Anselmo Borges – 25/06/2016
É neste sentido que o jesuíta J.I. González Faus, (foto abaixo) um dos teólogos vivos mais sólidos e cristãos, escreveu um livro intenso com o título em epígrafe, para desmontar as dez heresias que inconscientemente foram tomando conta da teologia e da vida, arruinando a identidade cristã. Será o nosso guia também nas duas próximas semanas.
1. Primeira heresia: “Negação da verdadeira humanidade de Jesus.”
Como reconhecer em Jesus “uma psicologia humana como a nossa: sujeita ao erro e à ignorância ou à fraqueza, à angústia, ao medo ou à sensação de fracasso”? O problema está em que já se tem uma ideia prévia de Deus e estas características parecem incompatíveis com a dignidade divina.
Mas qual é a consequência?
Ao exigir que, em Jesus, Deus corresponda à imagem que temos dele, acabamos por impedir que Jesus revele efectivamente Deus. São Paulo, esse, percebeu, ao escrever que o Deus que anunciamos é “loucura para os sábios e escândalo para as pessoas religiosas”.

Afinal, a noção de dignidade divina deve ser concebida em consonância com a ideia humana ou a partir do exemplo de Jesus?
“Eu, Senhor e Mestre, dei-vos o exemplo, lavando-vos os pés.”.
Jesus, de condição divina, escreve São Paulo, “apresentou-se como um entre outros”, “sendo rico, fez-se pobre por nós, a fim de enriquecer-nos com a sua pobreza”, mostrando que a verdade de Deus é o seu amor na autenticidade e fidelidade.
2. Vinculada à primeira, a segunda heresia: “Negação da eminente dignidade dos pobres na Igreja.”.
De facto, a negação da verdadeira humanidade e humilhação do Messias leva a não preocupar-se
- com os humilhados,
- os pobres,
- atribulados,
- famintos,
- refugiados ou presos,
embora seja com eles que Jesus em primeiro lugar se identificou. O Papa Francisco tem razão, voltando a uma Igreja pobre para os pobres.
O que lemos no capítulo 25 do Evangelho segundo São Mateus, referente ao Juízo Final? Todos são julgados pela maneira como reagiram diante do Deus presente
- no necessitado,
- no faminto,
- no nu,
embora o não soubessem:
“O que fizestes a um destes mais pequeninos foi a mim que o fizestes.”
Este passo do Evangelho é abissal, pois nele não temos um ensinamento em primeiro lugar ético mas teológico, um ensinamento sobre Deus, como ele se comporta e é:
não é possível falar sobre Deus sem a sua relação com os seres humanos, a começar pelos mais desamparados.
“É falso todo o Deus cuja glória não seja a vida do homem.”
Também está na Primeira Carta de São João: “Se alguém possui bens deste mundo e, vendo o seu irmão passar necessidade, não o socorre, não pode estar nele o amor de Deus.”
3. Terceira heresia: “Falsificação da cruz de Cristo.”

“O que foi que condenou Jesus a uma morte tão atroz? Foi Pilatos? Foram os escribas e fariseus? Não, meus irmãos, não. Foi a Justiça divina que nunca quis dizer “basta” até que o viu expirar sob este suplício. O Salvador bondoso agonizava suspenso no ar por três cravos, derramava lágrimas de sangue, sangrava por todos os lados. Mas a Justiça divina, inexorável, dizia: “Ainda não.”
A sua doce mãe chorava ao pé da cruz, soluçavam as piedosas mulheres, gemiam todos os anjos e espíritos bem-aventurados diante de tão cruel espectáculo. Mas a Justiça, sem se deixar comover, repetia: “Ainda não.”
E não disse “já basta” enquanto o não viu exalar o último suspiro. O que dizeis então, meus irmãos? “Se a Justiça divina tratou tão severamente o Unigénito do Pai só porque havia tomado sobre si os nossos pecados, como nos tratará a nós que somos os verdadeiros pecadores?”
Muitos terão ouvido sermões semelhantes a este, de São Leonardo de Porto Maurício (imagem acima, à direita). Jesus tinha de morrer para pagar uma dívida infinita contraída com Deus pela humanidade e assim reconciliá-lo.
Foi esta concepção que levou muitos ao abandono da fé. Aí está um Deus bárbaro, inexorável, que se não deixa comover, e uma teologia da satisfação expiatória que santifica a justiça próxima da vingança. O contrário do Deus que Jesus revelou como Abbá e Misericórdia, na parábola do filho pródigo.
“O dolorismo heterodoxo que a Cruz produziu no nosso catolicismo vem, em boa parte, daqui: estamos a um passo de uma redenção “sadomasoquista”, com a perversão de uma grande verdade: “Tudo o que vale custa” transformou-se num falso princípio: “Tudo o que custa vale.” “A Cruz transformou-se assim em factor de resignação, quando na realidade é o resultado de Jesus não se ter resignado perante a injustiça estabelecida.
“A morte de Jesus é “uma consequência da sua vida e não uma exigência metafísica da justiça de Deus”.
Não morreu vítima de um Deus irado, que precisa de ser aplacado, mas vítima da maldade do mundo; morreu para ser consequente com a sua mensagem, dando testemunho até à morte do Deus que é Amor.
Anselmo Borges