
José Luis Ferrando Lada – 03/03/2016
Foto: um-oscar-para-a-pederastia – Bing images
Eis o artigo.
Direto ao ponto. Ou seja, um Oscar para o filme Spotlight sobre a pederastia. O alto-falante cinematográfico coloca em primeiro plano, mais uma vez, a pederastia eclesiástica. Se alguém não se havia inteirado de sua existência, agora fica mais claro. Que tristeza! Histórias truncadas por indivíduos sem escrúpulos, atores de um sofrimento terrível impingido a pessoas vulneráveis.
E, de passagem, a credibilidade de uma Igreja que guardou silêncio muitas vezes diante destas situações. Até quando? Existe, na Igreja, vontade real para erradicar esta chaga? E na sociedade?
Não esqueçamos que a pederastia não é exclusividade de alguns homens da Igreja. Infelizmente, está presente em muitos setores da sociedade e, muitas vezes, como afirmam os especialistas, nos ambientes familiares próximos, que são o caldo de cultivo deste latrocínio. Os casos de professores também são muito numerosos. A vigilância nos ambientes escolares e extra-escolares deve ser muito estrita. Temos muitos casos recentes.
Logicamente, esta não é nenhuma desculpa para paliar o impacto da pederastia dos homens de Igreja, colocado em primeiro plano pelo filme premiado. A pergunta é se a Igreja católica realmente está tirando as consequências desta nefasta história. Durante séculos, todos os temas que giravam em torno da sexualidade, ou eram ignorados ou eram “tabus”.

Um oscar para a Pedreastia – Bing images
O reconhecimento da existência da pederastia, a posta à disposição judicial desses indivíduos, as indenizações pagas às vítimas e a criação de comissões de vigilância e acompanhamento em Roma e em algumas dioceses são, sem dúvida, avanços positivos. Não obstante, seria preciso ter em conta três aspectos essenciais para combater a pederastia nas suas raízes, no que diz respeito à Igreja católica.
Em primeiro lugar, uma política preventiva séria e rigorosa. Isto significa submeter a profundas explorações de tipo psicológico e psiquiátrico os possíveis candidatos à vida de castidade e celibatária. A detecção de possíveis tendências patológicas, em etapas vocacionais precoces, seria fundamental para estabelecer terapias eficazes, inclusive para ajudar a desistir de uma opção celibatária contraproducente ou impossível.
A opção celibatária não pode apoiar-se unicamente em um voluntarismo cego. Nisto se joga muito a Igreja católica: entre outras coisas, a qualidade das vocações, evitar desgostos e dispêndios econômicos. E, evidentemente, muitos indivíduos podem fugir ou equivocar o diagnóstico. Não esqueçamos que a “graça” pressupõe a natureza.
Em segundo lugar, protocolos de comportamento dos padres com as crianças e jovens muito severos. Para tranquilidade de todos. A vulnerabilidade do padre pode convertê-lo em carne de canhão de acusações injustas por parte de crianças por razões insignificantes. A calúnia é sempre um risco. E, por outro lado, é preciso dificultar as coisas para os possíveis pederastas com batina. Estes não trazem escrito na testa a sua definição. Em geral, são pessoas muito normais, inclusive aparentemente consideradas pias e santas. Por isso, não é fácil detectar seu comportamento, a não ser que a vítima cante. A clareza e a transparência neste campo redundarão em absoluta tranquilidade para todos. Assim se evitariam tentações e calúnias.
Isto deveria refletir-se inclusive em escritórios com vidro, que permitam a intimidade e, ao mesmo tempo, a luminosidade. Enquanto esta relação com crianças estiver mediatizada por ambiguidades e obscuridades converte-se na antessala do drama. Em nenhum caso isto deve diminuir a confiança na imensa multidão de padres que lutam diariamente para serem fiéis ao seu ministério e ao seu celibato. Mas não levantemos a guarda… ninguém, e menos ainda os padres.
Em terceiro lugar, na mínima suspeita real, suspensão cautelar ou fulminante por parte da Igreja, dependendo de cada caso, sem fugir das responsabilidades institucionais, já que essa pessoa esteve muitos anos, de uma forma ou outra, sob a tutela da Igreja. E, evidentemente, a posta à disposição judicial desses indivíduos. E que a justiça faça o seu trabalho.
Este é um elemento de dissuasão essencial para combater o comportamento desses seres, que cometeram seus abusos na obscuridade e acreditando-se ao abrigo da justiça.
Finalmente, um equívoco intencionado muito importante, não há pederastia branda ou dura. Há pederastia e ponto final. Não se pode, nem se deve, brincar com as palavras, nem com as pessoas. A vida e a felicidade de muitas pessoas estão em jogo. O respeito ao corpo do outro é sagrado, e muitos mais se for uma criança.
Na Igreja aninharam-se comportamentos deste calibre, provavelmente por uma falta de discernimento profundo. Estamos em tempos de qualidade vocacional e não de quantidade.
Desde agora, o Papa Francisco, converteu este tema em uma cruzada pessoal. Esperemos que as pessoas às quais ele confiou a vigilância sejam fiéis à sua vontade e ao seu mandato.
José Luis Ferrando Lada
Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/552179-um-oscar-para-a-pederastia
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