Uma verdade e três erros sobre a pedofilia na Igreja

Massimo Introvigne - 01/03/2016

Spotlight o filme - Bing images

 O Oscar ao filme Spotlight, o depoimento prestado em Roma por videoconferência pelo cardeal Pell perante uma comissão de inquérito no seu país, a Austrália, e a renúncia de um membro da comissão do Vaticano sobre os abusos, uma ex-vítima de assédio que ataca também o Papa Francisco, trouxeram para o primeiro plano a questão dos padres pedófilos. No que se lê, há uma verdade e três erros.

Tradução: Orlando Almeida
A verdade é que a Igreja teve realmente um grave problema de pedofilia no seu clero. Certamente existiu, e em certa medida existe ainda, um negacionismo que considera que todos ou a grande maioria dos padres acusados​​ são vítimas de meras calúnias: é uma posição errada, como foi afirmado repetidamente por Bento XVI, uma posição que prejudica a Igreja. O Papa Ratzinger não usou meios termos para denunciar a praga dos padres pedófilos: "vergonha", "escândalo", "sujeira".

É verdade que Bento XVI, seguido depois pelo Papa Francisco, criticou as estatísticas exageradas que falam de milhares ou dezenas de milhares de padres pedófilos quando têm sido algumas centenas no mundo. Mas, como gostava de dizer o atual Papa Emérito, se os padres pedófilos fossem apenas dois já seriam dois em excesso, e alguns episcopados - sobretudo na Irlanda, na Austrália e nos Estados Unidos – que adotaram durante anos uma posição negacionista e se limitaram a transferir de uma diocese para outra os padres suspeitos, causaram à Igreja e à sociedade danos incalculáveis.

Mas esta verdade - que deve ser reafirmada, para evitar qualquer equívoco, e que o cardeal Pell admitiu sem fingimentos - é apresentada ao público, por jornalistas ou desinformados ou mal-intencionados, combinada com três erros.

1 - Primeiro erro:

" é culpa do celibato sacerdotal". Esta foi também a opinião dos jornalistas de Boston lembrados em Spotlight. Mas era uma opinião errada. Pode haver ideias diferentes sobre a oportunidade de manter ou não o celibato sacerdotal. Mas desde há algumas décadas, os sociólogos que estudaram o problema da pedofilia, e que em sua maioria não são sequer católicos, se empenham em explicar que entre pedofilia e celibato não há nenhuma relação. Demonstram-no dois dados difíceis de refutar.

O primeiro não é politicamente correto, e se estivesse em vigor a lei Scalfarotto*, levaria diretamente à justiça o autor da matéria ou o diretor do jornal (que a publicasse). A grande maioria dos padres pedófilos abusam de meninos, e não de meninas, e já mostravam tendências homossexuais antes mesmo de se tornarem pedófilos. Isso não significa de modo algum que todos os sacerdotes com tendências homossexuais são pedófilos, e nem sequer a maioria deles. Quem protesta contra essa tese, que é simplesmente tola, tem razão. Mas eu não sei de nenhum estudioso que a apoie, ao passo que sei de muitos que fazem notar simplesmente que os estudos sobre padres pedófilos mostram que a maioria deles são homossexuais.

Se são homossexuais, suprimir o celibato e permitir que sejam ordenados após se casarem - com uma mulher - não resolveria o problema. A não ser que se lhes permita "casar" com outros homens ou, pelo menos, de unir-se no civil - um pouco de Cirinnà** não se pode negar a ninguém - mas esta solução "avançada" no momento não é proposta por ninguém.

O segundo dado, que mostra que o celibato sacerdotal não está entre as causas da pedofilia, é que existem, proporcionalmente, mais pedófilos entre os professores, os treinadores de equipes esportivas juvenis e os ministros de várias denominações protestantes - todas categorias onde não existe o celibato – do que entre os padres católicos. Há também mais (pedófilos) entre os pais de família (do que entre os padres). Não é a Igreja Católica que o diz, está exposto em três relatórios do John Jay College, a maior instituição acadêmica de criminologia dos Estados Unidos.

2 - Segundo erro, este também um cavalo de batalha dos jornalistas de Boston de que fala Spotlight:

"a pedofilia foi favorecida pela atitude conservadora da Igreja em temas como homossexualidade, aborto, anticoncepcionais, que criou uma instituição fechada onde os pedófilos foram protegidos".

É verdadeiro exatamente o contrário. O número de casos de pedofilia explodiu na Igreja a partir dos anos 1970, e não vale dizer que antes os casos existiam mas não eram denunciados, porque se o número fosse tão alto como alguns afirmam - ou mesmo tão alto como nos anos 1970 e 1980 - seria impossível manter o segredo sobre tudo e alguma coisa ou muita teria vazado.

Como salientou Bento XVI na sua "Carta aos católicos da Irlanda", as datas não são casuais. Foi a mentalidade permissiva sobre o tema da moralidade que levou alguns - poucos, felizmente - a justificar até mesmo a pedofilia: isto é, foi o progressismo.

Argumenta-se que houve sacerdotes conservadores, como o fundador dos Legionários de Cristo, que se tornaram culpados de gravíssimos abusos. Existiram efetivamente, mas não se pode transformá-los em estatísticas. Sempre aproveitando do fato de que a lei Scalfarotto ainda não está em vigor, será lícito - citando pesquisas sociológicas americanas - acrescentar que muitos padres pedófilos foram formados numa subcultura de padres homossexuais cúmplice e protetora, a que o Papa Francisco chamou de "lobby gay" na Igreja?

3 - Terceiro erro: "A Igreja tem feito pouco para combater a pedofilia". Certamente nenhuma instituição conseguiu eliminar completamente a pedofilia, e isto vale para muitos outros males. Os Estados Unidos de Obama, que em todos os fóruns internacionais apontam o dedo contra a Igreja Católica, têm no seu país, mesmo excluindo do número os padres, percentuais superlativos de pedófilos, às vezes alojados em instituições do Estado como as escolas públicas.

Todavia pode-se dizer com consciência tranquila que ninguém, pelo menos desde o pontificado de Bento XVI, fez mais do que a Igreja para combater este flagelo. Permito-me  fazer referência ao livro que  escrevi com Roberto Marchesini, “Pedofilia: uma batalha que a Igreja está vencendo” (Sugarco, Milano 2014) para dados e bibliografia sobre como as intervenções drásticas do Papa Ratzinger - confirmadas por seu sucessor, que porém pouco tinha a acrescentar porque o essencial tinha sido feito por Bento XVI - introduziram uma legislação canônica sobre a pedofilia cuja severidade não tem igual em nenhum país do mundo e que têm reduzido drasticamente o número de novos casos.

Estão sendo julgados casos de muitos anos atrás, mas os casos genuinamente novos são poucos, especialmente nos países mais afetados como Estados Unidos e Irlanda, onde os bispos aplicam com particular rigor as disposições do Vaticano.

Devemos lembrar sempre a verdade: os padres pedófilos existem, infelizmente, não são uma invenção dos inimigos da Igreja. Mas esta verdade, embora trágica como é, não deve tornar-se uma gazua para abrir a porta aos três erros.  Erros que alguém espalha às mão cheias com o objetivo, nem sequer muito velado, de amordaçar a Igreja num momento em que ela fala, e isso incomoda,

  • das "colonizações ideológicas",
  • de "gender" (gênero - NR)
  • e de "colonizações econômicas" dos poderes fortes
  • e de sua "economia que mata ".

* Projeto de lei contra a violência discriminatória motivada por ódio étnico, nacional, racial ou religioso; em particular, a proposta Scalfarotto quer estender a norma a outros crimes, como a homofobia e a transfobia (não definidos no texto do projeto de lei). Fonte: web

** Projeto de lei aprovado recentemente no Senado da República Italiana (ainda deve passar pela Câmara para tornar-se lei) que legaliza “a união civil entre pessoas do mesmo sexo”. 

 

 

oliver o'grady

Massimo Introvigne

Fonte: http://www.lanuovabq.it/mobile/articoli-una-verita-e-tre-errori-sulla-pedofilia-nella-chiesa-15409.htm#.VtiAxqRwXIU

 

 

 

 

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