
Gianni Valente – 21/10/2016
Foto: O autointitulado bispo Paulus Dong
“No caso do autointitulado bispo “clandestino” ordenado sem o consentimento do Papa afloram detalhes reveladores. No alvo parecem estar as negociações em curso entre Pequim e a Santa Sé. Mas a resposta de muitos bispos, sacerdotes e leigos da área “clandestina” é luminosa e consoladora”
“Se as dioceses precisam de um bispo, podem contatar-me pelo meu telefone celular 138 / 03334XXX”. Já no início de setembro, o sacerdote chinês Paulus Dong Guanhua prometia deste modo ordenações episcopais a pedido, nas páginas do ‘website’ católico www.tianzhujiao.online
Depois, em 11 de setembro, vestido como bispo, com mitra e pastoral, Paulus Dong celebrou a missa da sua “investidura episcopal” em uma igreja da diocese de Zhengding, na província de Hebei, rodeado por algumas centenas de seguidores, ao som de gongos e fogos de artifício.
No caso do autointitulado bispo e da sua ordenação episcopal ocorrida sem o consentimento da Santa Sé, há muitas zonas de sombra, incluindo a hipótese de que tal ordenação nunca tenha acontecido de fato. Mas com o tempo, também estão aflorando detalhes reveladores a respeito e em torno do “caso Dong”. Peças de uma articulação de política eclesiástica que tem como alvo final as negociações em curso entre Pequim e a Santa Sé a respeito da condição – presente e futura – dos bispos católicos chineses.
Um caso complicado.
As informações divulgadas pelo autoproclamado bispo acerca da sua ordenação parecem reticentes ou – talvez – propositalmente obscuras. Segundo reconstruções que circularam nos blogs católicos chineses, só em maio passado Paolus Dong teria começado a aludir publicamente ao fato de ter sido ordenado bispo em tempos passados, nada menos que em 2005, e de ter mantido em segredo a sua ordenação por determinação da Santa Sé.
Agora, o “bispo escondido” teria decidido sair a público e começar a exercer as suas funções episcopais, precisamente para dedicar-se ao “estado de emergência” que na sua opinião foi desencadeado pelos novos desenvolvimentos nas relações entre a Igreja Católica e a China popular.
Em várias ocasiões e com interlocutores diferentes, Dong deu informações vagas e contraditórias acerca do bispo consagrante, afirmando e depois desmentindo ter recebido a ordenação do idoso bispo Casimirus Wang Milu, atingido há tempos por formas de desequilíbrio mental. Dong também declarou à agência Ucanews ter, por sua vez, ordenado ilegitimamente um outro bispo, recusando-se a mencionar o seu nome para não aumentar a pressão dos órgãos governamentais chineses sobre ele.
As versões reticentes e contraditórias fornecidas pelo autoproclamado bispo parecem ter sido disseminadas de propósito para criar confusão. E também para minar o campo a eventuais intervenções da Santa Sé, que sem comprovação não pode pronunciar-se de forma definitiva sobre uma questão tão delicada.
A retrodatação para o longínquo ano de 2005 da suposta “ordenação oculta” também parece calculada para deixá-la fora do alcance das disposições contidas na Carta de Bento XVI aos católicos chineses, publicada em 2007: naquele texto magisterial, o Papa Ratzinger tinha revogado oficialmente as “faculdades especiais” – na realidade já suspensas há tempo – que na década de oitenta, devido à situação de emergência provocada pela perseguição, haviam permitido aos bispos chineses celebrar consagrações episcopais sem ter nem mesmo a aprovação preliminar do Papa.
Se muitos aspectos da afirmada ordenação episcopal de Dong permanecem vagos, a “mens” que o move tem conotações facilmente reconhecíveis. Manifestou-as o próprio autodenominado bispo, na sua declaração que apareceu em tianzhujiao.online, em 02 de setembro. Nessas poucas linhas, numa linguagem às vezes incongruente, Dong citava o diálogo entre a China popular e a Santa Sé como uma manifestação da “Grande Apostasia” que segundo São Paulo deve preceder o retorno de Cristo.
Referia-se também, de maneira instrumental, às considerações feitas em junho passado pelo cardeal Joseph Zen, nas quais o bispo emérito de Hong Kong, raciocinando como católico adulto e consciente, sugeria que, ao avaliar eventuais acordos entre a China e a Santa Sé, fosse seguida a bússola da própria consciência.
Além disso, Dong defendia a urgência de revalorizar e seguir os chamados “treze pontos de Fan”, o memorando que o bispo Joseph Fan Xueyan fez circular no longínquo 1987, que entre outras coisas exortava os fiéis da área clandestina a não receber os sacramentos nas igrejas dirigidas por padres e bispos “colaboradores” com a política religiosa chinesa.
A menção aos “13 pontos de Fan” está repleta de implicações. Na década de oitenta, quando se findava o período da perseguição mais sangrenta que havia coincidido com a Revolução cultural, Fan tinha sido um protagonista dos acontecimentos na área católica chamada “clandestina”, que sempre recusou submeter a vida eclesial às regras e aos organismos «patrióticos» de controle ligados às autoridades civis.
Foi ele que, na época, desempenhou um papel fundamental na rápida difusão de uma rede de bispos chineses “clandestinos”, não reconhecidos e muitas vezes perseguidos como foras da lei pelos órgãos de segurança, e ele fez isso com base na faculdade a ele concedida pelo Papa Wojtyla de realizar ordenações episcopais sem sequer informar a Santa Sé.
Ao repropor os “Treze pontos”, Dong dá a entender que a situação atual, com a perspectiva de um possível acordo entre a Santa Sé e o governo comunista chinês, configura um “estado de emergência” semelhante ao vivido nos tempos de Fan, e exige que se tomem medidas de proteção com iniciativas e poderes “extraordinários”, análogos aos postos em prática naquele tempo. Incluindo a decisão de ordenar bispos ilegítimos, sem o consentimento do Sucessor de Pedro.

Católicos chineses
O balão de ensaio lançado por Dong tem por fim verificar se existem condições para fazer surgir agora, como nos tempos de Fan, uma rede de novos bispos “subterrâneos”, ordenados sem prévio consentimento do papal, prontos desta vez a “resistir” às eventuais consequências do iminente acordo entre a China comunista e a Santa Sé. A mensagem em código é claramente dirigida às comunidades clandestinas. Mas é exatamente dessa área da Igreja que até agora chegou a resposta mais luminosa e consoladora à obscura provocação do autodenominado bispo Dong.
Os clandestinos sempre com o Papa.
No silêncio da Santa Sé, e sem necessidade de receber instruções do exterior, Mons. Julius Jia Zhiguo, de 81 anos, bispo legítimo – isto é reconhecido pela Santa Sé – da diocese de Zhengding (a mesma da qual o autoproclamado bispo Dong pretende ser agora titular) divulgou, já no dia 13 de setembro, entre os sacerdotes de sua diocese um comunicado em que anuncia a excomunhão ‘latae sententiae’ (automática e sem necessidade de qualquer declaração explícita) em que Dong incorreu pela sua ordenação episcopal realizada sem o consentimento da Santa Sé.
O bispo Jia, considerado uma bandeira viva da área clandestina, é admirado e seguido pela simplicidade evangélica com que exerce o seu ministério episcopal, e passou, mesmo quando já idoso, vários períodos na cadeia ou em “prisão domiciliar” por ter continuado a atuar como bispo, sem ser reconhecido como tal pelo governo chinês. Várias fontes locais referem que, já há alguns anos atrás, o bispo Julius Jia tinha suspendido padre Dong do ministério sacerdotal.
Ao passo que o próprio Dong afirmou, em algumas conversas privadas, que a sua decisão de “tomar posse” da diocese de Zhengding se tornara “necessária” depois que o idoso Julius tinha mantido contatos com os organismos do governo tendo em vista trabalhos de reestruturação de algumas igrejas. A sua decisão de colaborar com as autoridades civis, segundo Dong, teria ‘ipso facto’ feito dele um bispo “oficial”, e por isso os católicos de Zhengding precisavam ter um novo bispo, em quem “pudessem confiar”.
A reação imediata de Jia é em si mesma um reflexo do ‘sensus fidei’ que tem guardado e guiado pastores e fiéis das comunidades clandestinas, mesmo ante as incógnitas do tempo presente. Os blogs católicos chineses estão cheios de manifestações de pessoas batizadas que se distanciam do autodenominado bispo Dong e que formam espontaneamente um cordão de isolamento sanitário em torno das suas iniciativas. Até agora, as palavras mais lúcidas e clarividentes para defender o povo de Deus do escândalo e da confusão provocados pela “operação Dong” vieram e continuam a vir de bispos e padres “clandestinos”:
“Tomemos tudo isto” – exortou o padre clandestino Paulus Han no seu seguidíssimo blog – “como uma lição da história. Não nos deixemos confundir e assustar por estas pessoas que fazem o seu jogo e usam a “fidelidade” como uma palavra de ordem, quando na verdade instigam à rebelião. Gastemos as nossas energias para servir a unidade da Igreja chinesa, em vez de nos escondermos no nosso pequeno círculo para nos convencermos de que somos nós os únicos “certos” ou, pior, para semear confusão”.
Faz-lhe eco José Han Zhihai, bispo “clandestino” de Lanzhou:
“este caso” – diz o bispo Han ao ‘Vatican Insider’ – “mostrou que, também na China a boa semente da fé cresce no meio do joio. Há muitas pessoas que exploram até a simplicidade dos fiéis por sede de poder. Sinto-me humilhado e impotente. Mas entendo que isto também faz parte do caminho para fazer florescer o Evangelho no nosso País. Nós buscamos sair da clandestinidade para viver melhor o Evangelho no nosso ambiente. E o mesmo fazem os irmãos das comunidades “oficiais”, aqueles que têm a paixão de testemunhar a sua fé em Cristo e que certamente não podem ser acusados de sacrificar a doutrina da Igreja“.
As mesmas palavras chegam de José Wei Jingyi, bispo “clandestino” de Qiqihar:
“Nós estamos felizes apenas por caminhar junto com todos aqueles que estão em comunhão com o Papa. O resto não nos interessa“.
Bombas-relógio.
A’ “operação Dong” fez emergir em termos objetivos o ‘sensus fidei’ testemunhado por muitos expoentes das comunidades clandestinas. Mas em torno de todo este caso estão sendo divulgadas também chaves interpretativas que as consideram como uma manifestação sintomática, uma espécie de “erupção cutânea” do mal-estar que circula entre as comunidades clandestinas em relação ao processo de diálogo com o governo chinês empreendido pela Santa Sé.
“Em filigrana” – escreveu por exemplo ‘Eglises d’Asie (EDA)’, a Agência de informações da ‘Société des Missions Etrangères de Paris” – lê-se a frustração de certos ambientes “clandestinos” em relação a Roma, [ambientes] que não entendem as negociações em curso entre a Santa Sé e Pequim”.
O órgão do MEP, em que no passado escreviam missionários apaixonados e conhecedores profundos da questão chinesa como Jean Charbonnier, também refere o boato de que na China haveria de “cinco a dez” bispos ordenados dentro das comunidades “clandestina”, sem o consentimento papal. O “expediente” midiatizado do autodenominado bispo Dong, longe de ser visto como um caso isolado, com implicações psiquiátricas, é tido pela EDA como um prenúncio do “risco muito real de ver-se acontecer um cisma no seio da Igreja da China”, por não terem sido escutados os alarmes acerca do “sentimento de isolamento” presente entre os católicos clandestinos.
Assim, “a operação Dong” torna-se um ponto de partida para dar crédito a avaliações objetivamente culpabilizantes em relação à Santa Sé e ao seu modus operandi em relação ao governo chinês. As dificuldades e problemas que marcam esta fase delicada – incluindo o caso do autointitulado bispo ilegítimo de Hebei – tornam-se oportunidades que são exploradas pelos círculos e grupos – ativos especialmente fora da China – cujo interesse primário no momento é o de contestar e até esconjurar a possibilidade de um acordo entre Roma e Pequim. Mesmo à custa de lançar a sombra do cisma sobre toda área eclesial clandestina. Manobras sofisticadas, às quais responde com um ponta de indignação José Wei:
“Fomos fiéis ao Papa e à Igreja de Roma” – enfatiza o bispo “clandestino” de Qiqihar – “à custa de humilhações e sofrimentos, e continuamos a sê-lo ainda agora, enquanto a Santa Sé trata com o governo chinês para resolver os problemas. Sabemos que pode haver riscos, mas não temos a pretensão de que tudo esteja “garantido” antes de iniciar o caminho. Somos católicos, porque confiamos em Jesus, e por isso confiamos no Papa.
E a ideia de que estaríamos prontos a nos rebelar contra o Papa exatamente agora, depois de tudo o que passamos permanecendo fiéis, representa até um insulto à nossa inteligência“.

Gianni Valente
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Do Site: http://www.ihu.unisinos.br/561475-china-os-catolicos-clandestinos-rejeitam-a-operacao-dong
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