PAULO VI, O “PAPA ESQUECIDO” QUE INSPIRA BERGOGLIO

Paulo VI - 1

Alberto Chiara – 06/08/2016

Tradução: Orlando Almeida

Em 06 de agosto de 1978 morreu Giovanni Battista Montini. Memória do Pontífice, a quem tanto deve a época de reforma que estamos vivendo. Não por acaso foi ele que , encerrando  Vaticano II,  falou de uma Igreja “samaritana”, “serva da humanidade”, mais inclinada a “remédios encorajantes” do que a “diagnósticos deprimentes”, a “mensagens de confiança” do que “a presságios funestos”.

A vizinha Via Ápia estava cheio de pessoas desinformadas, se possível ainda mais sedentas de férias porque naqueles dias sentiam, como nunca, o peso das preocupações.  A tão ansiada recuperação da economia não tinha sido do tamanho esperado (não por acaso tinha sido em pouco tempo classificada como “melhorazinha”; pouca coisa, em suma).

Quanto ao mais, desânimo e medo predominavam:

  • o terrorismo das Brigadas Vermelhas;
  • o sequestro e o assassinato de Aldo Moro;
  • uma devastadora crise político- institucional fruto do escândalo Lockheed, que culminou com a renúncia do então Presidente da República, Giovanni Leone (15 de Junho), ao qual sucedeu, em 9 de Julho, Sandro Pertini.

O dia 06 de agosto de 1978 era um domingo. Em Castel Gandolfo, a residência de verão dos papas, o relógio marcava 21:40 horas. Giovanni Battista Montini, Paulo VI, o 262o sucessor de Pedro, morreu como tinha desejado: longe dos holofotes e das vigílias do povo que tinham acompanhado a agonia de Angelo Roncalli, João XXIII, e anos mais tarde as últimas horas de Karol Wojtyla, João Paulo II.

Paulo Vi - 2

 

 “Ele tinha pedido a Deus que lhe concedesse um adeus solitário”, anotou há tempos ‘Avvenire’, o diário católico italiano: “Foi atendido”. Não só. Paulo VI morreu num dia especial, carregado de significado simbólico, o dia da Transfiguração: uma festa que ele amava a ponto de tê-la escolhido, em 1964, para publicar a sua primeira encíclica, a “Ecclesiam Suam”.

Estranho destino, o de Paulo VI. Foi primeiro criticado, depois contestado, por fim simplesmente esquecido, posto de lado sem a menor cerimônia, tachado com qualificativos particularmente mordazes: “o Papa da dúvida”, “Hamlet”, “Paulo Triste”.

Revendo hoje a sua figura com o rigor dos historiadores, Paulo VI revela-se totalmente diferente.

  • Foi o primeiro Papa do século XX a atravessar os confins da Itália.
  • Depois de 2000 anos, fez com que Pedro voltasse à Terra Santa.
  • Viajou para a África, para a América, para a Oceania e Austrália, para a Ásia, até quase às portas da China.
  • Foi o primeiro Pontífice a fazer um discurso nas Nações Unidas em Nova Iorque (falou na segunda-feira, dia 4 de outubro de 1965, com aquele “Nunca mais a guerra”, que muitos recordam em francês, a língua com a qual ele lançou o apelo angustiado: “Jamais plus les uns contre les autres, jamais, plus jamais”).
  • Giovanni Battista Montini foi até o primeiro Papa vítima de um atentado, mostrado ao vivo pela TV.

Aconteceu nas Filipinas, em Manila, em novembro de 1970: Paulo VI escapou de uma facada do artista boliviano Benjamin Mendoza, que assim mesmo o feriu, somente graças à agilidade do seu secretário, Don Pasquale Macchi, que empurrou para o lado o agressor.

Paulo VI

  • “levou para o mundo” a Igreja que saiu do Concílio.
  • Dialogou com a modernidade sem fugir dela e sem a condenar a priori.
  • Enfrentou com as armas nuas do Evangelho a Guerra do Vietnã.

Hoje não é a festa litúrgica de Paulo VI. Essa é celebrada em 26 de setembro, o dia em que nasceu. No entanto é oportuno lembrar hoje quem foi e o que fez Giovanni Battista Montini, porque agora estamos vivendo um tempo eclesial que deve muito ao Papa que veio de Brescia.  Incluindo a ênfase na misericórdia, que dá cor ao Ano Santo que está em pleno andamento.

Sim, porque entre os inspiradores de Jorge Mario Bergoglio está certamente este seu predecessor. O Papa Francisco não faz segredo disso. Mais do que palavras, porém, como sempre, contam os fatos.

E então

  • a Igreja em saída,
  • a Igreja sinodal, ou seja, aquela do caminhar juntos,
  • a Igreja que perscruta os sinais dos tempos,
  • sem falso otimismo mas sem fechar-se,
  • mais companheira de viagem do que fria preceptora,
  • esta Igreja que hoje respiramos todos os dias, tem em si muito de Paulo VI.

Não por acaso foi ele que, no discurso com que encerrou o Concílio Vaticano II, em 07 de dezembro de 1965, falou de uma Igreja “samaritana”, “serva da humanidade”, mais inclinada a “remédios encorajantes” do que ” diagnósticos deprimentes”, a “mensagens de confiança” do que a “presságios funestos”.

Uma gratidão pensada, foi a que  Bergoglio expressou em voz alta em 19 de outubro de 2014, ao proclamar Montini bem-aventurado.

“A respeito deste grande Papa,” – disse Francisco – “deste corajoso cristão, deste apóstolo incansável, não podemos, diante de Deus, dizer senão uma palavra tão simples como sincera e importante: muito obrigado!  Obrigado, nosso querido e amado Papa Paulo VI! Obrigado pelo teu humilde e profético testemunho de amor a Cristo e à sua Igreja!

  Nas suas anotações pessoais, o grande timoneiro do Concílio, após o encerramento da assembleia conciliar, escreveu: ‘Talvez o Senhor me tenha chamado e me mantenha neste serviço não tanto porque eu tenha alguma aptidão para isso, ou para que eu governe e salve a Igreja das suas dificuldades presentes, mas para que eu sofra alguma coisa pela Igreja, e fique claro que é Ele, e não outros, que a guia e a salva’ “.

“Neste humildade brilha a grandeza do Bem-aventurado Papa Paulo VI” – continuou Bergoglio – e são reflexões que não deixam de ser atuais: enquanto se delineava uma sociedade secular e hostil, soube conduzir com perspicaz sabedoria – e, por vezes na solidão – o leme da barca de Pedro, sem nunca perder a alegria e a confiança no Senhor.

Paulo VI soube dar realmente a Deus o que é de Deus, dedicando inteiramente a própria vida ao compromisso sagrado, solene e gravíssimo: o de continuar no tempo e dilatar sobre a terra a missão de Cristo, amando a Igreja e guiando a Igreja, para que fosse ‘ao mesmo tempo mãe amorosa de todos os homens e dispenseira de salvação’ “.

 

Alberto Chiara

 http://www.famigliacristiana.it/articolo/paolo-vi-il-papa-dimenticato-che-ispira-bergoglio

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *