
Marcelo Barros CEBI – 14/032016
- o profeta Isaías saiu nu pelas ruas.
- Jeremias que era de família sacerdotal assumiu uma canga e se vestiu de escravo.
No mundo atual, o fenômeno das migrações revela o fracasso da política que os Estados Unidos e países da Europa impõem aos povos do Oriente Médio e da África.
Nas fronteiras entre a Macedônia e a Grécia, assim como entre a Alemanha e a Áustria, milhares tentam abrigo e são rejeitados por governos que se dizem democráticos e alguns deles cristãos.
A rainha da Inglaterra, chefe da Igreja Anglicana assinou um documento negando aos antigos moradores de várias ilhas no Oceano Índico permissão para voltar a suas casas, de onde haviam sido expulsos. A Inglaterra tinha vendido as ilhas ao exército norte-americano para fazer ali bases militares.

É a partir dessa chave de leitura que podemos compreender a decisão de quatro padres jovens da diocese de Bérgamo, no norte da Itália.
No começo dessa Quaresma, eles decidiram armar uma tenda diante de uma Igreja paroquial e ali viverem acampados até a Páscoa. Na carta pública com a qual anunciaram sua decisão, os padres Emanuele, Alessandro, Andrea e Gianluca deixam claro:
“Tomamos essa decisão por termos descoberto que o preço do bem-estar que vivemos é a redução à miséria de outros seres humanos. E em nome de Jesus, não podemos aceitar isso”.
Por isso, fizeram esse gesto como iniciativa de Quaresma e anúncio de uma nova Páscoa.
Na cultura hebraica, é um gesto litúrgico. Até hoje, a cada ano, na festa de Shuccot (festa das Tendas), as comunidades judaicas têm o costume de armar tendas de palmeira ou de plantas no jardim de suas casas e ali viver por oito dias para recordar o tempo em que Israel vivia em tendas no deserto.
Na realidade brasileira e latino-americana, a partir dos anos 70, alguns padres, religiosos e religiosas passaram a viver em aldeias indígenas, em acampamentos de lavradores sem-terra para sensibilizar a sociedade para o direito que toda pessoa humana tem ao que o papa Francisco chama os três T: terra, trabalho e teto.
Na atual América Latina, também temos migrações internas. Em nossas cidades, convivemos com o comércio informal mantido por migrantes africanos, haitianos ou de países vizinhos, geralmente explorados por patrões que os tratam como semiescravos.
No entanto, a profecia das tendas é mantida por grupos indígenas que são as principais vítimas
- da poluição da natureza,
- da invasão do agronegócio e
- dos governos que ainda mantém um projeto de desenvolvimento baseado no lucro e que consideram índios e pequenos lavradores como descartáveis.
Há poucos dias, em Honduras, apareceu assassinada Berta Cáceres, líder indígena do país. Independente da mão que lhe deu o tiro fatal, de fato, ela foi assassinada por esse projeto de desenvolvimento que considera índios, lavradores e pobres em geral, como descartáveis.
Daqui há poucos dias, as comunidades judaicas e Igrejas cristãs celebrarão a Páscoa. Essa festa teve seu início na fé dos hebreus de que o próprio Deus veio guiar a sua migração do Egito para a terra prometida.
Ao doar a sua vida para que todos tenham vida e vida de qualidade, Jesus faz da Páscoa uma bênção e fortalecimento para todos os migrantes e deserdados do mundo.
Em 1968, os bispos latino-americanos, reunidos na Conferência de Medellín, propunham: “uma Igreja pobre e pascal, comprometida com a libertação de toda humanidade e de cada ser humano por inteiro” (Med 5, 15).

Marcelo Barros
é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi.
Fonte: http://cebi.org.br/noticias.php?secaoId=1¬iciaId=6480
