Sabemos que nos livros de história usados nas escolas se encontram palavras como ‘índio’, ‘descobrimento’, ‘capitanias hereditárias’, ‘invasões holandesas (ou francesas)’, etc. etc. Onde fica o historiador cearense Capistrano de Abreu, que no século XIX já escreveu que era urgente substituir esse vocabulário por um conhecimento mais preciso e aprofundado do país? Aparentemente não se lê Capistrano no ministério da educação, pois na atual greve dos professores, os interlocutores do governo só falam em questões de salários. Ora, o ministério da educação é o local onde se repensa o Brasil, a começar pela eliminação de termos como os acima citados. Pelo menos, tem de ser assim. Eis um ponto em que a educação parece que não avançou desde os tempos de Capistrano, pois até hoje a escola ensina às crianças a repetir palavras como índio, descobrimento, invasão, capitania etc., além de estereótipos como malandragem, sincretismo, carnaval e futebol.
O sincretismo, eis a questão de ‘ser ou não ser’ do Brasil. O tema foi, pela primeira vez, abordado nos anos 1930 por ‘explicadores do Brasil’ da época, como Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda. Decerto, esses autores fizeram um trabalho pioneiro, mas desde então tanto o Brasil mudou muito. O cenário mundial também mudou, particularmente, em três pontos que gostaria de comentar brevemente aqui:
1. A integração latino-americana, praticamente inexistente nos anos 1930, hoje é um imperativo. É preciso ultrapassar o nacionalismo presente nas análises tradicionais (como também nas olimpíadas de Londres). A recente entrada da Venezuela no Mercosul traz ao Brasil o tema da ideia bolivariana, que nos remete à nossa responsabilidade na construção de uma região latino-americana independente do modo de pensar nos Estados Unidos e na Europa. Marcelo Barros escreve com razão sobre a ‘espiritualidade bolivariana’, um tema que merece nossa atenção. O universalismo latino-americano pode ser um estímulo para outras regiões do mundo se emancipar da visão típica do Atlântico Norte (Europa e Estados Unidos).
2. O tema do sincretismo e da miscigenação, tão importante nas sínteses dos anos 1930, ganha hoje um novo significado. Hoje sabemos que toda a história humana, de uma ou de outra forma, ao final das contas, é ‘sincrética’. Não existe história humana sem sincretismo e isso tem de ser dito com clareza por países como o Brasil. Está na hora de superar a vergonha que ainda reina em torno da chamada ‘mistura de raças’ e o Brasil pode ser pioneiro nessa superação, pois constitui um exemplo positivo de convivência pacífica entre culturas e raças muito diversas e mesmo conflitantes: as antigas culturas do continente (subjugadas), as culturas dos colonizadores e as culturas dos povos transportados da África para servir aqui como escravos. Hoje, os países do chamado ‘primeiro mundo’ mostram-se mal preparados a enfrentar a convivência multinacional, multirracial e multicultural que o momento histórico exige. Acabamos de ver, pela TV, que atletas negros ganham medalhas de ouro sob o rótulo dos Estados Unidos, da Inglaterra e/ou da França. Esse tipo de disfarce é típico dos tempos que vivenciamos, um disfarce incômodo e, afinal, humilhante para o esportista negro. O atleta negro só é valorizado quando se percebe claramente sua identidade, como aconteceu na cerimônia de entrega das medalhas aos vencedores da maratona, todos africanos.
3. A percepção da universalidade da miscigenação se aplica à religião. Quando Roger Bastide e Pierre Verger ‘descobriram’ o candomblé da Bahia, interpretaram-no como algo especificamente brasileiro. Mas não é bem assim. O encontro entre Jesus (o líder galileu) e Oxalá (o líder de um antigo reino africano) é significativo para o que se passa hoje um pouco no mundo inteiro, não é uma particularidade do ‘terceiro mundo’. Sempre mais, Jesus se alinha com outros personagens de outras culturas. Os tempos que vivemos nos convidam a ver as coisas da religião de forma mais pragmática e menos dogmática. Nisso também o Brasil é um país que abre perspectivas e é saudável que isso apareça no cenário mundial.
Afinal, o Brasil tem muito a ‘mostrar’ ao mundo por ocasião dos jogos olímpicos no Rio, daqui a quatro anos. Espero que, nesse ínterim, se discuta acerca de uma interpretação do Brasil que não venha a confirmar preconceitos e estereótipos do passado. Pois jogos olímpicos são mais que competições esportivas. Constituem uma vitrine do mundo e uma oportunidade de se mostrar de que forma desejamos viver neste mundo.
Eduardo Hoornaert* – Adital – 16.08.12 – Brasil
Fonte: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?boletim=1&lang=PT&cod=69701
*Padre casado, belga, com mais de 5O anos de Brasil, historiador e teólogo, mais de 20 livros publicados. Mora em Salvador. Dedica-se agora ao estudo das origens do cristianismo. Co-autor de “Esta terra tinha dono”
