O Maestro: “Tentei muitas vezes parar, agora entendi: só o cinema permite escrever música total”
PIERO NEGRI – 24/09/2016
Foto: Ennio Morricone em uma foto tirada em Londres em fevereiro passado: o Maestro escreveu, escolheu, orquestrou e dirigiu todas as melodias do seu novo álbum -REUTERS
São quase 88anos de idade, 60 de atividade. Os discos vendidos são 70 (milhões), os trabalhos concluídos cerca de 600 (dos quais 500 para o cinema), 2 Oscar, um pelo conjunto da obra em 2007, o outro este ano pelas músicas de ‘The Hateful Eight’ [Os Oito Odiados].
Os números de Ennio Morricone, embora surpreendentes, não podem porém restituir a importância, a influência e a originalidade da sua carreira artística. Nem a sua extraordinária vitalidade: com 87 anos o Maestro assinou um contrato com uma das gravadoras mais importantes do mundo, a Decca, que em 11 de novembro [próximo] – um dia depois de seu 88o aniversário – irá lançar Morricone 60, um álbum de composições de Morricone, escolhidas, revisadas, dirigidas e gravadas por ele.
Eis a Entrevista
Maestro, de quem foi a ideia deste álbum?
“Vou dizer a verdade: foi um pedido da gravadora. Eles pensam que é importante para o mercado e eu não posso senão atendê-los. Nós compositores somos como os advogados, nós não podemos ir à procura de clientes, temos que esperar que eles nos procurem”.
É verdade que é a primeira vez que o senhor dirige, grava, reúne as suas músicas?
“Sim, mas isso precisa ser entendido bem. Tudo que gravo, fui eu que o escrevi e o dirijo. Nunca tive um orquestrador ou um arranjador, não sou um amador, há muitos anos escolhi a profissão liberal, com todas as dificuldades que ela comporta, e nunca reneguei essa escolha. Todos os projetos que levei a cabo, eu os realizei porque queria, mas por muito tempo esta dependência da vontade alheia foi um tormento. Pelo menos até dezesseis anos atrás”.
Que foi que aconteceu 16 anos atrás?
“É difícil dizê-lo. Desde há bastante tempo eu tinha um pensamento muito claro, muito claro. Mas estava preocupado, o fato econômico é importante para todos, mesmo para os compositores. Dezesseis anos atrás tive certezas nesse sentido que antes eu não tinha”.
É verdade que pensou em parar de escrever para o cinema?
“Dá-me uma certa vontade de rir: casei-me em 1956 e não consigo pensar quantas vezes eu disse a minha esposa Maria que a partir daquele momento só iria escrever música absoluta. Eu queria parar com o cinema já nos anos Oitenta antes de ‘The Mission’, depois nos anos Noventa quando não houve alguns reconhecimentos, por último em 2000. Agora aprendi a lição: mesmo depois do Oscar por ‘The Hateful Eight’ não me ouvireis dizer que não vou escrever mais músicas para os filmes”.
Do que o senhor não gosta neste trabalho?
“Não gosto de aceitar os compromissos que o cinema exige. Embora em muitos casos eu deva admitir que o compromisso foi satisfatório”.
No livro que o senhor escreveu com Alessandro De Rosa, “Inseguendo quel suono”…
“Não, não, o livro quem o escreveu foi ele, eu respondi às perguntas”.
Em suma, o senhor conta que, já nos anos Sessenta, quando saiu ‘Por um punhado de dólares’ e o senhor se queixava do trabalho para o cinema, o compositor Franco Evangelisti lhe disse: “Você sabe quantos compositores venderiam a mãe pelo trabalho que você faz?”.
“Eh, pensar nisso me faz rir: era um paradoxo, quem venderia a própria mãe por uma coisa dessas? Mas Evangelisti era um homem do paradoxo, até como compositor. Mas ele tinha entendido já então que escrever para o cinema seria uma coisa cada vez mais importante”.
Agora o senhor pode dizer: qual é o desafio mais interessante para um compositor, quando escreve para o cinema?
“Para mim, o aspeto mais interessante é que é possível trabalhar com todas as formas de expressão, a canção, o rock, a música dramática, a música informal, o folk. A música para filmes contém todas as músicas, como o cinema – que é a arte moderna por excelência – contém em si todas as artes. É isto que o cinema dá à música: torna-a música total”.
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Quando em 1958 o senhor viajou para Darmstadt para assistir ao seminário de John Cage com Evangelisti e outros jovens músicos com quem fundaria o grupo de improvisação ‘Nuova Consonanza’, subiu num rochedo na floresta e começou a dirigir os amigos como uma orquestra. Nunca lhe ocorreu que Paolo Sorrentino se tenha inspirado no senhor para a cena do diretor de orquestra na floresta da Youth?
“Ah ah, mas nós não tínhamos entendido nada de Cage. Ele era um provocador, falava-nos da música para tambor, clarinete e instrumentos que não existiam para nos fazer refletir sobre o que se fazia então, para denunciar o estado das coisas. Mas mais tarde o entendemos: naquele dia, saídos do seminário, fomos para a floresta, eu subi no rochedo e dirigi os outros que faziam sons de peidorretas e flatulências para ridicularizá-lo. Foi num certo sentido a nossa primeira improvisação”.
O senhor acha que tomou a vanguarda na música tonal, que a tornou disponível? Pensa que seja um dos seus méritos?
“Alguém o disse, há algum tempo. Posso dizer que me serviu muito, no início, quando me disseram: Ennio, se continuares assim, não te escutará mais ninguém. Eu disse a mim mesmo: há também um público em que preciso pensar”.
Como foi com Tarantino? Como ele o convenceu?
“Veja, esta é uma profissão tão estranha … Eu não queria fazer aquele filme, mas como muitos sabem ele veio a Roma para me convencer. Como fez isso? Ele lembrou-me que havia usado a minha música para outros filmes e sobretudo deu-me liberdade completa. ‘O que devo escrever?’ – perguntei. ‘O que te der vontade’ – disse ele. ”
E o Oscar chegou …
“E eu não queria ir a Los Angeles, um pouco porque eu não estava bem, um pouco porque o Oscar me tinha dado enormes decepções. As músicas para ‘The Mission’, por exemplo, foram vencidas em 1986 pelo trabalho de uma grande jazzista (Herbie Hancock para ‘Round Midnight’, ndr), que reelaborava composições não originais e portanto não deveria concorrer. Mas Tarantino e os produtores insistiram, fui a Los Angeles e o Oscar chegou “.
E agora?
“Agora vamos ver … Eu não lhe disse que um compositor não pode senão esperar?”.
Piero Negri