Questionamentos após Medellin (III) : o sacerdócio.

Eduardo Hoornaert – Julho de 2016

A partir da vida vivida e sem praticamente nenhuma teorização, a primitiva imagem do mestre reaparece nas CEBs.  É pela experiência que se percebe que a lógica da Comunidade de Base, expressão concreta da opção pelos pobres, não combina com o sacerdócio tal qual é vivido tradicionalmente. Em outras palavras, as comunidades postulam um ‘novo tipo’ de padre.

Ao dinamizar a formação de Comunidades de Base (CEBs) por toda a América latina, Medellin abriu um campo de questionamentos acerca do sacerdócio.

Qualquer sacerdote que tem uma experiência em Comunidades de Base, sabe que a imagem tradicional do sacerdote que aparece na comunidade para

  • celebrar missa,
  • administrar sacramentos,
  • executar ritos e liturgias

é substituída, aos poucos, pela imagem do sacerdote que

  • fica no círculo,
  • ao lado de leigos e leigas,
  • escutando e interferindo de vez em quando.

Aos poucos, muitas vezes sem tomar consciência disso, esse sacerdote resgata a imagem antiquíssima do ‘mestre’, que caracteriza o movimento de Jesus nos primeiros séculos.

Efetivamente, o movimento de Jesus

  • nasce em oposição ao sistema sacerdotal hegemônico na religião judaica da época
  • e opta por uma atuação, por meio de um tipo de liderança em voga no sistema sinagogal.

Daí a experiência com

  • mestres,
  • profetas,
  • doutores,
  • rabinos,
  • rabis,

nomes diversos a indicar lideranças não sacerdotais.

Esses mestres

  • se destacam por suas qualidades pessoais,
  • não são investidos de poder por meio da legitimação (ordenação) por parte de alguma instância,
  • não recebem pagamento por seus serviços
  • nem se distinguem por alguma roupa especial.

Emanados do sistema sinagogal judaico, esses mestres modelam o movimento de Jesus, pelo menos até a segunda parte do século II. É um modelo

  • sem Templo nem sacerdócio,
  • sem ritos nem ordenamentos,
  • um movimento centrado na ação alimentada pela leitura e observância da Palavra de Deus na cotidianidade da vida.

Até Constantino (século IV)

  • não há distinção entre pessoas sagradas e profanas no seio do movimento de Jesus.
  • Todos são leigos, entre os quais alguns se destacam como ‘mestres’.
  • O clero como classe separada do laicato é uma inovação do século IV.

A estrutura clerical traz consigo o postulado da religião: é pela religião que se introduz o evangelho. Esquece-se que, nos pressupostos iniciais do movimento de Jesus, a diferenciação entre religião e evangelho é fundamental, como acabamos de considerar no ponto anterior:

  • o evangelho se vive na vida real, material, social,
  • enquanto a religião se vive num mundo simbólico.

Se, ainda hoje, a religião católica tem como modelo a cultura clerical romana, é por um tipo de resiliência particularmente resistente.

A partir da vida vivida e sem praticamente nenhuma teorização, a primitiva imagem do mestre reaparece nas CEBs. É pela experiência que se percebe que a lógica da Comunidade de Base, expressão concreta da opção pelos pobres, não combina com o sacerdócio tal qual é vivido tradicionalmente. Em outras palavras, as comunidades postulam um ‘novo tipo’ de padre.

Nesse sentido, por exemplo, Dom Romero, o bispo assassinado, pode ser apresentado como exemplo de um mestre cristão na América Latina, pois ele deu sua vida proclamando a Palavra de Deus diante de situações de extrema injustiça. Ele não invocou alguma autoridade estabelecida na sociedade, mas unicamente a autoridade da Palavra de Deus que ele interpretou em função da situação de seu país, e pela qual ele morreu.

 

 Eduardo Hoornaert - Corte

Eduardo Hoornaert

 Fonte: http://eduardohoornaert.blogspot.com.br/2016/07/questionamentos-apos-medellin-o_16.html

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