Jesus promete aos Apóstolos que eles falariam novas línguas e isto aconteceu no Pentecostes, quando peregrinos de várias nações entenderam cada qual em sua língua a pregação dos Doze (At 2,11).
A humanidade reencontrava a sua unidade perdida em Babel (Gn 11,9). No livro dos Atos dos Apóstolos, por duas vezes a vinda do Espírito Santo é associada ao dom das línguas, também chamado de “glossolalia” (10,46 e 19,6). Mas as línguas se tornaram um problema sério para São Paulo na igreja de Corinto. Por que? Era uma cidade cosmopolita de 500 mil habitantes, com dois portos, por onde entravam e saíam pessoas de todo o mundo mediterrâneo. Dominada pelas religiões pagãs, nela se veneravam sobre tudo Afrodite (Vênus), e os deuses egípcios Ísis e Osíris. Muitos desses cultos incluíam falas misteriosas, pronunciadas em estado extático, sons incompreensíveis, que podiam ser tanto do bem como do mal. A situação se agravou quando isto foi introduzido nas assembléias dos cristãos. Eis que diz a Bíblia de Aparecida, na pg.1885: “Paulo determina regras rigorosas sobre este carisma, que ele coloca em último lugar em sua lista (1 Cor 12,28). E diz que prefere a palavra compreensível, capaz de instruir, ao entusiasmo incomunicável (1 Cor 14,19)”. Explicado esse texto, diz a mesma BA: “Esse carisma não se destina ás assembléias. Não deveria efetivar-se em público. Paulo considera opressão impor a glossolalia á comunidade”.
Pode ser que o dom ainda exista hoje, mas cresce entre nós uma onda que parece forçar a vivência dele, como se possuí-lo ou não possuí-lo determinasse quem é cristão perfeito e quem não é. Chega-se ao absurdo de querer ensinar os outros a falar em línguas! Ora, um dom não se ensina: não se pode ensinar a ter visões, a fazer curas etc… Mas os entendidos insistem: “Comece dizendo laira, laira laira, depois você chegará a dizer frases como: Kandala batiriushiba neganda karuncunda yuri balaia shuman necateri candoridiu labatu turibariu kundeb barichá you baturi chamini katori nicoticade kandari.” Depois disso confessam candidamente que nem eles sabem o que acabam de dizer… Tais pessoas, além de abusar de nossa inteligência, mostram que ignoram o capítulo 14 da Primeira carta de Paulo aos Coríntios. Pois lá está no vers. 9: “Se pela língua não proferis uma palavra clara, como se pode entender o que estais dizendo? Estaríeis de fato falando ao vento”. Ora, Deus não nos dá carismas inúteis, mas o verdadeiro carisma é para o bem da comunidade.
Há quem defenda as línguas dizendo que é uma oração secreta que o demônio não entende… Quem garante isso? Aliás, pouco importa se ele entende ou não o que rezamos. Se é uma oração, ao menos quem ora deveria entendê-la, para que não seja como a voz de um papagaio.
Outros dizem que é a língua dos anjos. Isto não existe. Os anjos não emitem sons, pois não tem têm cordas vogais, são espíritos; nem precisam de nosso tipo de linguagem, eles se comunicam pelo pensamento.
Se você quer orar com palavras inspiradas pelo próprio Deus, abra a sua Bíblia e reze os salmos. Não existe palavra superior à Bíblia, por isso podemos dizer com certeza que nenhuma oração em línguas será mais elevada do que a Palavra de Deus que está nas Escrituras. Agora, se você quer orar em línguas, exatamente como Jesus ensinou a orar, com os mesmo sons por ele pronunciados, reze o “Pai Nosso“ em aramaico:
Avunan d’bishmaya yeticadash sh’mach, tite malcutach, yehie sevionach heicama d’bishmaya af bar’a.Hab lan lachma d’sunchanan yaomana, u’ashvuk lan hoveinan heicama d’af enan shbaknan lichayoveinan,ulat’ilan linissiuna ela patsian mim bishta. Amiyn.
Você já reparou que não existe nenhum documento da Igreja, nem de papas nem de bispos, incentivando ou elogiando o “falar em línguas”? Conforme os Evangelhos, o próprio Jesus nunca falou nem orou em línguas. Temos, sim, uma orientação dos nossos Bispos sobre o “orar e falar em línguas”, mas é uma restrição. É o Documento 53 da CNBB sobre a RCC, que diz no nº. 63: “O apóstolo Paulo ensina: Numa assembléia prefiro dizer cinco palavras com a minha inteligência para instruir também aos outros, a dizer dez mil palavras em línguas (1Cor 14,19). Como é difícil discernir, na prática, entre inspiração do Espírito Santo e os apelos do animador do grupo reunido, não se incentive a chamada oração em línguas e nunca se fale em línguas sem que haja intérprete”. (1Cor 14,27-28). Bastante claro, não é? Mas onde está este intérprete que nunca aparece?
Pe. José Raimundo Vidigal, C.Ss.R.