
Henri Tincq France – MondeCulture
Foto: Elie Wiesel dirigindo-se, em janeiro de 2005, à Assembleia Geral das Nações Unidas. AFP
Os caminhos dos dois homens, ambos já falecidos, nunca deixaram de cruzar-se. Em 1987, o grande escritor torna público o mal-estar que sente diante da conversão, durante a guerra, de seu amigo católico e sua pretensão de querer combinar a identidade judaica e cristã.
Elie Wiesel morreu em Nova York, no sábado, 2 de julho, com a idade de 87 anos. Este escritor judeu que sobreviveu aos campos da morte tinha recebido o prémio Nobel da Paz em 1986 por seu empenho na defesa dos direitos humanos. Ele tinha perdido quase toda a sua família nos campos da morte nazistas e tinha narrado esta tragédia principalmente no livro ‘A Noite’. Elie Wiesel viveu na França por muitos anos antes de escolher viver do outro lado do Atlântico. Ele deixa uma obra que compreende mais de 50 livros escritos em francês e em inglês.
Elie Wiesel e Jean-Marie Lustiger, ou a história de uma tocante e exigente amizade. A de dois intelectuais, duas figuras poderosas do judaísmo e do cristianismo, nascidos o primeiro em 1928, o segundo em 1926, ambos originários do Leste europeu, de famílias romena e polonesa, dessa terra do judaísmo asquenaze fiel à sua tradição mais antiga, falando habitualmente o iídiche e evocando a recordação dos pogroms.
Ambos também vítimas da ‘shoah’[Holocausto]:
- Elie Wiesel, deportado aos 15 anos para Auschwitz-Birkenau, perdeu neste campo a sua mãe e a sua jovem irmã, antes de ser transferido para Buchenwald, onde o seu pai morreu diante de seus olhos.
- Jean-Marie Lustiger, escapou da deportação, mas perdeu a mãe Gisele, comerciante parisiense denunciada e transferida para Drancy, assassinada em Auschwitz em fevereiro de 1943.
Em Paris e em Nova York, os caminhos desses dois órfãos da shoah – que se tornaram,
- o primeiro, um grande escritor israelense e Prêmio Nobel da Paz (1986),
- e, o outro, arcebispo de Paris, Cardeal da Igreja Católica, amigo pessoal do Papa polonês João Paulo II – não cessaram de se cruzar, nem os dois homens de se frequentar e se estimar, mesmo quando os seus itinerários no judaísmo divergiram profundamente.
“Conversão-traição”
Elie Wiesel manteve-se fiel, e de forma intransigente, à sua fé e à sua cultura judaica. Jean-Marie Lustiger converteu-se ao cristianismo com a idade de 14 anos, em plena guerra, em Orleans, onde seus pais o haviam abrigado. Batizado durante a ocupação, tornou-se sacerdote depois da guerra e fez uma grande carreira eclesiástica na França, no Vaticano e em todos os continentes.
Mas, malgrado a atitude da comunidade judaica que o detestava, antes de adotá-lo, o cardeal nunca negou suas origens judaicas e este percurso fora do comum entre as duas religiões foi o tema de suas infinitas conversas com Elie Wiesel. Até sua morte em agosto de 2007, o Cardeal Lustiger não cessou de reivindicar para si a dupla herança judaica e cristã.
Filho da Antiga e da Nova Aliança, do Velho e do Novo Testamento, ele não via nenhuma descontinuidade entre seu judaísmo e seu cristianismo. Ele dizia que os cristãos também são os destinatários da “promessa” feita por Deus ao povo escolhido de Israel, por pouco que eles reconheçam a particularidade da eleição divina, a interioridade e a plenitude do “fato” judeu.
A relação entre os dois homens apresenta uma inflexão profunda após a publicação, em 1987, do maior livro de Jean-Marie Lustiger intitulado ‘Le choix de Dieu’ [A escolha de Deus], no qual ele traça o percurso intelectual e espiritual da sua vida. Uma noite de novembro de 1987, Elie Wiesel, então recém-agraciado com o Prémio Nobel, telefona ao jornal Le Monde.
Ele pergunta ao jornalista autor destas linhas se a edição da noite concordaria em publicar o longo artigo que ele havia preparado em resposta a este livro, ou seja, em tornar públicos ao mesmo tempo a amizade deles e o se grave desentendimento sobre a compreensão do judaísmo e sobre a “conversão-traição” do cardeal francês ao cristianismo.
O que ele tem a dizer ao seu amigo é tão agudo e tão delicado que ele toma o cuidado de enviar, por fax para o arcebispado de Paris, o seu artigo, antes que ela seja divulgado na imprensa, pelo Le Monde, que o publicará em 4 de dezembro de 1987. Ele presta homenagem à dimensão extraordinária de Jean-Marie Lustiger, julga seu livro “admirável pela sinceridade, provocante, fascinante”. Mas ele externa também, pela primeira vez, a sua verdadeira amargura.

Cardeal Jean- Marie Lustiger
O que aproxima mais do que o que separa
Ele não contesta o amor do seu amigo convertido pelo povo judeu, a fidelidade à sua memória judaica, a sua luta de todos os instantes contra o anti-semitismo, mas ele exprime a sua total incompreensão e até mesmo seu escândalo ante a sua pretensão de querer acumular uma identidade judaica e uma identidade cristã. Isto é insuportável.
Ele escreve:
“Sem querer magoá-lo, como não lembrara ele que se trata de duas religiões ligadas entre si e até mesmo próximas uma da outra, mas não idênticas? Inúmeros judeus o demonstraram, através de séculos de perseguição e de opressão, optando pela morte pela espada e pelo gládio, antes que abraçar a cruz”.
Elie Wiesel exprime a sua dor pelo afastamento de Jean-Marie Lustiger da sua autêntica tradição judaica. Ele deplora que em vez de ir “procurar noutro lugar”, o futuro cardeal não tenha aprofundado a sua busca espiritual “dentro da sua própria condição”.
Por fim, ele acrescenta esta pergunta na qual afloram humor e tristeza:
“O povo judeu não perdeu em Jean-Marie Lustiger, um homem que, em outras circunstâncias, teria certamente contribuído para a sua grandeza e para o engrandecimento da sua glória?”.
Em outras palavras, ao invés de um cardeal da Igreja, Jean-Marie Lustiger poderia ter sido um ótimo e grande rabino!
Mas para Elie Wiesel, Deus está no que une e não no que separa os homens. E seja qual for a sua amizade com o Arcebispo de Paris, o respeito pelas escolhas que ele fez e a admiração sem limites que tem por ele, o escritor que acaba de morrer conclui seu famoso artigo no Le Monde com este inesquecível ato de fé: “Eu continuo a crer que, para um judeu, a salvação só é possível dentro do seu judaísmo”.
Jean-Marie Lustiger acolherá sempre este admirável ponto de vista na paz e na emoção.

Henri Tincq France
Fonte: http://www.slate.fr/story/120533/elie-wiesel-jean-marie-lustiger-amitie-dechirement