Frei Betto – 28/09/2016
“Em que baú envergonhado guardamos os autores que ensinam a analisar a realidade pela ótica libertadora dos oprimidos? Onde estão os núcleos de base, as comunidades populares, o senso crítico na arte e na fé?
Por que abandonamos as periferias, tratamos os movimentos sociais como menos importantes e fechamos as escolas e os centros de formação de militantes?
Continuo a fazer coro com o “Fora Temer” e a denunciar, aqui na Europa, onde me encontro a trabalho, a usurpação do vice de Dilma como golpe parlamentar. Porém, as forças políticas progressistas, que deram vitória ao PT em quatro eleições presidenciais, devem fazer autocrítica.
Não resta dúvida, exceto para o segmento míope da oposição, que os 13 anos do governo do PT foram os melhores de nossa história republicana.
- Não para o FMI, que mereceu cartão vermelho;
- não para os grandes corruptores, atingidos pela autonomia do Ministério Público e da Polícia Federal;
- nem para os interesses dos EUA, afetados por uma política externa independente;
- nem para os que defendem o financiamento de campanhas eleitorais por empresas e bancos;
- nem para os invasores de terras indígenas e quilombolas.
Os últimos 13 anos foram melhores
- para 45 milhões de brasileiros que, beneficiados pelos programas sociais, saíram da miséria;
- para quem recebe salário mínimo, anualmente corrigido acima da inflação;
- para os que tiveram acesso à universidade, graças ao sistema de cotas, ao ProUni e ao Fies;
- para o mercado interno, fortalecido pelo combate à inflação;
- para milhões de famílias beneficiadas pelo programas Luz para Todos e Minha Casa, Minha Vida;
- e para todos os pacientes atendidos pelo programa Mais Médicos.
No entanto, nós erramos. O golpe foi possível também devido aos nossos erros.
Em 13 anos,
- não promovemos a alfabetização política da população.
- Não tratamos de organizar as bases populares.
- Não valorizamos os meios de comunicação que apoiavam o governo
- nem tomamos iniciativas eficazes para democratizar a mídia.
- Não adotamos uma política econômica voltada para o mercado interno.
Nos momentos de dificuldades, convocamos os incendiários para apagar o fogo, ou seja, economistas neoliberais que pensam pela cabeça dos rentistas..
Não realizamos nenhuma reforma estrutural, como
- a agrária,
- a tributária
- e a previdenciária.
- Hoje, somos vítimas da omissão quanto à reforma política.

Frei Carlos Susin, Leonardop Boff e esposa, Presidente Dilma. à direita, Frei Betto
Em que baú envergonhado guardamos os autores que ensinam a analisar a realidade pela ótica libertadora dos oprimidos? Onde estão os núcleos de base, as comunidades populares, o senso crítico na arte e na fé?
Por que abandonamos as periferias, tratamos os movimentos sociais como menos importantes e fechamos as escolas e os centros de formação de militantes?
Fomos contaminados pela direita.
- Aceitamos a adulação de seus empresários;
- usufruímos de suas mordomias;
- fizemos do poder um trampolim para a ascensão social.
Trocamos um projeto de Brasil por um projeto de poder.
Ganhar eleições se tornou mais importante que promover mudanças através da mobilização dos movimentos sociais. Iludidos, acatamos uma concepção burguesa de Estado, como se ele não pudesse ser uma ferramenta em mãos das forças populares, e merecesse sempre ser aparelhado pela elite.
Agora chegou a fatura dos erros cometidos. Nas ruas do país, a reação ao golpe não teve força para evitá-lo.
Deixemos, porém, o pessimismo para dias melhores. É hora de fazer autocrítica na prática e organizar a esperança.
Frei Betto
é escritor, autor do romance “Minas do ouro” (Rocco), entre outros livros.
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NOTA DA REDAÇÃO
É importante e é honesto que Frei Betto, uma das melhores cabeças da Igreja do Brasil, (juntamente com Leonardo Boff, Frei Carlos Susin, Agenor Brighenti, Manoel Godoy, etc.), intitule este artigo, pequeno mas brilhante, com o título: NÓS ERRAMOS, se incluindo como parte do processo. Leonardo Boff também replicou este artigo no blog dele.
Na Igreja, eles dois, muitos padres e bispos, e até alguns cardeais, se empolgaram com a fundação do PT em 1980, quase no fim da ditadura. Porque viram nele uma boa proposta política com base popular, a partir do Brasil de baixo.
O PT, em parte, foi um dos frutos ou caminhou paralelo à Teologia da Libertação que, no Brasil, deu origem às Comunidades Eclesiais de Base, as CEBs.
As CEBs eram um novo Projeto de Igreja e de vida cristã, a partir da leitura popular da Bíblia nos Círculos Bíblicos. Em que, no entusiasmo de Renovação instaurado com o Concílio Vaticano II, se tentou ler a realidade brasileira à luz dos Evangelhos. E a gente se perguntava, após a leitura bíblica do dia e a análise da realidade concreta da Comunidade: O que Jesus faria, se estivesse aqui agora?
Era uma nova esperança que surgia, um novo modo de a Igreja e o PT entenderem e quererem reconstruir o Brasil, a partir das bases.
Frei Betto foi um dos religiosos que foi preso e torturado pela ditadura, sobretudo na ajuda na fuga de ativistas contra a ditadura ameaçados de prisão, tortura e morte. E foi um dos primeiros a se engajar na luta pela democratização que, então, passava pelo ainda aguerrido PMDB (hoje totalmente desfigurado e ninho de “coroneis”), pelo PDT e pelo recém fundado PT, com o apoio consistente de muitos intelectuais, da Hierarquia Católica e de algumas outras Igrejas Cristãs.
No primeiro governo Lula, Frei Betto foi convidado a assumir um cargo ligado ao Programa FOME ZERO. Aceitou, mas, por divergências na concepção e na metodologia de sua realização, pediu demissão. Mas sempre continuou a apoiar as causas populares, a assessorar as CEBs e a defender as causas populares em escritos, palestras, viagens por todo o Brasil. Também foi muito importante no diálogo da Igreja com Fidel Castro em Cuba.
João Tavares
