O golpe ronda, mas a democracia pulsa. O manifesto da Saúde pela Democracia

 Eis o manifesto.

O ataque à democracia brasileira atingiu patamar alarmante na última semana. Um sofistacado conluio político-jurídico-midiático tenta manipular a opinião pública oferecendo diariamente a espetacularização da vida do país a fim de abrir caminho para uma posse inconstitucional e autoritária, de quem não soube perder nem entendeu o significado das vozes da urnas.

Nós estudantes, professores, pesquisadores, intelectuais e militantes do campo da saúde nos unimos e nos fortalecemos na luta dos anos de 1970 e 1980. As conquistas de um sistema universal de saúde, integral e público acompanhou lado a lado a luta pela redemocratização do país. Sabemos, como movimento, que não há golpes dentro da democracia. Também compreendemos que cabe a nós um papel importante de denúncia sobre o que está em marcha no Brasil de hoje.

Não mais sob as fardas, os interesses golpistas e desestabilizadores da nossa democracia usam hoje estratégias que visam

  • confundir,
  • desinformar
  • e disseminar o ódio entre os cidadãos brasileiros.

O resultado disso, é uma indignação seletiva que pune partidos e políticos enquanto fecham os olhos à corrupção de inúmeros outros grupos e partidos políticos representantes das elites nacional e dos eternos donos do poder.

Esses usam todas as suas peças na política, na mídia, na economia para jogar o país numa séria crise institucional, que legitimaria a volta autoritária do projeto neoliberal como “alternativa” ao cenário de barbárie que tentam construir.

É preciso perspecácia para compreender que os mesmos que nos trazem as “soluções”, são os causadores dos problemas. Essa tática sofisticada domina hoje o mercado financeiro e a mídia, unidos em objetivos únicos.

Defesa da democracia

O que atingiu o ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva na sexta-feira (4) foi um atropelo da lei que poderia ter sido feito contra qualquer um que lê este manifesto. Por isso, mais do que repudiar o acontecido contra Lula, nos mobilizamos contra a fragilização das nossas instituições, em defesa da democracia e da soberania do nosso povo.

Nossa democracia foi construída nas ruas, becos e praças. Nunca a grande mídia de agora, capitaneada pelas Organizações Globo, esteve ao lado dos que lutavam por democracia, liberdades e direitos. Não é de se surpreender, conhecendo a história do nosso país, que agora estejam de lado oposto ao dos interesses nacionais mais uma vez.

Pessoal da USP, Unicamp e Fiocruz e várias outras universidades federais e estaduais trabalharam na construção do texto.

É importante contextualizar que o golpe está à caminho, em construção permanente. No ano de 2015 deixou marcas profundas na economia e na política do país. Está em marcha um grande levante contra as conquistas da cidadania social garantida pela Constituição de 1988 até aos direitos mais recentes, como o de ter acesso à alimentação e à segurança alimentar, a uma equipe de profissionais da saúde (como parte de algo muito maior, que é o direito à saúde garantido na Constituição Federal), à garantia de que pobre, negros e tantas outras minorias possam ocupar seus espaços nas universidades.

Agenda derrotada

Sob a narrativa da necessidade do ajuste contínuo, impuseram ao país uma agenda derrotada e estabeleceram um processo de chantagem que atravessou 2015 contra um governo acuado e debilitado, em parte por seus próprios erros.

Já em 2016 fomos reapresentados a um desconcertante projeto neoliberal, que propõe

  • a entrega do pré-sal às multinacionais petrolíferas,
  • cortes em direitos sociais essenciais, como a saúde,
  • e uma nova reforma da previdência.

Seguem ainda

  • a manutenção de taxas de juros escorchantes em uma política econômica que tem levado à liquidação de centenas de empresas brasileiras e milhares de cidadãos ao desemprego,
  • a abertura do capital estrangeiro à saúde
  • e estímulos crescentes à indústria dos planos privados de saúde.
  • Por fim, a criminalização dos movimentos sociais através de uma “Lei Antiterrorismo”, apresentada como condição para a segurança nacional.

Assim, a estrutura pró-golpe está montada, por um Congresso povoado por políticos cujas práticas e interesses não suportam 30 minutos de séria investigação criminal.

Não é o governo, o Partido dos Trabalhadores ou apenas o ex-Presidente Lula que merecem um manifesto de apoio, mas o Estado democrático de direito instituído no Brasil.

A trama golpista funciona a partir de um expediente fascista, de colocar os brasileiros a andarem, novamente,

  • de cabeça baixa,
  • sem autoestima,
  • sem esperança
  • e com medo do futuro.

Um povo resignado, sem força nem vontade para lutar aceita fácil uma agenda política, social e econômica danosa e que em nada interessa aos brasileiros.

Nós exigimos que

  • o Executivo,
  • deputados e senadores,
  • membro do Judiciário

ajam de forma responsável e cumpram o que estalece nosso arcabouço legal e nossa Constituição na defesa da democracia.

Não há espaço para

  • condenações prévias,
  • linchamentos éticos e morais
  • e destruição de reputações.

Todo o trâmite jurídico institucional democrático deve ser respeitado. 

Contra tudo isso, a sociedade brasileira deve tornar-se novamente protagonista de seu futuro e recolocar os seus interesses acima de quaisquer outros. É preciso despertar. Afinal, o nosso amanhã cabe apenas a nós construirmos.

 

 Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/553149-o-golpe-ronda-mas-a-democracia-pulsa-o-manifesto-da-saude-pela-democracia

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