
IACOPO SCARAMUZZI – 18/10/2016
Foto ANSA: O venezuelano Arturo Sosa durante a conferência de imprensa
Reconciliação entre as pessoas, entre as nações, com Deus, e também com a criação. É o desafio que a Companhia de Jesus deve enfrentar neste momento da história. O novo superior geral da ordem fundada em 1540 por Santo Inácio de Loyola, o venezuelano Arturo Sosa, 68 anos, indicou-a durante a sua primeira conferência de imprensa após a eleição na última sexta-feira.
Não um programa de governo, mas a ênfase em que, quer se trate das guerras em curso ou da crise migratória, da pobreza ou da emergência ecológica, os jesuítas são chamados a, apoiando-se sobre as duas pernas do “serviço à fé” e da “profundidade intelectual“, “buscar o impossível” com esperança, nada mais que” uma forma de expressar a fé”.
“Buscar o impossível”, conceito utilizado pelo Padre Sosa desde a primeira homilia na Igreja de Jesus, “é a missão dos cristãos” – explicou ele hoje em resposta às perguntas dos jornalistas – “é uma forma de expressar a fé: quem tem fé é capaz de esperar o improvável, a esperança ajuda-nos a fazer o que esperamos.
Quando se analisa o mundo, quando se vêem os poderes econômicos, os poderes das armas, do narcotráfico, do tráfico de pessoas, tão fortes que parecem imbatíveis, parece que não há nada a fazer, pode-se ficar pessimista; mas ao contrário o improvável é possível, é possível viver em paz, é possível uma economia solidária, é possível haver estilos de vida respeitosos para com a criação, ter o que comer na própria casa, ter alguma coisa, uma escola … tudo isso um grande desafio para a Companhia de Jesus e sem fé não se faz nada“.
Esta é a primeira das duas “pernas” com as quais os jesuítas caminham. “A outra perna é a profundidade intelectual”, porque para enfrentar estes desafios é necessário “entender o que está acontecendo, aprofundar o conhecimento científico, cultural, pessoal, pensando e agindo ao mesmo tempo“.
O padre Sosa esclareceu: “Como vou governar a Companhia ainda não está claro nem mesmo para mim, nem pode estar, porque a Congregação que me elegeu apenas começou e agora passa à fase deliberativa” com a aprovação, de hoje até às próximas semanas (não há um termo para a convocação que, provavelmente, não irá além de meados de novembro), dos decretos programáticos e da eleição do governo central da Companhia de Jesus, que coadjuvará o superior geral venezuelano: quatro assistentes “ad providentiam” e um “monitor”, que supervisiona a atividade de governo do superior geral,
- a sua vida espiritual,
- mas também física e mental.
“Mas – acrescentou o padre Sosa – não se põe em discussão o sentido da nossa missão definido claramente após o Concílio Vaticano II: o serviço à fé e à promoção da justiça tendo em conta as diversidades culturais e através do diálogo“. Em particular, são “ainda atuais” as prioridades identificadas em 2008 pela Congregação Geral que elegeu o predecessor, o espanhol Adolfo Nicolás, ao qual o novo superior é ligado por “amizade” e gratidão, ou seja “o diálogo inter-religioso, a questão dos refugiados, as migrações dos que mudam de país em busca de uma vida melhor, a crise econômica, a pobreza”.
O novo superior geral lembrou que foi exatamente o Padre Nicolás – que se transferirá brevemente para as Filipinas, onde desempenhará a função do padre espiritual no campus do ‘East Asian Pastoral Institute’ de Manila – quem, ao convocar a atual congregação geral (preparada por uma consulta preliminar nas várias províncias dos jesuítas nos cinco continentes), tinha convidado todos a identificar as “chamadas” que o Senhor dirige hoje à Companhia de Jesus. “Todas as congregações provinciais enviaram as respostas e para mim – disse Sosa – foi emocionante verificar que uma palavra repetia-se em praticamente todas as respostas: reconciliação.
Reconciliação entre todos, de diferentes maneiras! Em todas as regiões do mundo percebe-se esta rachadura, esta ferida profunda que nos divide e que se constata até diante de situações graves: penso
- na Venezuela,
- mas, pior, na Síria,
- no Iraque,
- nas guerras de que não se fala, nas pessoas forçadas a migrar.
Não pode haver Reino de Deus se não nos reconhecemos entre nós, se não conseguimos viver em paz, se não nos reconciliamos entre nós, e também se não nos reconciliamos com a terra que estamos a ponto de destruir.
Então esta é uma grande chamada à reconciliação, é um grande desafio para nós, pequenina Companhia de Jesus, que, juntamente com tantos que trabalham conosco, podemos contribuir pelo menos com um pequeno esforço: a reconciliação entre os seres humanos que, ao mesmo tempo, é reconciliação com Deus e com a criação“.

Pe. Arturo Sosa com Papa Francisco
A quem, na conferência de imprensa, lhe lembrava as palavras do Papa Francisco dirigidas aos jovens argentinos presentes na Jornada Mundial da Juventude do Rio de Janeiro, “Hagan lio,” façam barulho, o padre Sosa respondeu, em espanhol: “Barulhos, já atravessei muitos, a questão agora é quais serão os novos! O que eu acho que o Papa queria dizer – continuou – é que não devemos ter medo de nos envolvermos a fundo nos acontecimentos dos seres humanos, porque a Igreja, a Companhia de Jesus, não são feitas para defenderem a si mesmas das situações difíceis“.
O padre Sosa, que falou em espanhol, italiano e inglês (“O senhor pode responder a esta pergunta em inglês?”. “Em espanglês” – brincou), começou falando brevemente sobre a eleição: “Estou bem, estou calmo, muito surpreso, ainda tenho de me acostumar com a ideia, e, ao mesmo tempo, estou grato ao Senhor, pronto a responder com alegria a esta chamada, mas também sinto grande necessidade de ajuda: não é uma coisa que eu possa fazer sozinho. Esta é a companhia de Jesus e então confio que Jesus se encarregue da sua companhia e eu vou procurar não colocar muitos obstáculos”.
Não faltaram, no decorrer da conferência de imprensa, perguntas mais específicas, como uma sobre a situação da Venezuela, que o padre Sosa, doutor em Ciências políticas, dissecou durante a sua carreira acadêmica.
“Não se pode entender o que está acontecendo na Venezuela – sublinhou – se não estiver claro que o país vive da renda do petróleo, e que esta renda é gerida diretamente e exclusivamente pelo Estado”. Uma situação que “dificulta a formação de uma sociedade democrática”, causando “muito sofrimento”, que nem “o modelo político do comandante Chávez, e agora do presidente Maduro”, nem a atual oposição, parece capazes de superar, como “a sociedade e o povo venezuelano” desejariam, na direção a “um sistema não baseado na renda [do petróleo], que é a única maneira de sair da situação atual”.
Quanto à China, o padre Sosa lembrou que no país estão presentes uns dez jesuítas que, com a autorização do governo central, ensinam nas universidades línguas, economia ou ciências sociais, sem desenvolver atividades de apostolado. Depois, há as atuações em Taiwan, Hong Kong e Macau, onde por exemplo os jesuítas são responsáveis pela formação teológica de uma centena de estudantes.
O padre Sosa contou ter-se encontrado várias vezes com Jorge Mario Bergoglio, desde quando ambos participaram da 33ª Congregação Geral da Companhia de Jesus em 1983, na qual aliás o atual superior geral, então com 35 anos, era o jesuíta mais jovem. Quando era diretor do centro de pesquisa social Gumilla, o jesuíta venezuelano, encontrou-se várias vezes com Bergoglio em Buenos Aires.
Finalmente, desde quando, dois anos atrás, se transferiu para Roma como delegado para as casas e as atividades internacionais da Companhia de Jesus, recebeu o Papa todas as vezes em que ele visitou uma das casas (como a Pontifícia Universidade Gregoriana, a Igreja de Jesus, o observatório astronômico de Castel Gandolfo). Depois que foi eleito, o padre Sosa ainda não se encontrou com o Pontífice. “Com o Papa Francisco é muito fácil entrar em comunicação cordial“.
O novo superior dos jesuítas respondeu negativamente a quem lhe perguntou se gosta do apelido “Papa Negro” tradicionalmente atribuído ao superior dos jesuítas, sublinhando que os jesuítas – a começar pelo Superior Geral – estão a serviço do Papa e dos bispos.
Quanto à hipótese de renúncia, “permanece como uma decisão da Companhia, que continua a eleger o superior vitaliciamente, mas com capacidade para governar a complexidade da companhia de Jesus. E de fato, os três últimos superiores gerais – Pedro Arrupe, Peter-Hans Kolvenbach e Adolfo Nicolás – renunciaram por motivos de idade ou de saúde, porque sentiram que não poderiam servir a Companhia como se deve, como aliás também fez o Papa Ratzinger”.
O padre Sosa também afirmou que gosta de “tudo” na Companhia de Jesus, desde quando ainda jovem conheceu os jesuítas (que chegaram à Venezuela em 1916): “É uma espiritualidade que te põe em contato seja com Jesus encarnado, seja com as situações do mundo” – disse ele, prestando uma homenagem especial aos “irmãos” jesuítas, ou seja aos leigos consagrados:” Conheci verdadeiros santos, um nível de oração entre os padres mas especialmente entre os irmãos, sem ofensa para os padres”.
Na conferência de imprensa, coordenada pelo responsável pela comunicação da Cúria generalícia, Patrick Mulemi, o padre Federico Lombardi destacou, na abertura, que o padre Sosa
“é o primeiro superior não-europeu, o primeiro latino-americano, mas que os três superiores precedentes, embora nascidos na Europa, tinham passado toda a sua vida na Ásia: os horizontes internacionais já eram muito claros nas últimas décadas e agora temos um representante da América Latina, particularmente significativo com um papa que também vem da América Latina”.
No blog da 36ª Congregação Geral, um outro jesuíta italiano membro da congregação, Antonio Spadaro, diretor da revista ‘Civiltà cattolica’ fez um relato de alguns momentos antes da eleição. Durante a congregação, “o clima era de silêncio e de profundo recolhimento interior. Eu tinha mostrado a ele um caderninho em que eu estava tomando algumas notas. Na capa estava impressa uma frase de Santo Inácio em inglês: “Go forth and set the world on fire”, isto é, “Vão e inflamem o mundo”. O seu comentário foi: “Sim. Mas hoje o mundo já está em chamas, e, infelizmente, num outro sentido…”.
Depois, no momento culminante, “a contagem dos votos já indicava que a sua eleição era iminente. E ele estava calmo como antes do início da votação, como no dia anterior … Quase sem pensar estiquei o braço como para confortá-lo pelo peso que estava caindo sobre as suas costas. Percebi que o estava abraçando. Ele, calmo como antes, só sussurrou algo como ‘quando a galinha é para ser comida, não há outra coisa a fazer senão ferver a água …’”.
Finalmente, “um dia falávamos do Papa Francisco. Disse-me que tinha conhecido Jorge Mario Bergoglio durante a 33ª Congregação Geral, em 1983. Artur tinha apenas 35 anos: era muito jovem para ser um “padre congregado”. Bergoglio – que na época tinha 47 anos – achava-o jovem e robusto. Por isso deu-lhe um apelido: “potrillo”, ou seja, “potro”. A recomendação que o Papa lhe fez ao receber a notícia da sua eleição como Superior geral foi: ‘Seja corajoso’“.

IACOPO SCARAMUZZI