Massimo Faggioli – 06/05/2016

No ano do Jubileu extraordinário da misericórdia, os políticos que vêm a Roma para ver o Papa Francisco (clique e veja) procuram uma indulgência diferente daquela que enfureceu Martinho Lutero quinhentos anos atrás: é uma indulgência para obterem o perdão pela fraqueza da política e, em alguns casos, a tentativa de uma transfusão de autoridade por parte daquele que a tem mais do que todos no cenário mundial de hoje.
O Vaticano de Francisco continua a ver a procissão de líderes políticos europeus e mundiais, ou aspirantes a líderes como Bernie Sanders (os italianos compreenderam que devem ficar afastados). É um sinal claro da autoridade moral do papa jesuíta argentino no vácuo político que caracteriza o mundo ocidental atualmente. Hoje foi a vez da chanceler Merkel e dos líderes institucionais da União Europeia: Schulz, Juncker, Tusk, Draghi.
Na Sala Régia do Vaticano uma verdadeira parterre de rois [plateia de reis], inclusive o rei da Espanha, prestou homenagem ao papa que recebia um prêmio com claro significado político.
O encontro tinha como motivo o prestigioso Prémio Carlos Magno (Karlspreis), edição 2016. Francisco é o primeiro líder do “global south” do mundo a receber o prêmio, e apenas o quarto não-europeu, junto com um trio que tem pouco em comum com o radicalismo político do Papa jesuíta:
- George C. Marshall (1959, idealizador do plano homônimo para salvar a Europa de fome depois de 1945),
- o secretário de Estado do presidente Nixon, Henry Kissinger (1987),
- e o presidente americano Bill Clinton (2000).
O prémio atribuído ao Papa Francisco vem depois de vários meses de alta política ecumênica internacional do pontificado:
- a viagem à África Central,
- as relações com o patriarca ortodoxo de Moscou (o primeiro encontro da história, em Cuba, em fevereiro)
- e com o Patriarca de Constantinopla, Bartolomeu (a visita aos refugiados em Lesbos no mês passado),
- e apenas alguns meses antes da viagem de Francisco à Suécia para o 500º aniversário da Reforma protestante (em outubro próximo).
É parte da política e da espiritualidade das viagens de Francisco, particularmente às “periferias da Europa” – Lampedusa, Sarajevo, Albânia – marcadas pela violência da história recente.
Em seu discurso pelo Karlspreis 2016, o papa Francisco citou o seu discurso ao Parlamento Europeu em novembro de 2014 em que ele falou de uma Europa que já não é fértil, incapaz de gerar processos de inclusão e transformação, de uma Europa que se está entrincheirando.
No discurso de hoje Francisco
- ampliou e aprofundou a sua visão do continente europeu.
- Falou sobre a tentação dos egoísmos e de construir espaços particulares.
- Citou Elie Wiesel e a necessidade de uma “transfusão de memória”.
- Citou os pais fundadores da Europa e a necessidade de uma “solidariedade de fato” e a ligação entre solidariedade e paz.
- Incitou os europeus a reiniciar um trabalho construtivo pelo futuro do continente.
O centro da discussão foi sobre como atualizar a ideia da Europa, com um novo humanismo baseado em três capacidades:
- capacidade de integrar (com a citação do teólogo alemão-polonês Erich Przywara, um dos mais importantes na visão de Francisco);
- capacidade de dialogar;
- capacidade de gerar.
Francisco defendeu o papel especial do continente europeu, mas dizendo não às colonizações ideológicas: uma Europa
- modelo de novas sínteses e de diálogo,
- modelo político e social inclusivo de todos os atores.
Francisco fez um apelo
- a uma “distribuição justa dos bens da terra”,
- a “novos modelos econômicos mais inclusivos e equitativos”,
- à transição “de uma economia líquida para uma economia social” em que a prioridade seja o acesso ao trabalho e não uma economia especulativa.
- Uma Europa solidária, aberta aos jovens, aos migrantes, aos refugiados.
Francisco falou de uma “Europa cansada, mas ainda com muitas energias”. O fundamento teológico do discurso é claro: “Deus quer habitar entre os homens” e pode fazê-lo num mundo tornado fecundo pelas suas testemunhas.
A conclusão do discurso foi o equivalente para o papa do discurso de Martin Luther King Jr., “I have a dream“:
- o sonho de Francisco por “um novo humanismo europeu”,
- em que a igreja desempenha o seu papel como comunidade evangelizadora
- mas também promotora do diálogo entre cristãos e entre pessoas de diferentes fés.
Estamos muito longe da visão “Cristandade, isto é, Europa” de Marcello Pera e dos ‘cristianistas’ à Giuliano Ferrara do já distante início do século XXI. Na sua crise mais grave dos últimos sessenta anos, a Europa unida parece quase confiar de novo no Sacro Romano Império de Carlos Magno e do Papa de Roma.
São
- os tempos longos da história,
- face aos tempos curtos dos ciclos eleitorais
- e dos tempos brevíssimos do ciclo das notícias.
Poderia pensar-se num retorno da hegemonia geopolítica alemã no Vaticano, mesmo depois da renúncia do Papa Bento XVI. Mas é uma história mais longa. O projeto europeu nasce depois da Segunda Guerra Mundial por iniciativa de líderes europeus católicos que pensam e falam em alemão – Adenauer, De Gasperi, Schuman: tanto que o projeto europeu foi visto com desconfiança por muitos protestantes que julgavam a nova comunidade dos Estados europeus
- como o filho ilegítimo de um casamento de interesse,
- tornado necessário pelo anticomunismo,
- entre o Vaticano de Pio XII e os Estados Unidos que conduziam a guerra fria.
Em tempos recentes foi um “católico adulto”, como Romano Prodi (entre muitos outros) que pensou e quis firmemente o alargamento [da UE] para vinte e sete [Estados], há pouco mais de uma década (mas parece ter passado muito mais tempo).
Poderia até se dizer que a União Europeia redescobre hoje a lição de João Paulo II sobre as “raízes cristãs” do continente, e isso é em parte verdadeiro.
Mas certamente é de uma maneira nova que Francisco encarna essas raízes.
A diversidade ideológica dos dirigentes europeus que ouviram Francisco no Vaticano hoje (entre eles, Matteo Renzi, numa de suas pouquíssimas vezes no Vaticano) atesta
- o profundo caldeamento das identidades políticas,
- mas também o reconhecimento de um profundo substrato de valores comuns do continente.
Na Europa incapaz de gerir a crise humanitária, no ressurgir dos nacionalismos, a centralidade do Vaticano continua a desempenhar um papel no cenário mundial.
Este Karlspreis 2016 atribuído ao Papa Francisco lembra o Prêmio Balzan para a Paz atribuído ao Papa João XXIII em 1963. Mas é um mundo diferente e uma igreja diferente daquela dos anos sessenta.
A centralidade do Vaticano continua
- mesmo após o desaparecimento dos papas europeus (por enquanto, pelo menos),
- e mesmo depois do desaparecimento do catolicismo político europeu (com a notável exceção alemã).
É uma centralidade geopolítica, espiritual e simbólica que nenhum outro centro religioso tem hoje – nem mesmo Jerusalém. A secularização, no sentido de perda da fé, não é menos grave para a política do que para a igreja. A Europa não é só um espaço e um mercado comum, mas acima de tudo um artigo de fé.
A assembleia de políticos reunidos hoje no Vaticano na frente de Francisco parecia-se muito com uma confissão de fé e também com uma confissão de pecados.
Massimo Faggioli
Professor de História do Cristianismo, Universidade de St Thomas
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