Eduardo Hoornaert – Julho de 201
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A partir da vida vivida e sem praticamente nenhuma teorização, a primitiva imagem do mestre reaparece nas CEBs. É pela experiência que se percebe que a lógica da Comunidade de Base, expressão concreta da opção pelos pobres, não combina com o sacerdócio tal qual é vivido tradicionalmente. Em outras palavras, as comunidades postulam um ‘novo tipo’ de padre.
Ao dinamizar a formação de Comunidades de Base (CEBs) por toda a América latina, Medellin abriu um campo de questionamentos acerca do sacerdócio.
Qualquer sacerdote que tem uma experiência em Comunidades de Base, sabe que a imagem tradicional do sacerdote que aparece na comunidade para
- celebrar missa,
- administrar sacramentos,
- executar ritos e liturgias
é substituída, aos poucos, pela imagem do sacerdote que
- fica no círculo,
- ao lado de leigos e leigas,
- escutando e interferindo de vez em quando.
Aos poucos, muitas vezes sem tomar consciência disso, esse sacerdote resgata a imagem antiquíssima do ‘mestre’, que caracteriza o movimento de Jesus nos primeiros séculos.
Efetivamente, o movimento de Jesus
- nasce em oposição ao sistema sacerdotal hegemônico na religião judaica da época
- e opta por uma atuação, por meio de um tipo de liderança em voga no sistema sinagogal.
Daí a experiência com
- mestres,
- profetas,
- doutores,
- rabinos,
- rabis,
nomes diversos a indicar lideranças não sacerdotais.
Esses mestres
- se destacam por suas qualidades pessoais,
- não são investidos de poder por meio da legitimação (ordenação) por parte de alguma instância,
- não recebem pagamento por seus serviços
- nem se distinguem por alguma roupa especial.
Emanados do sistema sinagogal judaico, esses mestres modelam o movimento de Jesus, pelo menos até a segunda parte do século II. É um modelo
- sem Templo nem sacerdócio,
- sem ritos nem ordenamentos,
- um movimento centrado na ação alimentada pela leitura e observância da Palavra de Deus na cotidianidade da vida.
Até Constantino (século IV)
- não há distinção entre pessoas sagradas e profanas no seio do movimento de Jesus.
- Todos são leigos, entre os quais alguns se destacam como ‘mestres’.
- O clero como classe separada do laicato é uma inovação do século IV.
A estrutura clerical traz consigo o postulado da religião: é pela religião que se introduz o evangelho. Esquece-se que, nos pressupostos iniciais do movimento de Jesus, a diferenciação entre religião e evangelho é fundamental, como acabamos de considerar no ponto anterior:
- o evangelho se vive na vida real, material, social,
- enquanto a religião se vive num mundo simbólico.
Se, ainda hoje, a religião católica tem como modelo a cultura clerical romana, é por um tipo de resiliência particularmente resistente.
A partir da vida vivida e sem praticamente nenhuma teorização, a primitiva imagem do mestre reaparece nas CEBs. É pela experiência que se percebe que a lógica da Comunidade de Base, expressão concreta da opção pelos pobres, não combina com o sacerdócio tal qual é vivido tradicionalmente. Em outras palavras, as comunidades postulam um ‘novo tipo’ de padre.
Nesse sentido, por exemplo, Dom Romero, o bispo assassinado, pode ser apresentado como exemplo de um mestre cristão na América Latina, pois ele deu sua vida proclamando a Palavra de Deus diante de situações de extrema injustiça. Ele não invocou alguma autoridade estabelecida na sociedade, mas unicamente a autoridade da Palavra de Deus que ele interpretou em função da situação de seu país, e pela qual ele morreu.
Eduardo Hoornaert
Fonte: http://eduardohoornaert.blogspot.com.br/2016/07/questionamentos-apos-medellin-o_16.html
