
MAURIZIO MOLINARI
Foto: O líder separatista britânico Nigel Farage
AFP 25/06/2016 – Tradução: Orlando Almeida
A saída da Grã-Bretanha da UE ameaça fazer renascer a Europa dos egoísmos nacionais, que os pais fundadores deixaram para trás em 1957, com a assinatura dos Tratados de Roma para dar vida à que foi a “casa comum” das últimas quatro gerações de cidadãos.
O líder separatista britânico Nigel Farage vê a vitória no referendo como o primeiro passo para ” o adeus ao hino, à bandeira e às instituições europeias” graças ao “retorno dos Estados nacionais”, porque se trata de uma perspectiva que de repente parece realista graças ao dominó desencadeado pelo Brexit :
- a Escócia e a Irlanda do Norte falam de um referendo próprio para separar-se da Grã-Bretanha,
- os partidos de Geert Wilders e de Marine Le Pen pretendem empurrar a Holanda e a França para fora da UE,
- na Polônia e na Hungria os líderes nacionais distanciam-se de Bruxelas,
- na Grécia crescem o sentimento anti-alemão assim como o anti-helênico na Alemanha,
- na Itália os partidários da ‘Lega Norte’ querem recolher assinaturas contra a Europa e os de ‘5 Stelle’ sobre o euro,
- e nos Balcãs a volta das fronteiras para impedir a entrada de migrantes transformaram em papel sem valor os acordos de Schengen sobre a livre circulação de pessoas, ao ponto de retornarem as barreiras e os postos de controle até no Passo do Brennero ou seja em uma das fronteiras herdadas da Primeira Guerra Mundial.
Se no século XXI a Europa se torna o palco da volta dos nacionalismos herdeiros das devastações causadas nos séculos XIX e XX é porque os líderes que a estão conduzindo não conseguem dar respostas concretas às três maiores causas de descontentamento que encontram guarida em setores sempre mais amplos população.
- Em primeiro lugar, o empobrecimento da classe média que nos últimos quinze anos tem visto o seu poder de compra drasticamente reduzido mesmo onde o PIB cresceu, enriquecendo grupos sociais cada vez mais restritos. A ausência de uma receita econômica capaz de estender às classes médias os benefícios da globalização é evidente, assim como a falta de uma discussão estratégica europeia sobre como fazê-la.
- Igualmente visíveis são as carências de políticas comuns para gerenciar o fluxo de migrantes que chegam da Ásia e da África,
- bem como para defender a segurança coletiva do perigo do terrorismo jihadista proveniente do Oriente Médio e do Maghreb.
Assediadas pelo medo ficar cada vez mais pobres e inseguras, parcelas crescentes de cidadãos europeus votam, sempre que podem, em qualquer partido que apresente mensagens negativas, destinadas a derrubar o que existe sem se preocuparem muito com o que vai acontecer depois.
É a incapacidade da Europa de responder a este desafio, de fazer avançar a integração superando as suas divisões e de indicar como meta uma nova etapa no percurso federalista que desencadeou a marcha-à-ré coletiva com um vórtice de erros, litígios e egoísmos que levou a maioria dos cidadãos da Grã-Bretanha – a quinta potência econômica do planeta – a virar as costas ao Canal da Mancha.
Com o resultado de
- tornar o Atlântico mais amplo, afastando a Europa dos Estados Unidos,
- e de desequilibrar o eixo do Continente deslocando-o em direção à região centro-oriental onde a rivalidade com a Rússia é mais exacerbada.
Sem Londres, a Europa tornou-se mais distante das luzes de Nova York e mais sensível aos movimentos de Moscou.
É uma mudança estratégica destinada a ter consequências. A Europa dos egoísmos nacionais que Farage exalta, muitos outros almejam e poucos parecem dispostos a impedir, ameaça levar a União Europeia a um processo de decomposição destinado a multiplicar as incógnitas mais escuras.
Até que um ou mais líderes europeus encontrem a coragem para não ter medo das próximas eleições para enfrentar juntos, com determinação, os problemas concretos a serem resolvidos.
MAURIZIO MOLINARI