Andrea Tornielli – 31/07/2016
A entrevista com Francisco no vôo de volta da Polônia. A repressão na Turquia? “Estou estudando a situação, é preciso prudência. Mas não ao preço da verdade”
A queda em Czestochowa? “Eu estava olhando para a Nossa Senhora e esqueci o degrau!”
Foto: Francisco entrevistado por jornalistas no voo de regresso de Cracóvia – ANSA
“Não é justo dizer que o Islã é terrorista, não gosto de falar de violência islâmica”. O Papa Francisco dialoga com os jornalistas no avião que o traz de volta a Roma e responde assim a uma pergunta sobre o assassinato do padre Jacques Hamel, o idoso padre francês degolado enquanto celebrava a missa.
Os católicos estão em estado de choque após o bárbaro assassinato do padre Hamel. O senhor disse-nos que todas as religiões querem a paz, mas ele foi morto em nome do Islão. Porque, quando fala de terrorismo, o senhor nunca pronuncia a palavra Islão?
“Não gosto de falar de violência islâmica, porque todos os dias quando folheio os jornais vejo violências aqui na Itália: há quem mata a namorada ou a sogra, e estes são violentos católicos batizados. Se falasse de violência islâmica deveria também falar de violência católica? Os islâmicos não são todos violentos. É como uma salada de frutas, há violentos nas religiões.
Uma coisa é verdade: em quase todas as religiões há sempre um pequeno grupo fundamentalista. Nós também os temos. E quando o fundamentalismo chega a matar – pode-se matar com a língua, quem diz é o apóstolo Tiago não eu, e pode-se matar com uma faca – não é justo identificar o Islão com a violência. Tive um longo diálogo com o grande imã de Al Azhar: eles procuram a paz e o encontro.
O núncio de um país africano dizia-me que na capital do seu país, há sempre uma fila de pessoas a passar pela porta santa e alguns se dirigem aos confessionários. Mas a maioria segue adiante para rezar no altar de Nossa Senhora, e há muçulmanos que querem fazer o Jubileu. Quando estive na República Centro-Africana fui visitá-los, o imã subiu no papamóvel. Pode-se conviver bem. Há pequenos grupos fundamentalistas.
Eu me pergunto, quantos jovens, que nós europeus deixámos vazios de ideais, vão para a droga, para o álcool ou vão para lá e se alistam. Sim, podemos dizer que o chamado Isis é um estado islâmico que se apresenta como violento, porque como carteira de identidade nos mostra como degolavam os egípcios. Mas este é um grupo pequeno, não se pode dizer, não é verdadeiro e não é justo dizer que o Islã é terrorista”.
Além das orações e do diálogo, que iniciativa concreta se pode adotar para combater a violência islâmica?
“O terrorismo está por toda a parte, pense no terrorismo tribal de alguns países africanos. O terrorismo cresce quando não há outra opção. Agora vou dizer uma coisa que pode ser perigosa … Mas quando se coloca no centro da economia mundial o deus dinheiro e não o homem e a mulher, isto já é um primeiro terrorismo. Expulsaste a maravilha da criação e puseste o dinheiro no centro. Este é um primeiro terrorismo de base … pensemos nisso”.
Santidade, a repressão na Turquia após o golpe é talvez pior que o golpe: militares, juízes, diplomatas, jornalistas. Mais de 13 mil presos, mais de 50 mil pessoas demitidas. Um expurgo. Anteontem, o Presidente Erdogan disse a quem o criticava: cuidem dos seus negócios! Queremos perguntar ao senhor: por que até agora não falou sobre isso? Teme repercussões sobre a minoria católica?
“Quando tive de dizer algo que não agradava à Turquia, mas de que eu tinha certeza, eu o disse, com as consequências que vocês conhecem – respondeu o papa com uma referência clara às suas palavras sobre o genocídio arménio – Mas eu tinha certeza. Não falei até agora, porque ainda não tenho certeza, com as informações recebidas, sobre o que está acontecendo lá.
Ouço as informações que chegam à Secretaria de Estado, e as de alguns analistas políticos importantes. Estou estudando a situação com a Secretaria de Estado, e a coisa ainda não está clara. É verdade, deve-se sempre evitar o mal aos católicos. Mas não ao preço da verdade. Há a virtude da prudência, mas no meu caso vocês são testemunhas de que, quando tive de dizer alguma coisa que atingia a Turquia, eu a disse”.
Como está depois da queda que assistimos em Czestochowa?
“Eu estava olhando para Nossa Senhora e esqueci o degrau! Estava com o turíbulo na mão e quando senti que ia cair, deixei-me ir e isso me salvou. Se tivesse resistido, eu teria tido consequências. Em vez disso, foi tudo bem”.
No seu primeiro discurso no Castelo de Wawel, logo após a sua chegada à Polônia, o senhor disse que começa a conhecer a Europa centro-oriental, a partir deste país. Como ele lhe pareceu?
“Foi uma Polônia especial, porque estava mais uma vez invadida, mas pelos jovens! Cracóvia, vi-a tão bonita, o povo polonês tão entusiasmado. Esta noite, com toda essa chuva, havia muitas pessoas na rua, não só jovens, mas também velhinhas. Eu tinha um conhecimento dos poloneses de quando era criança, porque onde meu pai trabalhava chegaram poloneses. Eram bons e reencontrei essa bondade”.
Os nossos filhos jovens ficaram comovidos pelas suas palavras que correspondem bem à linguagem juvenil deles. Como o senhor se preparou com exemplos tão próximos à vida deles?
“Eu gosto de falar com os jovens e gosto de ouvir os jovens. Eles sempre me colocam em apuros porque me dizem coisas que eu não tinha pensado ou que pensei pela metade. Jovens inquietos, criativos … e é deles que pego esta linguagem. Muitas vezes tenho de perguntar o que significam algumas expressões. O nosso futuro são eles, e devemos fazer o diálogo entre passado e futuro.
Por isso eu enfatizo tanto a importância do diálogo entre os jovens e os avôs, porque nós também podemos dar a nossa experiência: que eles sintam o passado, a história, que a retomem e a levem adiante com a coragem do presente. É importante. Não gosto quando ouço dizer: estes jovens dizem coisas estúpidas! Nós também dizemos muitas. Eles dizem coisas estúpidas e dizem coisas boas, como nós, como todos. Nós devemos aprender com eles e eles conosco. E assim se cresce sem fechamentos e sem censuras”.
Há uma pergunta que muitos fazem nestes dias: a polícia australiana investiga novas acusações contra o cardeal George Pell. Desta vez trata-se de alegações de abusos contra menores. Na sua opinião, qual é a coisa certa a fazer por parte do cardeal?
“As primeiras notícias que chegaram eram confusas. Eram notícias de 40 anos atrás e nem mesmo a polícia lhes tinha dado atenção num primeiro momento. Depois todas as denúncias foram apresentadas e neste momento estão nas mãos da justiça. Não se deve julgar antes que a justiça o faça. Se eu desse uma opinião a favor ou contra, não seria bom porque eu prejulgaria.
É verdade, há dúvida. E há aquele princípio claro da lei: ‘in dubio pro reo’. Temos que esperar o curso da justiça e não fazer antes um julgamento midiático, um julgamento de fofocas. É preciso ficar atentos ao que decidirá a justiça. Depois que a justiça tiver falado, falarei eu”.
Na semana passada falou-se sobre a participação do Vaticano entre os negociadores para a crise na Venezuela. É uma possibilidade real?
“Dois anos atrás tive um encontro positivo com o presidente Maduro. Depois ele pediu uma audiência no ano passado, mas cancelou-a porque tinha otite. Deixei passar um tempo e então escrevi-lhe uma carta. Houve contatos para uma eventual encontro. Sim, com as condições que se fazem nestes casos: neste momento pensa-se – mas não tenho certeza – na possibilidade de que no grupo da mediação, haja também um representante da Santa Sé”.
Antes de iniciar a conferência de imprensa, Francisco recordou a correspondente da Rai que faleceu em Cracóvia: “Queria dar a vocês, porque sois colegas de trabalho, as condolências pela morte de Anna Maria Jacobini. Hoje recebi a irmã e os sobrinhos. É uma coisa triste nesta viagem”.
Em seguida, o Papa festejou o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, padre Federico Lombardi, no seu último dia no cargo, juntamente com Mauro, um encarregado das bagagens dos voos papais, ele também encerrando a sua experiência de trabalho.
“Gostaria de agradecer ao padre Lombardi e a Mauro, porque esta será a última viagem que fazem conosco. Padre Lombardi na Rádio Vaticano há mais de 25 anos, e dez anos nos voos papais. E Mauro, 37 anos como encarregado das bagagens. Agradeço muito a eles”.
Terminada a conferência de imprensa, como introdução à JMJ de 2019 no Panamá, o jornalista Javier Martinez Brocal de Rome Reports presenteou Francisco com um chapéu Panamá, que ele pôs na cabeça.
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