Estados Unidos e Europa anunciam a construção de muros e a instalação de cercas elétricas para impedir a entrada de refugiados.
Políticos de extrema direita, como Trump, Bolsonaro, Temer, Doria, Alckmin – apenas para regionalizar a tragédia e contextualizar nossa realidade – dizem que alguns dos maiores culpados pelo atual estado de miséria econômica, especialmente pela sua miséria, são justamente os migrantes.
O discurso caricato de Donald Trump, ofensivo e criminoso a quase todas as minorias, ao nos escandalizar fazendo com que nos concentremos apenas nele, ajuda a esconder uma verdade dura e perversa a respeito de outras de suas qualidades monstruosas e que podem nos conduzir ao final dos tempos.
Em recente palestra dada em Barcelona, o linguista e ativista Noam Chomsky chama a atenção para a crise dos refugiados, criada e agravada pelos países ricos do mundo.
Chomsky falava antes de saber que Trump seria eleito, mas contando com essa possibilidade porque há uma década o ativista alerta para o perigo de um político de extrema direita tomar o poder nos Estados Unidos. Dias depois, em entrevista ao site truthout.com, ele diria: “8 de Novembro, uma data que pode se tornar a mais importante na história da humanidade, dependendo de como reagirmos”.
Em Barcelona Chomsky começa chamando a crise dos refugiados de “crise moral dos países ricos”. E, como sempre faz, explica com todo o cuidado o que pensa.
Enquanto fala, ele oferece números. Apenas em 2016, e apenas no Mediterrâneo, 4 mil homens, mulheres e crianças morreram afogados tentando escapar da miséria. Mas em seguida ele lembra que não é essa a primeira vez que o mundo enfrenta uma crise como essa.
Foi uma crise parecida, talvez pior, que fez europeus dizimarem quase toda a população indígena das Américas, segundo ele uma forma brutal de imperialismo sobre a qual quase nada se fala, até porque Trump e seus amigos ultra-nacionalistas acreditam que aquele território seja apenas deles, ignorando o que seus ancestrais fizeram com a população indígena que chegou ali bem antes de Colombo.
Outro efeito colateral que o deslocamento em massa provoca é a escravização dessa população desesperada para sobreviver em outras terras que não a sua devastada. Foi assim que a indústria do algodão fez fortunas, por exemplo, e estima-se que 20% da riqueza da França venha da exploração dessa mão-de-obra no Haiti.
São as contribuições do sistema escravocrata para as sociedades modernas, ainda que essa não seja uma lição dada em sala de aula porque ela evidencia o aspecto selvagem e genocida do capitalismo, um sistema que, explorando criminosamente milhões de seres humanos, construiu fortunas que foram para as mãos de poucas famílias. Foi a produção de algodão pelo trabalho escravo que deu as bases do desenvolvimento do comércio, finanças e varejo das sociedades modernas.

Refugiados na Hungria – Portal EBC
Enquanto isso, os países ricos se negam a receber a nova horda de refugiados e pressionam os nem tão ricos a aceitá-los. Quarenta por cento da população do Líbano é feita de imigrantes palestinos e sírios em sua maioria. A Jordânia é outro país que em anos recentes recebeu milhões, assim como o Quênia, Irã, Turquia e Afeganistão.
Os Estados Unidos, que posam de bom moço por terem recebido muitos refugiados depois da segunda Guerra, escondem uma verdade dura: que num primeiro momento recusaram orientais, judeus, alemães e suecos, que não eram considerados suficientemente puros. Costa Rica e República Dominicana absorveram essas pessoas na época.
Trazendo para a atual crise, Chomsky lembra que boa parte dela foi gerada pela invasão do Iraque conduzida pelos Estados Unidos e pela Inglaterra. Outro grande deslocamento em massa vem de Honduras, país que em 2009 sofreu um golpe de estado amplamente apoiado pelos Estados Unidos e que desde então afundou em miséria. Sem contar com guatemaltecos e salvadorenhos, também vítimas de ações do governo americano em seu território.
Em relação à Africa, Chomsky lembra que depois da segunda Guerra, enquanto os Estados Unidos, o grande vencedor, decidia o destino do mundo, ficou estabelecido que a África não era de seu interesse e, portanto, poderia ser entregue aos países europeus “para ser explorada”, e aqui Chomsky cita palavras do diplomata americano George Kennan. Essa África explorada por séculos é a mesma que se desmancha hoje.
Recentes ataques franceses e americanos à Líbia criaram outro deslocamento em massa e ajudaram o ISIS a finca sua base africana.
Tudo isso sem falar no deslocamento de 25 milhões de pessoas vítimas do aquecimento global criado, mais uma vez, pelo efeito estufa provocado pelos países ricos; isso dá “uma pessoa por segundo”, diz Chomsky.
Pode piorar. Especialmente depois que Trump , que diz acreditar que o aquecimento global é uma mentira criada por chineses para prejudicar a economia americana, assumir.
No mesmo fatídico 8 de novembro que levou um monstro como esse ao poder, a WMO (organização metereológica mundial) anunciou no Marrocos que os últimos 5 anos foram os mais quentes da história. Não há mais nenhum cientista minimamente sério que negue o impacto do efeito estufa provocado pela emissão de gases pelos países ricos nas mais recentes catástrofes climáticas.
- Em Bangladesh milhões de pessoas estão prestes a perder suas casas devido ao aumento do nível do mar,
- no sul da Ásia as temperaturas já alcançaram níveis que impedem a vida humana,
- no Himalaia o derretimento das geleiras torna iminente novo deslocamento em massa,
- na Índia 300 milhões de pessoas estão sem água potável.
Nas palavras de cientistas em Bangladesh: “os migrantes deveriam ter o direito de se mudar para os países ricos que causaram o efeito estufa. Milhões deveriam poder se mudar para os Estados Unidos”.
Mas não é o que acontece.
Estados Unidos e Europa anunciam a construção de muros e a instalação de cercas elétricas para impedir a entrada de refugiados. Políticos de extrema direita, como Trump, Bolsonaro, Temer, Doria, Alckmin – apenas para regionalizar a tragédia e contextualizar nossa realidade – dizem que alguns dos maiores culpados pelo atual estado de miséria econômica, especialmente pela sua miséria, são justamente os migrantes.
Nas palavras de um homem um pouco mais sensato, o Papa Francisco – ainda que me doa ter que citar o chefe da preconceituosa Igreja Católica –, “os refugiados não são um perigo, eles estão em perigo”.
Milly Lacombe
Fonte: https://blogdamilly.com/2016/11/14/a-crise-dos-refugiados-e-uma-crise-moral-dos-paises-ricos/
Leia Mais:
- Crise dos refugiados: a hipocrisia dos países árabes …
- Análise: Apesar de crise na Europa, 95% dos refugiados…
- Os países que mais recebem refugiados sírios – BBC…
- Culpe os países desenvolvidos pela crise dos refugiados…
- Crise humanitária: Direito, moralidade e solidariedade…
- Crise migratória na Europa – Wikipédia, a enciclopédia…
- G1 – Os países que mais recebem refugiados sírios -…
- Para Sebastião Salgado, crise dos refugiados é culpa dos…
- Crise dos refugiados mostra insensatez moral de líderes…
- O papel da Europa na crise dos refugiados – Opinião e…

