8. “A divinização do Papa”.
- “Vice-Deus da humanidade”,
- “o Verbo encarnado que se prolonga”.
- Num livro de meditações atribuído a São João Bosco, lê-se: “O Papa é Deus na Terra. Jesus colocou o Papa no mesmo nível de Deus.”
Chama-se a isto culto da personalidade e idolatria. Leia-se o “incrível” texto chamado Dictatus Papae, do Papa Gregório VII, século XI:
“A Igreja romana foi fundada só por Jesus Cristo. Por isso, só o Romano Pontífice é digno de ser chamado universal. Só ele é digno de usar insígnias imperiais; ele é o único homem cujos pés todos os príncipes beijam. Não existe texto jurídico algum fora da sua autoridade; a sua sentença não pode ser reformada por ninguém e ele pode reformar as de todos. Ele não pode ser julgado por ninguém. A Igreja romana nunca se equivocou e nunca poderá equivocar-se. O Romano Pontífice canonicamente ordenado é sem dúvida santo pelos méritos de São Pedro.”
Na famosa bula Unam sanctam, o Papa Bonifácio VIII define que “submeter-se ao Romano Pontífice é necessário para a salvação de todos os homens”.
O Papa Gregório XVI opôs-se à tradição que fala de uma “Igreja com necessidade constante de reforma”, acusando-a de “absurda e injuriosa”, porque não se pode “nem sequer pensar que a Igreja esteja sujeita a defeito ou ignorância ou a quaisquer outras imperfeições”.
A Igreja acabou por ser confundida com o Papa, como consta no programa do grupo La Sapinière, que o Papa São Pio X apoiou tacitamente:“Pode-se dizer que o Papa e a Igreja são uma só coisa.”
E, embora a palavra hierarquia (poder sagrado) nunca apareça no Novo Testamento, e, na linguagem eclesiástica, só no século V, de facto o cristianismo foi sendo reduzido a um eclesiocentrismo e este a um hierarcocentrismo:
“A Igreja reduzida ao poder sagrado e o resto dos fiéis é apenas objecto deste poder, cuja única missão é “aceitar ser governado e obedecer” (e pagar), como disse o Papa Pio X. E, por fim, este hierarcocentrismo é reduzido à figura do Papa, separado do colégio episcopal pela forma como a cúria romana costuma governar.”
E aí está como o Papa, cuja missão é de unidade, foi fonte de ruptura: lembrar o cisma do Oriente (1054) e a Reforma protestante (1517), e como se percebe o fascínio do Papa Francisco, porque é um papa cristão.
9. “Clericalismo”.
Tudo se concentra nesta pergunta: Deus pode ser concebido como Poder, quando Jesus o revelou como “Amor que capacita para amar”?
No Novo Testamento, “a comunidade toda de crentes é “clerical”, porque foi chamada a compartilhar a herança (klêros) dos santos na luz”, como se lê na Carta aos Colossenses.
“Não existem, portanto, clero e laicado, mas uma comunidade, um povo afortunado que, como qualquer grupo humano, precisará de diversos serviços”: ensino, direcção, coordenação.
E “os responsáveis das Igrejas são chamados presbíteros, supervisores, servidores, “os que trabalham por vós”…, mas nunca sacerdotes.”
Só mais tarde os ministérios eclesiais se revestiram de dignidade mundana, passando-se então do “povo afortunado” para “os afortunados do povo”. E aí está o clericalismo para dentro e para fora da Igreja.
10. “Esquecimento do Espírito Santo”.
A raiz de todas estas heresias: o esquecimento do Espírito do Deus de Jesus, Espírito criador, que une na diferença e renova todas as coisas.