Últimas Conversas.Testamento de Bento XVI. 2

Anselmo Borges – 26/11/2016ansa1066862_articolo

A convite de João Paulo II, o cardeal Joseph Ratzinger aceitou em 1981 ser Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, com uma condição: continuar a publicar livros.

“Porque sentia a obrigação interior de poder dizer algo à humanidade”. Gostaria de ter dedicado a vida à “teologia científica”. “Todos os escândalos chegam à Congregação”. “Que na Igreja há porcaria é conhecido, mas o que o Prefeito da Congregação tem de digerir vai muito para lá”.

Fez questão em não misturar a sua teologia com os documentos da Congregação: não foi ele, por exemplo, que redigiu a Dominus Jesus, sobre a unicidade da Igreja católica. Confessa que “está feliz com as reformas do Concílio, quando são acolhidas com honestidade, na sua substância.” Mas “cada vez mais pessoas perguntavam: a Igreja ainda tem uma doutrina comum? Ora, tenho a convicção de que também hoje devemos estar à altura para dizer o que é que a Igreja crê e ensina”.

Confessa as suas debilidades: em 1991, teve uma hemorragia cerebral, seguindo-se imensas dificuldades, acabando por ficar cego do olho esquerdo. Vale-lhe a música, mas precisa de silêncio e de 7-8 horas de sono. Não é um “grande conversador” e é débil de voz, com uma saúde frágil.

Quando pensava, após a morte de João Paulo, poder “finalmente escrever em paz os seus livros”, foi eleito Papa. “A sensação foi simplesmente esta: uma guilhotina”. “Procurou, antes de mais, ser um Pastor”. “Havia sobretudo o que queria fazer: colocar no centro o tema de Deus e a fé. O importante é preservar a fé hoje. Considero ser esta a nossa tarefa”.

Fala com gosto com agnósticos, ateus e pessoas de esquerda, o que “num certo sentido é natural; se são honestos e reflectem”. “Gostou de ser Papa?” Está grato pelas “muitas belas experiências, mas foi também sempre evidentemente um fardo”. A viagem “mais delicada” foi talvez a da Turquia.

Na Alemanha, apelou a que a Igreja fosse menos mundana. Queixa-se aliás da “propaganda a denegri-lo”, concretamente na Alemanha, onde “há pessoas que querem destruir-me”.

Aqui, perguntou eu: e ele não destruiu muitos?!

Procurou também resolver questões administrativas, como reformar o Banco do Vaticano. “Trabalhei em silêncio, tanto sobre aspectos organizativos como legislativos”.

  • Removeu cerca de 400 padres culpados de abusos sobre menores.
  • Dissolveu um lobby gay no Vaticano.
  • Mas admite que é mais professor do que um gestor, o que constitui “uma certa fraqueza”.

Aliás, que poder tem o Papa? Responde a quem pensa que “um Papa tem plenos poderes e pode dizer a palavra definitiva”: “Não é assim. Impossível”.

Não se vê a si mesmo como “um falhado”.

Houve momentos difíceis, mas “no cômputo geral foi também um período no qual muitas pessoas encontraram um novo caminho para a fé e foi também um grande movimento positivo”.

Resignou, porque já não tinha forças – outro poderia fazer mais e melhor – e aquele era o momento adequado: “é claro que também o Papa não é um super-homem”. Não foi uma fuga à Cruz nem houve pressões, nunca se arrependeu:

“Ninguém tentou fazer chantagem. Aliás não o teria permitido. Se o tivessem tentado, não teria saído, porque não se deve abandonar quando se está sob pressão. E também não é verdade que estava desiludido ou coisa semelhante. Pelo contrário, graças a Deus, estava num estado de alma pacífico de quem ultrapassou as dificuldades. O estado de alma em que se pode passar tranquilamente o leme a quem vem depois”.

Peter Seewald: o entrevistador/biógrafo de Bento XVI

E prometeu obediência absoluta ao sucessor: “o Papa é o Papa, não importa quem seja”.

Quanto a Francisco: “Quando ouvi o nome, primeiro fiquei inseguro. Mas, quando vi como falava, por um lado, com Deus e, por outro, com os homens, fiquei verdadeiramente contente. E feliz”.

A eleição de um cardeal latino-americano

“significa que a Igreja está em movimento, é dinâmica, aberta, tendo diante de si perspectivas de novos desenvolvimentos. É completamente claro que a Europa já não é o centro da Igreja mundial: a universalidade da Igreja é autêntica, os vários continentes têm nela peso igual”.

É evidente que

“a Igreja está a abandonar cada vez mais as velhas estruturas tradicionais da vida europeia e, portanto, muda de aspecto e nela vivem novas formas. É claro sobretudo que a descristianização da Europa progride, que o elemento cristão desaparece cada vez mais do tecido da sociedade. Portanto, a Igreja deve encontrar uma nova forma de presença. Estão em curso reviravoltas epocais”.

A teologia precisa de renovar-se, abandonando, por exemplo, antigas concepções espaciais:

“Deus não está “num lugar qualquer”, mas é a realidade. A realidade-fundamento de toda a realidade.” Não faz sentido a pergunta: “onde está Deus?”. “Porque “onde” já é uma delimitação, já não é o infinito, o criador, que é o Todo (das All), que abrange todo o tempo e ele próprio não é tempo, cria-o e é sempre presente.” Por isso, “é pessoa”: também em nós, “a pessoa é o que transcende o puro espaço e me abre o infinito”. Não se pode fazer representações de Deus, embora, para nós, esteja “presente num homem, Jesus Cristo”.

Teme a morte? Quem não teme? E pensamos nos “erros cometidos?” Mas, “evidentemente, a confiança de base está sempre presente”.

Peter Seewald:

“Quando comparecer perante o Todo-Poderoso, que vai dizer-lhe?”

“Pedir-lhe-ei que seja indulgente com a minha miséria”.

– Seewald: “O crente confia que a “vida eterna” é uma vida plena”.

– Resposta: “Absolutamente. A confiança em que, então, está verdadeiramente em casa”.

– E que deve constar na lápide tumular?

“Diria: Nada! Só o nome”.

– Seewald: “O seu lema episcopal é: “Colaboradores da Verdade”. Seria algo adaptado”.

– Bento XVI: “Sim. Uma vez que é o meu lema, pode ser colocado também”.

* Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Anselmo Borges x

Anselmo Borges

Fonte: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/-ultimas-conversastestamento-de-bento-xvi-2-5519546.html

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