O dever moral de ser ateu

2 Já não se respeita sequer uma igreja. E ontem foi a degola, em França, de um padre católico, considerado corajoso e bom pela população. Só posso mostrar, com o Papa Francisco, neste e em todos os casos de terror, a minha “dor e horror” perante “esta violência absurda”, que nada justifica.

O terror, atingindo indiscriminadamente inocentes, homens, mulheres, crianças, crentes de várias religiões, ateus, tem de ser condenado de forma radical, sem hesitação. Porque é simplesmente terrível, a barbárie bruta, a inumanidade pura e simples.

3 Nada legitima este terror bárbaro. Mas deve haver a tentativa de explicar e entender. J. Philipp Reemtsma distinguiu três formas de violência:

  • a exercida para conquistar um território,
  • tirar algo a alguém,
  • e a que tem o seu fim em si mesma: o prazer da violência.

Neste sentido, teme-se que não seja completamente erradicável, já que pertenceria à constituição do ser humano.

Daí, a urgência da educação para os grandes valores humanistas,

  • para a paz,
  • para a convivência na comunicação humana,
  • e a atenção que é necessário prestar às causas que podem agudizar a violência: marginalização, não integração, falta de comunidade e de sentido, desorientação, injustiça.

Certamente, o niilismo de valores reinante e o aliciamento das redes sociais para ideais de vinculação, com a participação na restauração do califado universal, por exemplo, ajudam nesta explicação.

4 E as religiões e a violência?

É preciso entender que as religiões não são o Sagrado, o Mistério, Deus, de quem se espera sentido último e salvação. Elas são construções humanas, mediações, e, por isso, têm de tudo: do melhor e do pior.

Há quem pense que, acabando com a religião, se encontraria finalmente a paz. Não é verdade.

De facto, se a religião foi e é invocada para legitimar a violência, ela foi e é também força de combate a favor dos direitos e da paz: lembre-se, por exemplo, Martin Luther King ou a teologia da libertação.

5 Mas muito vai ser preciso fazer. Impõe-se o diálogo inter-religioso. Lúcido, fundamentado e crítico. Nenhuma religião pode pensar ter a verdade toda e absoluta. O fundamentalismo é uma questão de ignorância ou, perdoe-se-me a palavra, estupidez. De facto, como pode o ser humano possuir o Fundamento, a Ultimidade?

Daí, a urgência de uma leitura histórico-crítica dos textos sagrados, que não são de modo nenhum ditados de Deus. E impõe-se a laicidade do Estado, sem cair no laicismo – a França, ao contrário da Alemanha, por exemplo, cometeu este erro do laicismo, ao pretender retirar a religião do espaço público.

6 Antes de sermos crentes ou não, o que nos une a todos é a humanidade comum, de tal modo que, face a um deus que legitimasse a violência, o ódio, matar em seu nome, haveria, para sermos humanamente dignos, um dever moral: ser ateu.

 

Anselmo Borges x

Anselmo Borges

* Sacerdote português. Cronista do DN/Portugal. Escritor, conferencista, filósofo, téologo, professor de Ética na Universidade de Coimbra

Fonte: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/o-dever-moral-de-ser-ateu-5307397.html

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *