
Massimo Faggioli – 22 de Novembro de 2016
Foto: Daniel DiNardo, presidente eleito, e Joseph Kurtz, ex-presidente do colégio dos bispos católicos dos Estados Unidos.
“Muitos bispos esperaram por muito tempo uma vitória Trump temendo, não sem alguma razão, uma radicalização das políticas abortistas de Clinton (uma radicalização que revelou a miopia política de Clinton e é um dos elementos da derrota), e não considerando que, durante os governos republicanos, ideologicamente pró-vida, o número de abortos aumenta, por causa dos cortes nos programas sociais.”
Trump foi eleito o quadragésimo quinto presidente dos Estados Unidos, contra todas as previsões. Abre-se uma fase inédita e perigosa para a democracia da América, e especialmente para as Igrejas americanas que pretendem ser ainda a alma desta nação. Um país profundamente moralista como os EUA elegeu alguém como Trump que se gloria da sua imoralidade não só em questões sexuais, mas também fiscais e de ética dos negócios, que – pelo menos nas aparências – ainda é importante na América.
É uma eleição presidencial que desmascara algumas hipocrisias da cultura americana e revela a crise tanto da cultura progressista e secularizado como da conservadora e religiosa, ambas obcecadas pela questão identitária.
São três os fatores principais. Trump foi eleito devido às dificuldades econômicas e sociais dos esquecidos pela globalização, em protesto contra um sistema econômico e financeiro de que os Clintons fazem parte assim como Trump, mas do qual os Clinton foram considerados culpados por serem políticos profissionais.
Há também um protesto da América profunda contra a América das elites culturais e secularizadas e do sistema dos ‘mass media’ do establishment. Há, por fim, uma parte de ressentimento contra o primeiro presidente afro-americano, Obama, que faz parte da elite econômica e intelectual, mas é também o rosto da futura América, onde os brancos serão em breve uma minoria entre as minorias. A campanha de Trump também explorou o ressentimento racial daquela América profunda que nunca aceitou Obama como presidente legítimo. A América religiosa não coincide com a América profunda e reacionária, mas faz parte dela.
Abre-se um problema
A eleição de Trump abre um problema particular para a Igreja Católica norte-americana: perante a sua história como uma Igreja “importada” pelos imigrados em tempos mais recentes em relação aos fundadores; perante a sua dimensão global, com um Papa como Francisco que representa a alternativa ao sistema global, alternativa que uma boa parte dos bispos norte-americanos não quis escolher, preferindo Trump.
O episcopado americano teve muito mais medo de uma presidência Clinton do que medo de Trump, colocou-se contra a parte economicamente e politicamente fraca da própria Igreja, e renunciou a elaborar uma palavra elevada de fronte às mensagens mais violentas da campanha eleitoral de Trump, que durou quase um ano e meio.
Muitos bispos esperaram por muito tempo uma vitória Trump temendo, não sem alguma razão, uma radicalização das políticas abortistas de Clinton (uma radicalização que revelou a miopia política de Clinton e é um dos elementos da derrota), e não considerando que, durante os governos republicanos, ideologicamente pró-vida, o número de abortos aumenta, por causa dos cortes nos programas sociais.
Houve medo por parte de muitos bispos e membros do clero e intelectuais católicos em denunciar a retórica de Trump tal como denunciaram a cultura abortista da “identity politics” do Partido Democrata. Foi um erro de dimensão histórica que a Igreja americana pagará politicamente mas também espiritualmente. Os primeiros a pagar serão os pobres da América, que pagarão mais do que pagariam com uma presidência de Clinton.
Que diálogo e sobre que questões?
A semana após a eleição de Trump viu a realização da assembleia anual da Conferência Episcopal, que elegeu as novas lideranças para os próximos três anos: elegeu um novo presidente, o cardeal DiNardo (um dos signatários da carta dos treze cardeais contra Francisco durante o Sínodo de outubro de 2015), e elegeu o vice-presidente (e portanto, segundo a tradição, o provável presidente no período 2019-2022), o arcebispo de Los Angeles, Gomez, o bispo mais visível da população católica dos latinos dos Estados Unidos, apresentando esta escolha como uma resposta à eleição de Trump.
A de Gomez é uma escolha que não absolve os bispos norte-americanos pela sua aquiescência em relação a Trump. Que os católicos latinos dos EUA tenham boas relações com os da América Latina é um mito. São mundos diversos, como também já são mundos diversos a Igreja de Francisco e o episcopado americano: as nomeações episcopais de Francisco incidem sobre as Igrejas locais, mas não (ao menos por agora) sobre a conferência dos bispos.
Os bispos terão de dialogar com Trump, mas Trump procurará atender os bispos numa série muito limitada de questões. Toda a cultura social e política da Igreja institucional nos EUA sai danificada destas eleições devido à sua manifesta incapacidade de compreender o que estava acontecendo no país.
As primeiras nomeações de Trump, anunciadas nos primeiros dez dias após a eleição, mantêm o que ele tinha ameaçado: o nacionalismo “white supremacy” entra na Casa Branca, na cara dos que ainda se obstinam em ler o resultado das urnas em termos meramente materialistas de dificuldades econômicas.
A torção que Trump vai impor
A Igreja Católica americana está dividida, como e mais do que outras Igrejas, entre identidades culturais, políticas e étnicas, e, portanto, as reações são diversas. A campanha de Trump capitalizou estas rachaduras, explorando o tema da identidade branca e conservadora, usando de maneira instrumental a questão do aborto para atrair o voto católico.
Tal como no resto da América também na Igreja católica democratas e republicanos vivem em mundos diferentes, do ponto de vista existencial e intelectual.
Há um catolicismo em estado de choque: a América é um país que se percebe como uma entidade espiritual e a eleição de Trump é percebida como um sinal de grave crise espiritual.
Há os que podem permitir-se ver esta transição de poder como um das tantas da história americana, mas não é assim. Especialmente para aqueles que não têm pele branca, é um momento de estupefação e medo.
O medo é evidente especialmente entre
- os latinos,
- os árabes e os muçulmanos,
- os asiáticos,
- as minorias sexuais.
A questão não é ter ou não ter nada a temer da lei: é o medo do racismo de algumas parcelas da sociedade americana, que sempre fizeram parte da sociedade americana mas que há cerca de cinquenta anos eram mantidas à margem da vida política, embora gozando frequentemente da proteção da polícia e do poder judiciário. Agora com Trump sentem-se religitimadas para repropor com uma linguagem violenta o seu projeto de uma América etnicamente pura.
A presidência dos Estados Unidos tem uma função simbólica evidente também do ponto de vista religioso: a presidência tem uma função de ‘pontifex’. Com a presidência de Trump o excepcionalismo americano morre. A eclesiologia política dos EUA é inclusiva: Obama encarnava-a, Trump renega-a. A busca de um realinhamento entre os bispos e Trump não considera a torção a que fica submetida a eclesiologia católica: Trump interpreta em sentido étnico-racial um certo sectarismo típico do neo-conservadorismo católico americano contemporâneo.
Massimo Faggioli
Fonte: http://www.settimananews.it/politica/trump-la-miopia-dei-vescovi-usa/
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