
Anselmo Borges – 13/02/2016
Numa recente viagem à Índia, a um dado momento, no meio daquele trânsito absurdamente caótico e ensurdecedor, quando se fecha os olhos para não ver o que parece iminente: um choque em cadeia de uma infinidade de carros, motos, motoretas, bicicletas, riquexós e quejandos, pessoas em multidão a pé, alguém perguntou: “O que é que toda esta gente anda a fazer?”
Resposta pronta e sábia de um professor ilustre: “Andam a viver.”
É isso: a viver. O que é que andamos a fazer? Tão simples como isto: a viver. Melhor ou pior, material, espiritual e moralmente falando. Todos, a viver.
E são tantas as vezes em que se não dá por isso: o milagre que é viver!
Assim, numa sociedade na qual o perigo maior é a alienação – viver no fora de si -, quando a política se tornou um espetáculo indecoroso, quando Deus foi substituído pelo Dinheiro e o mundo se tornou globalmente perigoso e ameaçador, o jesuíta Juan Masiá, que, durante trinta anos, ensinou Filosofia, um semestre em Tóquio e outro em Madrid, vem com um belo livro, precisamente com o título: Vivir. Espiritualidad en pequeñas dosis.
“Deixo-me acariciar pela brisa, saboreio a experiência de estar vivo, sentir palpitar a minha vida. E penso: viver, que maravilha e que enigma! Paro em silêncio a saborear esta vivência. Estou vivo, mas a minha vida supera-me: não é só minha nem a controlo. Viver é ser vivificado pela Vida que nos faz viver.”

A Vida vive-te, vive na Vida!
E aí estão três tarefas para a espiritualidade:
- dar-se conta do viver;
- agradecer por a Vida nos fazer viver, nos vivificar: vivemos graças à Fonte da Vida;
- vivificarmo-nos, darmos vida uns aos outros, na compaixão e na ajuda mútua para nos libertarmos.
Lá está o poema zen:
“O que é o mar? O que permite o peixe nadar.
O que é o ar? O que permite o pássaro voar.
O que é o Nada e o Vazio? A Vida que te faz viver.”
“Vejo a ervita entre as gretas do pavimento. Donde lhe virá a força para abrir passagem entre o asfalto?” “Palpo aqui uma Presença latente/Não sei quem é. /Mas brotam lágrimas de agradecimento.” Então, o que é morrer senão sair para dentro da Vida verdadeira, definitiva e eterna: “vida no seio da Vida da vida”?
No meio do rebuliço estonteante, é decisiva a pausa e o silêncio. Chama-se cultura da pausa à tradição oriental de dar importância
- aos silêncios numa conversa,
- às margens numa folha escrita ou num quadro,
- aos intervalos entre as palavras,
- aos vazios nas letras,
- aos espaços livres na arquitectura,
- ao não dito na mensagem,
- à receptividade na contemplação.

Parar para ouvir o silêncio e contemplar: em vez de olhares para ti e olhar para mim, deixemo-nos olhar ambos pela “Realidade-Assim-Sempre-Presente, cuja aura comum nos envolve”. Sai de ti, para te encontrares no Todo. Deixa o eu superficial, transcende, descendo até ao eu profundo e ao “Assim-Sempre-Presente”, que se manifesta.
Sem pausas de silêncio, como poderíamos ouvir uma mensagem ou uma sinfonia? Sem intervalos, margens e vazios nas letras e entre as frases, como poderíamos ler e entender? E verdadeiramente viver?
O que é a liberdade? “Agir de acordo com o melhor de si mesmo.” Mas “eu não sou eu. O meu autêntico eu é uno com tudo. Ser eu é não ser. Ser eu de verdade é ser-me no Todo”, na consciência da inter-relação profunda de tudo com tudo. Perguntou ao jesuíta o monge budista:
“Em que é que a sua religião e a nossa se parecem?”
E respondeu: “Vós falais do amor de Deus e nós da compaixão do Buda. Mas nem vós nem nós praticamos. É nisso que mais nos parecemos.” É essencial a lucidez da visão sem engano: sabedoria e solidariedade, contemplação e compaixão, lucidez cordial e cordialidade lúcida, sem tensão nem preguiça.
E como se reza? “Crer, viver e conviver” era o lema de um encontro de meditação e espiritualidade inter-religiosa, sendo um terço dos participantes budistas, a maioria sem filiação religiosa e uma minoria católicos. E ali se elaborou, com todos de acordo, colocando em duas colunas o “Pai Nosso” cristão e uma paráfrase do partilhar a espiritualidade inter-religiosa, a “Oração à Vida, a partir da vida”:
“Fonte da Vida, que estás na vida, que estás na minha vida, que estás em toda a parte, vivificando tudo. Que nos demos conta de que o Reinado da Vida vem e o construamos, vivificando-nos, dando vida uns aos outros e em tudo dando um sim à Vida. Que recebamos força de viver, fortaleza de corpo e espírito com pão de vida e esperança. Que nos capacitemos para conviver em reconciliação, recebendo e dando perdão, e para conviver com as pessoas mais desfavorecidas, com quem é diferente e com quem nos mostra inimizade. Que sejamos libertos de todo o mal: do mal no nosso interior e do mal que vulnera as relações humanas. Que dê fruto o trabalho pela libertação do mal social.”
Jesus ensinou: “Quando rezardes, dizei: Obrigado, Abbá, Pai e Mãe nossa. Dá-nos o pão do futuro no presente. Reconcilia-nos e livra-nos do mal.”
* Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.
Anselmo Borges
Fonte: http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/anselmo-borges/interior/viver-5027766.html