Paolo Affatato – ROMA- 25/08/2016 – Traduz Orlando Almeida
Foto: Rodrigo Duterte – REUTERS
O novo presidente das Filipinas dá início às negociações com os rebeldes, mas mantém os bispos à distância. No olho do furacão a campanha de execuções extrajudiciais contra traficantes de drogas.
Sinais de paz com muçulmanos e comunistas. Mas continua a hostilidade com a Igreja católica. O novo presidente das Filipinas Rodrigo Duterte não parece querer mudar, por agora, a desconfiança básica para com a instituição historicamente mais respeitada da nação. Não foi superado o incidente diplomático em que os bispos do país asiático incorreram durante a campanha eleitoral, quando – num excesso de exposição política – desencorajaram abertamente o voto em Duterte, retratando-o como “o diabo” e comparando-o até ao genocida cambojano Pol Pot.
Duterte parece ter amarrado ao dedo [para não esquecer] aquela atitude hostil em relação a ele e continua a manter à distância a hierarquia católica que, por outro lado, recuou para uma abordagem muito mais leve em relação ao poder estabelecido.
Ultimamente os bispos lançaram um apelo contra a pena de morte e contra a campanha de execuções extrajudiciais levadas a cabo pela polícia contra os traficantes de drogas: um fenômeno que os observadores atribuem ao clima de “mão de ferro” contra o crime, endossado por Duterte. Mas, em geral, a Igreja, nos meses imediatamente após as eleições de maio, optou por uma abordagem menos intervencionista, anunciando uma “colaboração vigilante com o governo“.
O fato é que o presidente, em seu primeiro discurso sobre o estado da nação, exposição programática do seu mandato de seis anos apenas iniciado, surpreendeu a todos propondo uma trégua aos rebeldes comunistas, e depois dando início a autênticas conversações de paz, após um impasse que durou mais de cinco anos. Duterte, além disso, não perdeu a ocasião para oferecer um ‘cachimbo da paz’ aos grupos separatistas islâmicos do sul do arquipélago. Recebendo, também neste caso, consensos e total disponibilidade para iniciar uma nova fase de negociações.

Aceno de paz de Duterte com os separatistas islâmicos
O capítulo da relação com os ‘vermelhos’, deixado de lado pela administração anterior de Benigno Aquino Jr., parece ser o mais fácil de concluir. Iniciadas em 22 de agosto em Oslo, as sessões de diálogo entre a delegação do governo das Filipinas e a “Frente Democrática Nacional” já duram uma semana e visam especificamente a pôr fim a cinquenta anos de guerra de baixa intensidade que, em conjunto, fez 150.000 vítimas, entre combatentes e civis.
A Frente representa as organizações políticas (o Partido Comunista das Filipinas) e as militantes (o Exército de Libertação do Povo), expressão da rebelião comunista, que se espalhou país afora desde a independência, após a Segunda Guerra Mundial. Nasceu, de fato, como reação à ocupação colonial japonesa, mas não encontrou satisfação às suas demandas (sociais, mas também ideológicas) nem na fase republicana das Filipinas, nem muito menos na época da ditadura de Ferdinando Marcos.
Hoje existe a vontade de se chegar a um resultado concreto e as conversações começaram sob os melhores auspícios: de um lado a trégua unilateral anunciada pela Duterte foi imediatamente confirmada pelos guerrilheiros; além disso, tendo em vista o início das negociações, dois importantes líderes comunistas, Benito e Wilma Tiamzon, foram soltos e autorizados a participar nas conversações de Oslo, junto com outros líderes comunistas. Sinal político, este, muito claro.

Num quadro encorajador, no dia da abertura, os negociadores anunciaram com otimismo um ‘mapa do caminho’ que levará a um acordo global dentro de um ano. As etapas a cumprir são a confirmação dos acordos assinados nos últimos anos, com o cessar-fogo por tempo indeterminado e a anistia para mais de 500 presos políticos. Da agenda constam em seguida o abandono definitivo da luta armada e a discussão de reformas socioeconômicas.
E ao mesmo tempo que ignora os apelos da ONU sobre as violações dos direitos humanos, diante das estatísticas chocantes de 900 supostos traficantes de drogas mortos em três meses de campanha de justiça sumária (a que se somam mais de 4.000 prisões), Duterte segue resolutamente pelo seu caminho.
Um caminho que também envolve a paz em Mindanao, no sul das Filipinas, área dominada durante décadas pela rebelião islâmica, promovida por grupos como a Frente Moro de Libertação Nacional e a Frente Moro de Libertação Islâmica. A eles o presidente prometeu um acordo dentro de três anos, dizendo estar pronto a negociar um modelo de estado federal.
A estabilidade e reconciliação em Mindanao também contam com o apoio da Igreja: o cardeal Orlando Quevedo, arcebispo de Davao, cidade onde Duterte foi prefeito por 22 anos, convidou-o a considerar a Igreja “como uma força positiva, parceira para o desenvolvimento nacional também no processo paz“. Mas quem sabe se o presidente-xerife vai querer ouvi-lo.
PAOLO AFFATATO