
Peierluigi Mele – 02 de agosto de 2016
Estes dias Massimo Franco, jornalista político e especialista em coisas do Vaticano do Corriere della Sera, relata em artigo intitulado “Os tradicionalistas contra Francisco”, o apelo, publicado no blog ultraconservador “Corrispondenza romana”, de 45 teólogos e historiadores em que se pede ao Colégio dos cardeais para intervir junto ao Papa para que sejam repudiados “os erros presentes no documento de maneira definitiva e final, e declarar com autoridade que não é necessário que os crentes acreditem no que é afirmado pela ‘Amoris laetitia’. É o último de uma série de episódios da guerra dos tradicionalistas contra Francisco.
Falamos sobre isto com Andrea Grillo, professor de Teologia Sacramental e Filosofia da religião no Pontifício Ateneu “Sant’Anselmo” de Roma.
A Entrevista
Professor, a impressão que se tem é que a dissidência está se espalhando. É assim? Ou é apenas um exagero da mídia …?
Acho que é uma boa prática, mesmo para os jornalistas famosos, verificar as fontes em que baseiam os seus artigos. O documento mencionado na peça citada é um texto escrito na linguagem de 150 anos atrás, e assinado por alguns desconhecidos. Os únicos signatários conhecidos pertencem a setores isoladas, marginais e autorreferenciais da Igreja Católica. Fazer passar isso por oposição a Francisco é uma operação midiática sem qualquer fundamento. Faz rir. Para além dos jornalistas, eu diria àqueles que têm problemas, que apresentem algum argumento fundamentado, algum raciocínio convincente. Até agora apresentaram apenas propaganda velha e presunçoso desespero.
Que influência têm entre o Povo de Deus estas posições?
Estas posições recebem atenção – e são até estimuladas – apenas em alguns ambientes da Cúria – romanos ou periféricos – que nada têm a ver com o povo de Deus. São jogos de poder de quem vê questionado o seu próprio papel clerical, que antes escapava a qualquer controle e que agora não goza mais de liberdade. O Papa Francisco, como é inevitável, é atacado por aqueles que têm medo da Reforma da Igreja e de perder poder. O povo de Deus não tem nada a ver com isso e portanto e com razão não está interessado nisso.
O que assusta os tradicionalistas na abordagem de Francisco? A leitura complexa da modernidade?
O Papa Francisco sai explicitamente daquele antimodernismo que caracterizou muitíssima cultura católica antes e depois do Concílio Vaticano II. Muitas vezes nós confundíamos o Catolicismo com o antimodernismo.
Ser católicos era ser
- “contra os trens”,
- contra a luz elétrica”,
- “contra o cinema”,
- contra o votos das mulheres”,
- “contra os anticoncepcionais” …
De forma muito simples, mas com extrema coerência, Francisco recusa a leitura unilateral e hostil da modernidade. Este seu traço é insuportável para os tradicionalistas, mas também é difícil de entender para aqueles que, sem ser tradicionalistas, aceitaram passivamente uma leitura “acomodada” da relação entre a Igreja e o mundo. No fundo, inquieta aqueles que se refugiaram numa consoladora ‘autorrefencialidade’, satisfeitos em ficar sem saídas e de nunca precisar de “sair”.
Uma das críticas que a frente conservadora dirige ao Papa é a de prestar mais atenção à “realidade” que à “verdade”. Francamente, acho isto um insulto a Francisco. Esta acusação tem fundamento?
Este me parece ser um dos pontos que Francisco levou a uma virada decisiva. A primazia do tempo sobre o espaço e da realidade sobre a ideia – afirmada com grande força em todos os grandes textos do magistério de Francisco, EG, LS e AL – constitui uma “tradução da tradição”, que repõe em relação verdade e realidade.
A acusação contra Francisco tem a presunção de que a relação com a verdade possa prescindir da realidade. Com esta abordagem – que depende do antimodernismo do final do século XIX e início do século XX – a Igreja perdeu a ligação com a realidade e fechou-se numa autorreferencialidade perigosa e estéril.
Uma outra “operação” feita pela frente tradicionalista é a de contrapor Wojtyla e Ratzinger a Bergoglio. O senhor não vê uma continuidade?
Todas estas posições ressentidas – que são de tradicionalistas radicais, mas também de alguns bispos e cardeais – procuram enfatizar as “contradições” entre Francisco e seus dois predecessores. Agora aqui é preciso que se entenda bem.
- Não há nenhuma ruptura.
- Mas não há também uma simples continuidade. A tradição continua a traduzir-se de uma maneira nova.
Este é também o sentido mais autêntico das palavras de Bento XVI, quando em 2005 falou da “hermenêutica da reforma” como remédio às duas hermenêuticas erradas do Concílio, ou seja, a da pura continuidade e da pura ruptura.
Francisco não rompe, mas reforma. Mas está ciente da urgência da reforma, ao passo que aqueles que se opõem a ele, com o pretexto de uma presumida ruptura, só têm medo do novo, que na Igreja sempre aconteceu como uma bênção nas épocas de crise.
O comportamento do Papa Emérito em relação ao Papa reinante é exemplar. Ratzinger tem mostrado até mesmo uma grande afeição para com Bergoglio. No entanto, continua esta instrumentalização contra Francisco. Por quê?
Não há dúvida de que a relação pessoal entre o papa reinante e o papa emérito é boa e cordial. Mas o ponto não é esse. Entre o magistério de Bento e o de Francisco, existem algumas diferenças significativas, especialmente em relação ao Concílio Vaticano II.
Francisco está plenamente convicto da reforma preconizada pelo Concílio Vaticano II, enquanto Bento foi hesitante, incerto, às vezes até assustado e puramente defensivo. Em três anos Francisco reencontrou a confiança num magistério que assume novas responsabilidades, enquanto o magistério de Bento – e o do Papa João Paulo II dos últimos anos – era paralisado pela tradição e puramente negativo. Ao assumir esta grande iniciativa Francisco teve de descartar, não sem dificuldade, as diferentes escolhas dos seus antecessores.
Uma outra fonte de crítica, vinda da facção tradicionalista que encontra apoio na direita, é o juízo sobre o Islão. Em suma, para eles, Bergoglio é muito ‘buonista’*. Uma outra infâmia contra Francisco. Qual é o seu pensamento a respeito?
Aqui também precisamos levar em consideração apenas as coisas sérias. Nesta matéria, as opiniões respeitáveis não são muitas mas as intrigas são muitíssimas. A posição em relação ao Islão tem sua origem em uma abordagem conciliar das “outras religiões” que com Francisco encontrou profunda retomada. Nenhuma concessão às generalizações propagandísticas e consideração da complexidade de cada tradição.
Na entrevista no retorno da JMJ, Francisco lembrou que o fenômeno do “fundamentalismo” não identifica nenhuma tradição religiosa. “Mesmo entre nós”, lembrou, temos muitos. É preciso acrescentar que sobre o tema das relações com o Islão, devemos antes de tudo ter clara a qualidade e a profundidade da nossa tradição.
Afirmar, como o fez um conhecido jornalista, que os muçulmanos não podem participar da missa “porque não acreditam na presença real” parece-me a demonstração de uma abordagem teológica e eclesial bastante preocupante. E com base nesta ignorância evidente estas pessoas pensam até que podem dar conselhos ao papa …
Também a respeito da pastoral da “misericórdia” se disparam críticas. Estamos diante de duas visões opostas da Igreja. Como conseguem coexistir?
Como escreveu Stella Morra, num belo livro chamado “Deus não se cansa”, o tema da “misericórdia/perdão” é central no magistério de Francisco, não como um “conteúdo”, mas como uma forma de entender a Igreja e a relação com Deus. É o “estilo da misericórdia” que tira da Igreja a sua autorreferencialidade, que a força a “sair à rua”, a não “ficar na janela”, a construir “hospitais de campanha” e “campos de refugiados”.
Esta linguagem irrita todos os monsenhorzinhos que têm
- limusines,
- abotoaduras nos pulsos,
- criadas pra serví-los,
- casas cheias de quartos …
É um modelo de Igreja e de Evangelho que deve ser recolocado em campo e em jogo, depois de décadas de habituação com o exercício do poder formal e do reconhecimento puramente autoritário.
No plano litúrgico também, os tradicionalistas parecem sofrer com Francisco. E ‘assim?
Por um lado, não parece que Francisco esteja tão interessado na liturgia como o era Bento … mas por outro, as modificações introduzidas no “lava-pés” e o recente pedido para “evitar o uso da expressão” ‘reforma da reforma’”, indicam claramente uma orientação para a plena valorização da “participação ativa” como lógica “popular” da liturgia e da oração cristã.
Também aqui os que queriam que fosse tutelado o seu direito de “ficar atrás” vão se sentir, como dizer, desconfortáveis. Quando os pés das mulheres e a reforma litúrgica voltam ao centro, muitas preocupações curiais e fixações sobre rubricas encontram-se de repente na extrema periferia!
Última pergunta: O que parece, na verdade, ser o objetivo final dos conservadores é o retardamento da criatividade do Concílio Vaticano II. É esta realmente a aposta em jogo?
Na verdade, é muito útil não “personalizar” demais a questão. Com Francisco nós encontramos, 50 anos depois do Concílio, o primeiro papa “filho do Concílio” – ou seja que “nasceu para a vida ministerial na Igreja não pré-, mas pós-conciliar – que propõe o Concílio não principalmente de forma teórica, mas com a sua maneira de pensar a realidade, de comunicar, de estabelecer relações, de rezar ou de brincar. Tudo isso é “concílio tornado vivo e eficaz”.
Quem pensava que, com João Paulo II e depois com Bento XVI, tínhamos “posto sob tutela” o impulso conciliar, agora está surpreso, amargurado, às vezes com raiva. Mas Francisco avança sereno. Como ele disse muitas vezes, dorme bem à noite. Seria bom que também os seus interlocutores mais inflamados pusessem o coração em paz e conseguissem conciliar o sono à noite.

Pierluigi Mele
* “Buonismo” – Não há um equivalente exato para este termo, em língua portuguesa. É um termo italiano relativamente recente, cunhado presumivelmente há cerca de 20 anos atrás. O termo buonismo (derivado do adjetivo buono, que quer dizer «bom») tem um sentido pouco preciso, indicando uma atitude paternalista ou condescendente ou magnânima ou indulgente. Mas também tem sido usado em sentido pejorativo, como sinônimo de atitude permissiva, relaxada, descomprometida, facilitadora, populista, interesseira… (fonte: web) – NdT