“Responder com amor, não com muros, ao terrorismo do dinheiro”

O Papa recebe pela terceira vez os movimentos populares e exorta-os a não ceder ao medo que sustenta um sistema iníquo e a combater a corrupção com a austeridade

Iacopo Scaramuzzi  VATICANO

Nenhum povo, nenhuma religião é terrorista. É verdade, existem pequenos grupos fundamentalistas em todos os lugares. Mas o terrorismo começa quando se expulsa a maravilha da criação, o homem e a mulher, e se coloca lá o dinheiro. Tal sistema é terrorista” – disse Francisco, que citou as denúncias de Pio XI e Paulo VI a respeito desta questão. “Nenhuma tirania – disse Francisco – se sustenta sem explorar os nossos medos.”

“Enfrentemos o terror com o amor”. Depois do encontro de 2014 em Roma e do de 2015 na Bolívia, o Papa recebeu pela terceira vez nesta tarde, no Vaticano, os movimentos populares internacionais, empenhados na defesa de “terra, casa e trabalho para todos” (em espanhol três “t »: tierra, techo, trabajo).

Francisco, que denunciou com “vergonha” a “bancarrota da humanidade”, representada pela “ignominiosa” situação de  recusa dos imigrantes, exortou os movimentos populares a não se deixarem paralisar pelo mecanismo do medo que sustenta um sistema iníquo:

“Quando este terror, que foi semeado nas periferias com massacres, saques, opressão e injustiça, explode nos centros com diferentes formas de violência, até  com atentados odiosos e covardes, os cidadãos que ainda conservam alguns direitos são tentados pela falsa segurança dos muros físicos ou sociais».

Antes de concluir o discurso em espanhol, falando de Martin Luther King, o Papa exortou os movimentos populares a não se deixarem “enquadrar” num momento em que cresce a disparidade entre os povos e as nossas atuais formas de democracia” e a escolher a austeridade para combater o risco da corrupção.

 

Audiência do papa Francisco aos participantes do Terceiro Encontro dos Movimentos Populares (clique, ouça e veja) –  LaPresse

 

“Congratulo-me com vocês, acompanho-vos, peço-vos que continuem a abrir caminhos e a lutar” – disse o Papa aos representantes de todo o mundo de camponeses, catadores, ativistas empenhados na defesa das categorias mais fracas. No entanto, há forças poderosas que podem neutralizar este processo de maturação de uma mudança que seja capaz de afastar a primazia do dinheiro e colocar de novo no centro o ser humano” – denunciou Francisco. “Quem manda então? O dinheiro. Como governa? Com o chicote do medo, da desigualdade, da violência econômica, social, cultural e militar que gera sempre mais violência numa espiral descendente que parece não acabar nunca.

Quanta dor, quanto medo! Há – eu disse isso recentemente – há um terrorismo de base que deriva do controle global do dinheiro na terra e ameaça a humanidade inteira. Deste terrorismo de base alimentam-se os terrorismos derivados como o narco-terrorismo, o terrorismo de Estado, e o que alguns erroneamente chamam terrorismo étnico ou religioso. Nenhum povo, nenhuma religião é terrorista. É verdade, existem pequenos grupos fundamentalistas em todos os lugares. Mas o terrorismo começa quando se expulsa a maravilha da criação, o homem e a mulher, e se coloca lá o dinheiro. Tal sistema é terrorista” – disse Francisco, que citou as denúncias de Pio XI e Paulo VI a respeito desta questão. “Nenhuma tirania – disse Francisco – se sustenta sem explorar os nossos medos.

Daí o fato de que toda a tirania é terrorista. E quando este terror, que foi semeado nas periferias com massacres, saques, opressão e injustiça, explode nos centros com diferentes formas de violência, até com atentados odiosos e covardes, os cidadãos que ainda conservam alguns direitos são tentados pela falsa segurança dos muros físicos ou sociais. Muros que enclausuram alguns e expulsam outros. Cidadãos murados, aterrorizados, de um lado; excluídos, expulsos, ainda mais aterrorizados, do outro. É esta a vida que Deus nosso Pai quer para os seus filhos?

O medo é alimentado, manipulado … Por que o medo, além de ser um bom negócio para os comerciantes de armas e de morte, enfraquece-nos, desestabiliza-nos, destrói as nossas defesas psicológicas e espirituais, anestesia-nos diante do sofrimento dos outros e por fim torna-nos cruéis. Quando ouvimos que se festeja a morte de um jovem que talvez errou o caminho, quando vemos que se prefere a guerra à paz, quando vemos que a xenofobia se espalha, quando constatamos que ganham terreno as propostas intolerantes; por trás desta crueldade que parece massificar-se há o sopro frio do medo. Peço-vos que rezem por todos os que têm medo, rezemos para que Deus lhes dê coragem e que neste ano de misericórdia possa amolecer os nossos corações”.

 “A misericórdia não é fácil, não é fácil … exige coragem” – disse ainda o Papa. “Por isso Jesus nos diz: ” Não tenham medo”, porque a misericórdia é o melhor antídoto contra o medo. É muito melhor do que os antidepressivos e os ansiolíticos. Muito mais eficaz do que muros, grades, alarmes e armas. E é grátis: é um dom de Deus. Queridos irmãos e irmãs, todos os muros caem. Enfrentemos o terror com o amor“.

Com base no Evangelho, o Papa deteve-se depois sobre o tema do desemprego, sublinhando que

“os hipócritas, para defender sistemas injustos, opõem-se a que sejam curados. Às vezes acho que quando vocês, os pobres organizados, inventam o vosso trabalho, criando uma cooperativa,

  • recuperando uma fábrica falida,
  • reciclando o que é descartado pela sociedade de consumo,
  • enfrentando a inclemência do tempo para vender numa praça,
  • reivindicando um pedaço de terra para cultivar e alimentar quem tem fome,

vocês estão imitando Jesus, porque vocês tentam curar, mesmo que só um pouco, mesmo que precariamente, esta atrofia do sistema socioeconômico vigente que é o desemprego. Não me admira – disse o Papa – que vocês também sejam às vezes vigiados ou perseguidos, nem me admira que aos orgulhosos não interesse o que vocês dizem”. 

Quanto à imigração, à atual – denunciou Francisco – “é uma situação ignominiosa, que só posso descrever com uma palavra que me saiu espontaneamente em Lampedusa: vergonha“. O Papa fez suas as palavras proferidas em Lesbos pelo arcebispo Hieronymos da Grécia sobre a “bancarrota da humanidade”:

“O que acontece no mundo de hoje que, quando acontece a bancarrota de um banco, aparecem imediatamente somas escandalosas para salvá-lo, mas quando acontece esta bancarrota da humanidade não há quase nem uma milésima parte para salvar os irmãos que sofrem tanto? E assim o Mediterrâneo tornou-se um cemitério, e não só o Mediterrâneo … muitos cemitérios perto dos muros, muros manchados de sangue inocente”.

A imigração “é um problema do mundo. Ninguém deveria ver-se forçado a fugir da própria pátria. Mas o mal é o duplo quando, diante dessas terríveis circunstâncias, o migrante se vê jogado nas garras dos traficantes de pessoas para atravessar as fronteiras, e é triplo, se ao chegar na terra em que pensava encontrar um futuro melhor, é desprezado, explorado e até mesmo escravizado. Isto pode ser visto em qualquer canto de centenas de cidades”.

 Nesta conjuntura em que “a disparidade entre as pessoas e as nossas formas atuais de democracia aumentam sempre mais como consequência do enorme poder dos grupos econômicos e midiáticos que parecem dominá-las”, o Papa dirigiu duas exortações aos movimentos populares.

Em primeiro lugar,

“não caiam na tentação do ‘corsé’ [espartilho] que vos reduz a atores secundários ou, pior, a meros administradores da miséria existente. Nestes tempos de paralisia, desorientação e propostas destrutivas, a participação como protagonistas dos povos que buscam o bem comum pode vencer, com a ajuda de Deus, os falsos profetas que exploram o medo e o desespero, que vendem fórmulas mágicas de ódio e crueldade ou de um bem-estar egoístico e de uma segurança ilusória“.

O segundo risco a ser evitado – disse Jorge Mario Bergoglio – é o de deixar-se corromper:

  • “Há corrupção na política,
  • há corrupção nas empresas,
  • há corrupção nos meios de comunicação,
  • há corrupção nas igrejas
  • e há corrupção também nas organizações sociais e nos movimentos populares” – escandiu o Papa, aplaudido repetidamente. 

A qualquer pessoa que seja muito apegada às coisas materiais ou ao espelho, que ama

  • o dinheiro,
  • os banquetes exuberantes,
  • as casas suntuosas,
  • as roupas requintadas,
  • os carros de luxo, 

eu o aconselharia a procurar entender o que está acontecendo no seu coração e a orar a Deus para o libertar destes laços”.

Mas, parafraseando o ex-presidente latino-americano que está aqui “ – disse o Papa olhando para José “Pepe” Mujica – “aquele que gosta destas coisas todas, por favor, não se meta em política, não se meta numa organização social ou num movimento popular … ou num seminário … porque faria muito mal a si mesmo e ao próximo e mancharia a nobre causa que alardeia. Diante da tentação da corrupção, não há melhor remédio que a austeridade; e praticar a austeridade é, além disso, pregar com o exemplo.

Peço-vos para não subestimarem o valor do exemplo porque tem mais força que mil palavras, que mil panfletos, que mil “likes”, que mil ‘retweets’, que mil vídeos no YouTube. O exemplo de uma vida austera a serviço do próximo é a melhor maneira de promover o bem comum e o projeto-ponte dos “3-T ” (trabalho, casa, terra, ndr). Peço a vocês dirigentes que não se cansem de praticar a austeridade e peço a todos que exijam dos dirigentes esta austeridade, que – de resto – os fará muito felizes”.

O Papa concluiu o discurso citando Martin Luther King:

“Ódio por ódio só intensifica a existência de ódio e do mal no universo. Se eu te bato e tu me bates, e eu te devolvo a pancada e tu me devolves a pancada, e assim por diante, é evidente que se continua até o infinito; simplesmente nunca termina. Em algum lugar, alguém deve ter um pouco de bom senso, e essa é a pessoa forte. A pessoa forte é a pessoa que é capaz de quebrar a cadeia do ódio, a cadeia do mal”.

 

 

IACOPO SCARAMUZZI

 

FONTE: http://www.lastampa.it/2016/11/05/vaticaninsider/ita/vaticano/rispondere-con-amore-non-con-muri-al-terrorismo-del-denaro-a8RLygCIqeKyz1g6TyGDcJ/pagina.html

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