Critérios cristãos para um voto limpo

As eleições municipais estão aí. Com elas, a oportunidade para o exercício da cidadania. A história mostra que os homens sempre tiveram dificuldades em relação aos detentores do poder. Quem está no poder não quer sair. Muitos que estão fora querem entrar. As democracias modernas criaram o voto como forma de todos poderem dar sua contribuição para a constituição das instâncias que irão governar o povo. A Doutrina Social da Igreja Católica apresenta critérios muito claros como orientações para a decisão na hora do voto. Eis alguns:

1.A pessoa vem antes do Estado e da sociedade. O Estado e a sociedade são constituídos em função da pessoa, e não o contrário. Têm o papel de promover o bem das pessoas na medida em que elas possuem uma dignidade a ser preservada e promovida. Essa dignidade provém do fato de cada um ser obra do Criador. Cada indivíduo é único, inconfundível e possuidor de direitos intransferíveis. Cabe ao gestor público empregar todas suas energias no respeito e promoção da vida, no serviço desinteressado à coletividade, na aplicação dos recursos públicos para o bem de todos. Candidato ou partido que fez ou prega o contrário não merece o voto.

2. A família é a célula geradora e formadora da sociedade. É lá que o indivíduo nasce, cresce, vive, incorpora princípios de conduta, assimila valores, se solidariza, aprende a servir, a amar, a cooperar, a perdoar, a ser cúmplice e solidário nos pequenos gestos de construção do bem e da comunhão entre as pessoas. Essa foi a proposta do Mestre aos seus e isso é do interesse de toda a sociedade. Candidato ou partido que fez ou prega o contrário não merece o voto.

3. A liberdade de educação. É afirmação da liberdade que os pais possuem de educarem seus filhos na visão que, a seu juízo, mais desenvolve a pessoa humana. Respalda-se no direito de ver seus filhos crescerem dentro da visão de vida e de mundo fundada na riqueza de princípios e valores culturais e de perspectivas de desenvolvimento que façam deles homens de bem, individualmente conscientes e socialmente responsáveis e que promova o verdadeiro pluralismo democrático.Trata-se da defesa da liberdade para todos. Candidato ou partido que já tenha feito ou proponha o contrário, não merece o voto.

4. A liberdade religiosa. A liberdade religiosa é expressão do reconhecimento de todas as outras liberdades. O Estado laico torna-se verdadeiramente democrático quando respeita todas as identidades religiosas. Quando essa liberdade é reconhecida, a pessoa é respeitada como prioridade. É um critério que garante à pessoa a possibilidade de seguir o caminho que considera mais oportuno para realizar seu destino. Grandes pensadores já discutem formas de preencher o vazio de ideais e valores que toma conta de adolescentes e jovens ante a falta de uma discussão em torno do sentido transcendente da existência. A ausência de grandes ideais e valores os deixa vulneráveis a propostas portadoras de destruição e de morte. Candidato ou partido que já usou a boa fé das pessoas para conseguir mandato político não merece o voto.

5. A solidariedade e a subsidiariedade. São critérios que fomentam a cultura da cooperação, na qual as pessoas, as famílias, as associações, o mercado e o Estado ficam atentos às demandas sociais que induzam ao desenvolvimento justo e equilibrado de toda a sociedade. Traduzem-se em criação de oportunidades de trabalho, emprego e renda. Propostas assistencialistas, sem prazo de validade, embrutecem a consciência e tornam os menos favorecidos subservientes aos governantes. As propostas devem induzir os indivíduos a conquistar sua própria autonomia. O poder público não pode substituir os indivíduos nas suas competências. Candidato que já fez ou propõe isso não merece o voto.

O Brasil que o cristão deseja é feito de cidadãos conscientes que buscam a justiça, a paz e a fraternidade. A eleição é um grande momento de promover a vida. De forma alguma, o cristão pode banalizar o voto. Há quem decide seu voto assim: ‘Voto em qualquer um, pois todos são iguais; voto só para cumprir o dever imposto pela lei; voto em candidato por questão de amizade; não voto em ninguém, pois todos são ladrões; não voto por cansaço e desesperança nas boas intenções de quem se envolve com política’. São muitas as justificativas. Votar ou deixar de fazê-lo tem consequências. Muitas frustrações coletivas poderiam ser evitadas se o cristão emitisse um voto limpo, sabendo exatamente o que faz. Por isso é importante acompanhar e conhecer a vida e as propostas do candidato em quem vota.

Antônio Frederico Zancanaro
Autor de: A Corrupção Político-Administrativa no Brasil

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