociais e nos movimentos populares. Há corrupção radicada nalguns âmbitos da vida económica, em particular na actividade financeira. É menos noticiada do que a corrupção de âmbito político e social.
Importa, no entanto, realçar o seguinte: aqueles que escolheram uma vida de serviço têm uma obrigação acrescida de honestidade. A medida é muito alta: é preciso ter vocação para servir com um forte sentido de austeridade e humildade. Isto é válido para os políticos, para os dirigentes sociais e para nós pastores.
Disse “austeridade” e gostaria de esclarecer que esta palavra é equívoca. Refiro-me à austeridade moral, no modo de viver, pessoal e familiar. Não estou a falar daquela que é imposta pelas leis e astúcias do mercado…
3. A qualquer pessoa que seja demasiado apegada às coisas materiais e que ama
- o dinheiro,
- banquetes exuberantes,
- casas sumptuosas,
- roupas de marca,
- carros de luxo,
aconselharia que compreenda o que está a acontecer no seu coração e que reze a Deus para que o liberte destes laços.
Mas, parafraseando o ex-Presidente latino-americano que está aqui, todo aquele que seja apegado a estas coisas, por favor,
- que não entre na política,
- não entre numa organização social
- ou num movimento popular, porque causaria muitos danos a si mesmo, ao próximo e sujaria a nobre causa que empreendeu.
- E que também não entre no seminário!
Peço aos dirigentes que não se cansem de praticar esta austeridade moral, pessoal, e peço a todos que exijam dos dirigentes esta austeridade, que — de resto — os fará sentir-se muito felizes.
É no Advento que estou a ler este longo, belo e exigente discurso do Papa. Não é para preparar o nascimento de Jesus. Essa questão está resolvida há mais de dois mil anos. Para o Natal que interessa, a grande narrativa é a conversa nocturna de Jesus com Nicodemos: precisas de nascer de novo e não perguntes como, sendo já velho[4].
Boa receita!
[1] Olegario González de Cardedal, Cristianismo y mística. Teresa de Jesús de la Juan de la Cruz, Educa, Buenos Aires, 2013, pp.215-216.
[2] Exortação Apostólica Evangelii gaudium, n. 202
[3] Discurso no segundo encontro mundial dos movimentos populares, Santa Cruz de la Sierra, 9 de julho de 2015
[4] Jo 3, 1-21
Frei Bento Domingues
