Três anos com Francisco, um pontificado que não se deve reduzir a slogans

Sugestões para reflexão sobre o testemunho do Papa, as reformas, os trabalhos em andamento e a geopolítica

Papa Jorge Bergoglio Andrea Tornielli – Traduz: Orlando Almeida

Foto: Jorge Mario Bergoglio é apresentado ao mundo depois de ser eleito Papa

“…se a igreja fica fechada em si mesma, autorreferencial, envelhece. E entre uma Igreja acidentada que sai para a rua, e uma Igreja doente por ‘autorreferencialidade’, não tenho dúvidas em preferir a primeira”.

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No próximo dia 13 de março o Papa Francisco entra no quarto ano de pontificado. O terceiro aniversário da eleição acontece em pleno Jubileu, com a Igreja convidada a mostrar a face da misericórdia de Deus, um Ano Santo extraordinário com menos “eventos” e mais sacramentos, acompanhado pela redescoberta das obras de misericórdia corporal e espiritual.

Este terceiro aniversário quase coincidirá com a publicação, prevista atualmente para logo depois da Páscoa, da exortação papal sobre a família, na conclusão do percurso dos dois Sínodos.

Uma das novidades do pontificado de Francisco foi a mudança na modalidade de trabalho do Sínodo dos Bispos e a tentativa – nem sempre bem sucedida devido às diferentes respostas das dioceses – de envolver as igrejas locais, as paróquias e todas as comunidades num caminho comum de reflexão. É preciso esperar mais alguns dias para saber como Francisco tornou próprias as conclusões do Sínodo.

Igreja em saída

Exatamente um ano antes de se tornar Papa, pouco antes do Consistório para a criação dos novos cardeais, numa entrevista publicada nestas páginas, o então cardeal Bergoglio lembrava, citando a quinta conferência dos bispos da América Latina realizada em Aparecida em 2007, que “toda a atividade ordinária da Igreja foi estabelecida em vista da missão”.

Francisco: "Los cristianos estamos llamados a tocar la pobreza de ...

“Isto implica – acrescentava – uma tensão muito forte entre centro e periferia, entre a paróquia e os bairros. É preciso sair de si mesmos, dirigir-se à periferia. É preciso evitar a doença espiritual de Igreja autorreferencial: quando tal acontece, a Igreja fica doente. É verdade que saindo para a rua, como acontece a qualquer homem ou mulher, podem ocorrer acidentes. Mas se a igreja fica fechada em si mesma, autorreferencial, envelhece. E entre uma Igreja acidentada que sai para a rua, e uma Igreja doente por ‘autorreferencialidade’, não tenho dúvidas em preferir a primeira”.

Buscamos “o contato com as famílias que não frequentam a paróquia – explicava ainda Bergoglio – Em vez de ser apenas uma Igreja que acolhe e que recebe, procuramos ser uma Igreja que sai de si mesma e vai até aos homens e mulheres que não a frequentam, que não a conhecem, que se afastaram, que são indiferentes. Organizamos missões nas praças públicas, naquelas em que se reúne muita gente: rezamos, celebramos a missa, propomos o batismo que ministramos depois de uma breve preparação. É o estilo das paróquias e da própria diocese”.

A força da ternura

São palavras, as que acabamos de citar, que o cardeal repetiria também aos irmãos cardeais antes do conclave e que depois entraram na exortação “Evangelii gaudium”, o “mapa do caminho” do pontificado. A “conversão pastoral”, o testemunho de uma Igreja que, preocupada com a “salus animarum”, mostra o rosto de um Deus misericordioso e acolhedor, são o coração do magistério de Francisco.

” ‘Pastoral’- explicava o Papa aos bispos do Brasil em julho de 2013 – não é senão o exercício da maternidade da Igreja. Ela gera, amamenta, faz crescer, corrige, alimenta, leva pela mão... Precisamos, então, de uma Igreja capaz de redescobrir as vísceras maternas da misericórdia. Sem a misericórdia há pouco a fazer hoje para inserir-se num mundo de “feridos”, que têm necessidade de compreensão, de perdão, de amor”.

Um magistério que se acha bem resumido também nesta passagem do mais significativo dos discursos feitos pelo papa durante a sua viagem ao México em fevereiro passado, dirigido aos bispos do País reunidos na catedral da capital federal:

“Antes de tudo, a Virgem Morenita (Nossa Senhora de Guadalupe, de traços mestiços, ndr) ensina-nos que a única força capaz de conquistar o coração dos homens é a ternura de Deus. O que encanta e atrai, o que dobra e vence, o que abre e solta as cadeias não é a força dos instrumentos ou a dureza da lei, mas a fraqueza onipotente do amor divino, que é a força irresistível da sua doçura e a promessa irreversível da sua misericórdia”.

Trabalhos em andamento

Três anos após a o seu início, o pontificado ainda se caracteriza por trabalhos em andamento:

  • se a reforma do sistema econômico-financeiro da Santa Sé já entrou na sua fase de atuação,
  • muito mais lenta se mostra, em geral, a reforma da Cúria romana,
  • ao passo que está apenas no começo no que diz respeito à reorganização do sistema midiático do Vaticano.

Das palavras do Papa fica bastante claro que a reforma dos corações, a “conversão pastoral”, são condição necessária para que as reformas estruturais sejam corretamente executadas.

Há de fato o risco de que, no Vaticano assim como nas Igrejas locais, se substituam algumas palavras-chave, ingredientes-slogan (hoje estão na moda as “periferias”) que são postos no liquidificador para obter sempre o mesmo ‘milk-shake’, mas com algumas gradações de gosto diferentes.

O testemunho e ensinamento do Papa, de fato, sugerem a todos – aos colaboradores da Cúria, aos bispos, aos sacerdotes e aos religiosos, bem como aos leigos de todas as latitudes – uma radicalidade evangélica bem diferente, sem a qual há risco de as próprias reformas reprisarem critérios empresariais e fecharem-se em tecnicismos que não levam em conta a natureza da Igreja, nunca comparável à de uma das muitas multinacionais.

Geopolítica sem geopolítica

No cenário internacional, o pontificado de Francisco, na esteira daqueles que o precederam, é caracterizado pela tentativa de construir pontes. Com quem quer que deixe transparecer o menor vislumbre de diálogo. É do Papa a constatação realista de que o mundo se encaminha para uma terceira guerra mundial, que já está ocorrendo “em pedaços”. Mas estes pedaços tornam-se cada vez maiores.

Das tentativas para não isolar Putin, ao diálogo com os chefes de Estado e as autoridades religiosas muçulmanas, das viagens a Cuba e aos Estados Unidos até às viagens à Coréia, ao Sri Lanka e às Filipinas, para não mencionar a centralidade do ecumenismo.

Francisco falou do ” ecumenismo de sangue” que une cristãos de diferentes confissões, abraçou o Patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu, e conseguiu coroar o sonho guardado na gaveta pelos seus dois antecessores imediatos, encontrar-se pela primeira vez com o Patriarca de Moscou e de toda a Rússia. A unidade dos cristãos não tem valor apenas para a vida das Igrejas, é um sinal importante para a paz no mundo.

Os últimos

O magistério dos gestos, das viagens e das palavras de Francisco puseram em discussão o atual modelo de desenvolvimento. O Papa iluminou novamente e atualizou páginas esquecidas da doutrina social da Igreja, que ajudam a ler os atuais tempos de crise que vivemos. Na encíclica “Laudato sí’‘, sobre a proteção da criação, explicou como a preservação do ambiente, para que também possam usufruir dele as gerações futuras, está intimamente ligada à solução dos graves problemas da pobreza que afligem grande parte da população do globo.

As palavras sobre a ”economia que mata”, contidas na “Evangelii gaudium” e depois na encíclica “Laudato sí” foram discutidas e atraíram para o Papa os ataques daqueles que acreditam que vivemos no melhor de todos os sistemas econômicos possíveis, dos defensores da “desregulamentação” e de um “mercado livre” que acaba por não ser nunca um mercado verdadeiramente livre.

As palavras do Papa, incômodas, trouxeram ao centro das atenções o drama do subdesenvolvimento e das consequências desastrosas das guerras, junto com as motivações económicas ocultas que as movem.

 

 

Andrea Tornielli – Vaticanista

Fonte: http://www.lastampa.it/2016/03/07/vaticaninsider/ita/vaticano/tre-anni-con-francesco-un-pontificato-da-non-ridurre-a-slogan-qXxziJd2p4IN5geCc1TofL/pagina.html

 

 

 

 

 

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