A conflitiva relação do papa João Paulo II com as mulheres e o sexo

A desenvoltura do polonês com o outro sexo era proverbial apesar do seu conservadorismo

Juan Arias  –  16 FEV 2016

Foto: Woityla e Anna Teresa esquiando

“Wojtyla sempre manteve uma relação conflitiva com a mulher e o sexo. Mieczslav Malinski, sacerdote e poeta, foi durante a vida de Wojtyla, antes de ele chegar ao pontificado, seu fiel secretário e escudeiro, assim como seu confidente. Costumava ir com frequência, convidado pelo Papa, almoçar no Vaticano. Quando saía do almoço íamos tomar um café juntos e ele me contava”

 Tradução: Orlando Almeida

A relação do papa João Paulo II com a filósofa Anna-Teresa Tymieniecka, mãe de três filhas, que durou 30 anos, não foi a única amizade intensa do Papa polonês* com uma mulher.

Antes dessa relação com a filósofa, João Paulo II manteve outra estreita relação com a médica psiquiatra Wanda Poltawska, casada com o também psiquiatra André e mãe de seis filhas.

A amizade, que durou 50 anos, começou quando Wojtyla era padre, com 30 anos, e a psiquiatra buscava alívio num confessor após ter sofrido cinco duros anos no campo de concentração de Ravesbruck.

Wanda recusou-se a entregar, para o processo de canonização de João Paulo II, todas as cartas recebidas durante anos de Wojtyla. Ele a chamava de “irmãzinha” e afirmou que Deus lhe “havia encomendado” aquela amizade.

Woityla (deitado) com amigos em campismo

A amizade do futuro Papa com Wanda e suas filhas chegou a ser familiar. Juntos, às vezes com seu marido, às vezes apenas com ela e suas filhas, passavam dias acampados nas montanhas de Cracóvia.

Uma revista italiana publicou fotos do então bispo Wojtyla de calção e camiseta fazendo piquenique no campo com Wanda e as suas filhas. Aquela amizade com a psiquiatra polonesa durou até a morte do Papa a quem as filhas de Wanda chamavam “tio Karol”.

Conheci-as em uma tórrida manhã de agosto em Roma. Eu tinha ido [procurar] uma comunidade de religiosas leigas, sem hábito, que para ganhar algumas liras alugavam quartos para pessoas de absoluta confiança.

Eu queria alugar um quarto para o militar espanhol que ensinou o então Príncipe Juan Carlos a pilotar helicópteros e que era o encarregado de comprar e levar para a Espanha os helicópteros Augusta para o governo espanhol.

 Woityla, acampando na floresta, com Anna Teresa e filhas

Enquanto conversava com as religiosas chegou um grupo de jovens loiras, com o rosto bronzeado pelo sol, que contaram entusiasmadas que tinham estado em Castelgandolfo, a residência de verão dos papas nos arredores de Roma, “tomando banho com o Papa na piscina”.

Quando se retiraram, as religiosas me explicaram que, para o papa Wojtyla, aquelas garotas eram “como filhas” pois as tinha visto crescer; e que sua mãe era uma psiquiatra, velha amiga dele desde muito jovem. Eram as filhas de Wanda.

A desenvoltura do Papa polonês com as mulheres foi sempre proverbial e ele não a escondia. Mas ao mesmo tempo, apesar de considerar a si mesmo “feminista”, Wojtyla foi um dos papas mais conservadores em matéria de sexo.

Defendia que o papel da mulher na Igreja era, como Maria, “estar de joelhos e em silêncio aos pés da cruz”, como disse, em Washington, à religiosa Theresa Kane, presidente das religiosas dedicadas ao ensino. Kane tinha criticado João Paulo II por não dar mais espaço à mulher na Igreja. Era a primeira vez que uma religiosa criticava o Papa em público.

Wojtyla sempre manteve uma relação conflitiva com a mulher e o sexo. Mieczslav Malinski, sacerdote e poeta, foi durante a vida de Wojtyla, antes de ele chegar ao pontificado, seu fiel secretário e escudeiro, assim como seu confidente.

Costumava ir com frequência, convidado pelo Papa, almoçar no Vaticano. Quando saía do almoço íamos tomar um café juntos e ele me contava. Segundo ele a relação de Wojtyla com a mulher tinha sido sempre de “sublimação e conflitiva”, já que na mulher “ ele via o reflexo de Maria, a mãe de Jesus”.

Segundo Malinski, precisamente por isso, Wojtyla conseguia ser ao mesmo tempo desinibido em seu trato com as mulheres até “quase escandalizar”. Foi ele [Malinski] quem me contou que, quando ainda jovem padre, Wojtyla gostava de ir, com grupos de rapazes e garotas, acampar durante dias em lagos e montanhas.

Numa dessas vezes tinham combinado encontrar-se na estação de trem para uma excursão de um desses grupos, mas só compareceram ao encontro cinco garotas. Acreditando que sem garotos a excursão seria suspensa, elas estavam tristes. Então Wojtyla disse: “Não importa, vamos nós sozinhos”, e acrescentou: “Mas, diante das pessoas, chamem-me tio em vez de padre”.

Malinski acrescentou: “Naquela época, na Polônia, o gesto de Wojtyla era muito arriscado, já que um padre, vestido de leigo e em excursão durante vários dias com cinco garotas, era quase uma loucura” (extrato retirado de meu livro publicado na Espanha pela editora Grijalbo Um Deus para o Papa).

No entanto foi Malinski que me lembrou que a relação de Wojtyla com a mulher, aparentemente desinibida, mantinha sempre um fundo de dor já que, em vida, ainda criança, perdeu duas mulheres muito importantes:

  • sua mãe que morreu jovem, de infarto,
  • e sua irmã que nasceu morta e que, por serem os seus pais muito católicos, não teve sepultamento [religioso] por não ter recebido o batismo. Por isso não está no túmulo da família no qual Wojtyla, já Papa, reuniu todos os seus. “Falta minha irmã, que nasceu morta”, comentou publicamente uma vez falando do túmulo de sua família.

Há quem veja neste antecedente a explicação para o fato de Wojtyla, já Papa, ter abolido do Catecismo Universal do Concílio o limbo das crianças. Não queria que sua irmã pudesse ficar no limbo, sem o gozo de Deus.

Sublimação da mulher e do sexo, já que o Papa via o feminino como reflexo da virgem Maria. Tanto que chegou a propor, durante uma de suas viagens, a figura de São José como ideal dos maridos, e em 8 de outubro de 1980, durante a audiência geral em São Pedro, afirmou que o marido “que olha com concupiscência para sua mulher comete adultério em seu coração”. Mais ainda, propôs, para manter melhor a relação entre casados, “a abstinência sexual”.

Wojtyla dedicou semanas inteiras a desenvolver em suas homilias públicas o tema do “corpo” nos textos bíblicos, e esse problema do corpo e as suas angústias refletem-se também nas suas poesias:

“E em nós que contemplamos o outono,

desencadeia-se a luta através da fratura,

que cada homem leva dentro de si;

quando o homem ainda está no passado do seu amanhecer,

e quando não consegue aquele amanhecer para seu corpo”.

O sucessor do papa João Paulo II, o cardeal Joseph Ratzinger, sendo já Prefeito da Congregação da Fé, durante um jantar na casa de um jornalista alemão, amigo seu, ao qual compareci, afirmou que o papa polonês “sabia pouca teologia”, e que precisara revisar um texto dele “sobre a mulher e a Virgem Maria”. Segundo Ratzinger, Wojtyla era sobretudo um “poeta e filósofo”.

Sobre os escritos de Wojtyla acerca da ética sexual, o teólogo e escritor Piergiorgio Mariotti escreveu: “Poderá parecer paradoxal, mas a ética sexual de João Paulo II corre o risco de cair no antropomorfismo”. Segundo Mariotti, Wojtyla nunca encontrou no campo sexual uma “harmonia interior”, já que “não era um homem pacificado consigo mesmo”.

Defende-o no entanto o político italiano Rocco Butiglione, para o qual o que acontece é que João Paulo II pensava que “o amor é a chave para a compreensão da castidade”.

Antes de ser Papa, Wojtyla escreveu: “Toda moral sexual se baseia na interpretação correta do pudor sexual”.

Também a socióloga italiana Ida Magli me explicou então que não existia contradição entre o comportamento aberto de Wojtyla e a sua cultura antifeminista, já que via a mulher “somente como mãe e como mãe que deve sofrer” e isso, segundo ela, “não é um modelo para as mulheres”.

Daí teria vindo a grande devoção de Wojtyla pela figura da Virgem. Duas delas: a virgem negra de Czestochowa e Nossa Senhora de Fátima foram os pilares de sua devoção mariana.

Foi em 13 de maio de 1981, festa de Fátima, que João Paulo II sofreu um atentado na praça de São Pedro que o deixou à beira da morte. Em agradecimento às duas virgens por salvarem sua vida, o Papa quis que fosse enviada a esses santuários uma parte da faixa ensanguentada que vestia no dia do atentado.

A relação conflitiva e dolorosa do papa Wojtyla com a mulher de carne e osso e com a sua idealização acompanhou-o desde jovem quando, antes de ser padre, viveu, segundo Monsenhor Darowski, que foi secretário geral da conferência episcopal polonesa, “um amor infeliz”.

Ainda existe um véu de segredo e mistério sobre a relação amorosa e dolorosa de Wojtyla, ao que parece, com uma jovem judia que morreu em um campo de concentração nazista.

Há quem defenda que, antes de os nazistas a levarem, os dois tenham selado “um casamento de consciência”, que por isso não foi consignado nos registros civis.

A ser verdade, João Paulo II teria sido casado antes de ser Papa. Um amor que se afogou no inferno de um campo de extermínio.

Juan AriasJuan Arias

 http://internacional.elpais.com/internacional/2016/02/16/actualidad/1455630609_632717.html

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