”Nem tudo no Concílio é atual”

Antes de discutirmos sobre as hermenêuticas mais verdadeiras do Vaticano II, seria bom relê-lo tendo nas mãos um jornal qualquer de hoje. Perceberemos a distância.

Eis o texto.

Diante da reflexão destes dias sobre os 50 anos do Concílio, pessoalmente tenho uma esperança: de que não se parta ainda das discussões sobre qual hermenêutica do texto deve ser privilegiada. Ao contrário, seria preciso começar nos perguntando se ele ainda é ou não um texto para este nosso tempo ou se ele já não pertence a uma outra época, passada. O que eu temo é verdade. Dois exemplos.

Primeiro. Toda a Gaudium et Spes fala a um mundo que não existe mais. Tente ler os parágrafos 4 a 9, que descrevem a passagem para uma sociedade industrial, em que a inspiração-guia é identificada no desenvolvimento da liberdade humana. Hoje, ao invés, a pós-industrialização extrema coloca no centro a própria sobrevivência e a identidade do ser humano, tanto que somos tentados a fugir da liberdade a fim de sobreviver.

Ou, ainda na Gaudium et Spes, leia os parágrafos 12 a 22, que – depois terem partido dos princípios imutáveis da antropologia cristã, absolutamente compartilháveis – descrevem o ser humano contemporâneo principalmente na direção da sua inteligência e da sua liberdade, que levam consequentemente a reconhecer como o grande mal é o ateísmo.

Hoje, ao invés, o cerne do problema antropológico está na dimensão da experiência emocional e sensorial, elevado a ídolo ao qual tudo deve se curvar, mesmo ao custo de renunciar, aqui também, à própria liberdade. E onde a inteligência não é mais vivida como instrumento fundador do sentido da vida, mas só para tornar possíveis as experiências emocionais e sensoriais individuais.

Segundo. O conceito de leigo e de laicato está apoiado totalmente na distinção entre ordem temporal e ordem espiritual. Tente ler Apostolicam Actuositatem nos parágrafos 5 a 14, onde fica claro que o sentido do ser do leigo se concentra substancialmente na animação cristã da ordem temporal. Enquanto hoje, justamente a partir dessa distinção levada ao excesso que se tornou uma separação, não somos mais capazes de torna eficaz a espiritualidade e de vivificar a temporalidade. E, consequentemente, nos interrogamos desesperadamente sobre como fazer tornar a fé temporalmente viva e o mundo espiritualmente cristão.

Antes, portanto, de nos confrontarmos e brigarmos sobre as hermenêuticas mais verdadeiras do Concílio, seria bom voltar a relê-lo tendo nas mãos um jornal qualquer de hoje. Perceberíamos a distância.

A opinião é do teólogo, filósofo e pedagogo italiano Gilberto Borghi, em artigo publicado no sítio Vino Nuovo, 13-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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