Jesus e Cristo

Jesus (em hebraico Yešu`a) é nome teofórico de pessoa. Quer dizer: na sua composição entra um elemento proveniente do nome de Deus (neste caso, Yahweh, que foi como o Senhor do Universo Se nomeou a Moisés naquela célebre teofania do Monte Horeb (Ex.3,14) e um elemento do substantivo “ajuda” ou “salvação” que, em hebraico, é išu`ah. Foi, com efeito, este o significado de Jesus supostamente manifestado em sonhos a José: Ela (Maria) dará à luz um filho ao qual darás o nome de Jesus, porque Ele salvará o povo dos seus pecados” (Mt.1,21). Jesus quer, pois dizer: “O Senhor (Yahweh) salva”, ou, “o Senhor ajuda”. É, portanto, nome de pessoa.

Foram quase uma dúzia as pessoas que na Bíblia se chamaram Jesus, desde um levita (2Cor.31,15), no reinado de Ezequias (716-687 a. C.), e um repatriado da Babilônia (Esd.2,5), no tempo de Ciro (531-529 a. C.), rei persa, até um descendente de David (Lc.3,29) e um colaborador do apóstolo Paulo (Cl.4,11). Nome exclusivamente de pessoa, o que não acontece com Cristo que, no Antigo Testamento, nunca aparece como tal. E, no Novo Testamento, vamos já ver como e por que se usa Cristo como, supostamente, o nome pessoal do Senhor Jesus.

Cristo deriva do adjetivo grego Christós/ê/ón que, por sua vez, vem do verbo chriô cujo significado é “ungir”. Cristo, em grego, é pois, aquele que foi ungido, que recebeu a unção própria dos reis e dos sacerdotes. Na Bíblia usa-se cristo para traduzir o hebraico mašiah ou o aramaico mešiha, donde nos veio o termo “messias”. Com este termo de “messias” se designa no Antigo Testamento todo o homem que foi consagrado a Deus por meio de uma unção (reis e sumos sacerdotes) ou também, que foi especialmente escolhido por Deus para levar a cabo um desígnio divino. É o caso do rei persa, Ciro, enquanto escolhido por Yahweh para libertar os Judeus do cativeiro da babilônia: Eis o que diz o Senhor a Ciro, seu ungido (messias/cristo), a quem tomou pelas mãos… (Is.45,1), como o dos patriarcas. Nunca, porém, se usa na Bíblia do Antigo Testamento o termo “messias” (em grego, “cristo”), como nome de pessoa. Por outro lado, a expressão “ungido de Yahweh”, que se aplicava ao soberano reinante, só no último século pré-cristão é que principiou a ser usada com referência ao prometido redentor de Israel, que se concebia como rei. Daí passou à linguagem dos rabinos e aos escritos do Novo Testamento: o aguardado redentor de Israel é designado por o Messias, ou o Cristo, em grego. Veja-se esta significativa passagem do IV Evangelho: dois dos discípulos de João Baptista, ouvindo o seu mestre tratar Jesus por Cordeiro de Deus… seguiam Jesus. Jesus voltou-se e, notando que eles o seguiam, perguntou-lhes: “Que pretendeis?” Eles disseram-lhe: “Rabi – que quer dizer Mestre – onde moras?”. Ele respondeu-lhes: “Vinde e vereis”. Foram, pois, e viram onde morava e ficaram com Ele nesse dia. Era ao cair da tarde. André, o irmão de Simão Pedro, era um dos dois que ouviram João e seguiram Jesus. Encontrou primeiro o seu irmão Simão, e disse-lhe: “Encontramos o Messias!” – que quer dizer Cristo(Jo.1,36-41). O mesmo (Messias/Cristo) se lê no episódio da Samaritana (Jo.4,25).

A verdade é que se estava, então, na expectativa do Messias, o libertador, o rei descendente de David que restituiria a antiga soberania ao Povo de Israel, o qual, de há mais de meio milênio, andava sujeito ao domínio de povos estrangeiros (Assíria, Babilônia, Síria, Roma). Havia mesmo quem se preparava para a revolta contra Roma. Inclusivamente, no número dos Doze Apóstolos poderá ter havido um desses: Simão, o Zelota (Mt.10,4; Lc.6,15) ou Cananeu (Mc.3,18).

Estranhamente ou não, já depois da morte do Senhor Jesus e da revelação de que Ele continuava existindo, a morte não O vencera (Ressurreição), naquela criação literária lucana do desaparecimento definitivo do Senhor Jesus (Ascensão) os discípulos ainda perguntavam: “Senhor é agora que vais restaurar o Reino de Israel?” (At..1,6). E foram os cristãos helenistas, nomeadamente quando a primitiva Comunidade dos discípulos do Senhor Jesus se separou do Judaísmo, e porque menos ligados à tradição judaica, que passaram a usarCristo como segundo nome próprio de Jesus. Foi em Antioquia que, pela primeira vez, os discípulos começaram a ser tratados pelo nome de “cristãos” (At..11,26). Talvez pudessem ter vindo a ser denominados “jesuânicos”. Mas não. Os eventuais “jesuânicos” passam a ser “cristãos”, e o eventual “Jesuanismo” deu-nos o Cristianismo, para o que contribuiu não pouco o apostolado paulino (Veja-se, por exemplo: Rm.6,4.8-9; 8,17; 1Cor.1.12-13.17.22-24). Pelo Quadro seguinte podemos ficar sabendo como o Senhor Jesus foi nomeado nos Evangelhos, nos Atos e em Paulo. Nos primeiros, predomina o nome Jesus: 594 vezes, contra apenas 20 em Paulo. Cristo: só 55 vezes nos Evangelhos e Atos e 226 em Paulo.

 

Designações bíblicas do Senhor Jesus
               
  Designação:
  Jesus Cristo Senhor Jesus Senhor Nosso Jesus
Autores:     Jesus Cristo Jesus Cristo Senhor de
            Jesus Cristo Nazaré
Marcos 71 6 1 4 3
Mateus 159 12 1 4
Lucas: (1) 122 20 13 16 4 2 9
Evangelho 92 12 1 3
Atos 30 8 12 16 4 2 6
João 242 17 3 3
Paulo 20(2) 226(3) 9 222 2 5
               
(1)    92 no Evangelho; 30 em Atos        
(2) 9 vezes na Carta aos Hebreus        
(3) 9 vezes na Carta aos Hebreus        

ConcluindoJesusCristo são a mesma pessoa. Mas quem? Homens de Israel, escutai estas palavras: Jesus de Nazaré, Homem acreditado por Deus junto de vós, com milagres, prodígios e sinais que Deus realizou no meio de vós por seu intermédio… Deus ressuscitou-o, libertando-o dos grilhões da morte pois não era possível que ficasse sob o domínio da morte (At.2,22-24), proclamou Pedro no dia do Pentecostes. Era esta a fé e a cristologia da primitiva Comunidade Cristã. Assim, podemos afeiçoar-nos pelo nome Jesus como pelo termo Cristo. Só que os resultados não serão os mesmos. Enquanto que, afeiçoando-nos pelo nome Jesus, constituímos uma como que relação pessoal e uma vivência mais íntima com Ele, assim como um mais eficaz compromisso com a Sua Mensagem; preferindo a denominação Cristo já não é bem a relação com a pessoa mas com a entidade, e é mais fácil deixarmo-nos levar pelo formalismo e contentarmo-nos com a aceitação de dogmas, de cânones, de rituais e de tradições. Há muito por aí quem encha a boca com “Cristo, Cristo, Cristo”, mas não seja capaz de, por si, dar de graça – digamos – um copo de água a quem tem sede, como indubitavelmente faria o Senhor Jesus.

A.Cunha Oliveira,

Angra do Heroísmo, 2012.05.12

 

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