O monoteísmo do capital financeiro e a felicidade

De finanças o meu conhecimento é praticamente nulo. De ciência económica,
quase. Mas não fico muito aflito, pois o que noto é que entre os economistas
a confusão é imensa, tornando-se cada vez mais claro que, afinal, a economia é
tudo menos uma ciência exata.

Mas vamos ao capital, que é mesmo capital, como diz o étimo: caput, capitis
(cabeça), necessário e até essencial para a existência humana. Seguindo em
parte uma taxonomia de P. Bourdieu, X. Pikaza apresenta os diferentes
sentidos de capital.

Nos capitais simbólicos, encontramos o capital sócio-cultural – o conjunto
das riquezas simbólicas dos grupos e da humanidade, começando na língua e
continuando nas tradições, nas esperanças de futuro, nas artes e
tecnologias, nos saberes tradicionais e nos novos saberes científicos e
técnicos – e o capital ético, incluindo os diferentes domínios da vida, no
plano social, laboral, jurídico, abrangendo, portanto, o capital político,
jurídico, religioso…

Mas, quando se fala em capital, pensa-se fundamentalmente no capital
monetário e financeiro. Evidentemente, também este é um capital simbólico,
mas hoje é o dominante, acabando por subordinar os outros. O capital de
consumo situa-se no mundo da vida, está ao serviço da vida e da produção de
meios para o consumo, bem-estar e desenvolvimento da humanidade. Há um
capital monetário ligado à produção e distribuição do poder, isto é, das
relações sociais, no quadro dos valores humanos e da democracia, da
distribuição dos meios que permitem a realização dos ideais de liberdade,
igualdade e fraternidade, num plano ético.

O problema maior é que nas últimas décadas se foi dando o triunfo do capital
financeiro, sobretudo na sua vertente neoliberal, desligado da produção de
bens materiais e da distribuição de bens sociais, para se transformar em fim
em si mesmo, sem atender à vida das pessoas e acima dos próprios Estados,
que devem garantir os direitos humanos e a igualdade dos cidadãos. Fim em si
mesmo, domina os próprios mercados, que “já são mercados do capital”.

Encontramo-nos diante do “perigo de um monoteísmo do capital financeiro, que
aparece assim como o único Deus do nosso mundo. Um capital por cima da
produção de bens e da administração da justiça dos Estados, um capital sem
normas éticas, sem outra finalidade que não a do desenvolvimento do próprio
capital nas mãos de poderes financeiros frequentemente sem nome.”

Este capital toma conta de todos os outros, a começar pelo capital ético, e
está na base de uma guerra em curso, que custa milhões de vítimas.

Esta situação exige reflexão, pois cada vez se torna mais clara a urgência
de mudar globalmente de paradigma. Entretanto, é salutar saber de exemplos
de solidariedade e ética, que animam a esperança e são sinal de que a
humanidade verdadeira mora para outras bandas.

A gente nem quer acreditar, quando lê, em Isabel Gómez Acebo e no Courier
International, o exemplo impressionante do presidente do Uruguai, José
Mujica. Após a eleição, continua a viver na sua pequena casa, numa zona da
classe média, nos arredores de Montevideu. Tem um salário de 12500 dólares
mensais, mas dá 90%, vivendo com 1250 (que lhe basta, pois muitos
concidadãos vivem com menos). A mulher, a senadora Lucía Topolansky, também
dá a maior parte do seu salário. Como transporte oficial utiliza um
Chevrolet Corsa. Durante o Inverno, a residência oficial servirá de abrigo
aos sem teto. Mandou vender a residência de Verão do presidente, e o
resultado da venda destina-se, entre outros usos, à construção de uma escola
agrária para jovens sem posses.

Na reunião do Rio+20, pronunciou um discurso especial. Aconselhou a uma
mudança de vida, pois foi para sermos felizes que viemos ao mundo. Ora, na
sociedade atual, vivemos completamente obcecados com o consumismo:
trabalhamos para consumir sempre mais… tendo de pedir empréstimos que
temos de devolver, e esquecemo-nos da felicidade. É este o destino da vida
humana? Terminou, estimulando à luta pela conservação do meio ambiente,
porque “é o primeiro elemento que contribui para a felicidade”.

por ANSELMO BORGES

Fonte: http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2838025&seccao=Anselmo%20Borges&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco

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