Expectativa no México pela parada do Papa no túmulo do bispo de San Cristóbal de las Casas
Autora: Maria Teresa P. Pederiva – Trento
Foto: Dom Samuel Ruiz -09/02/2016
“Como Romero, nos primeiros meses na sua diocese em Chiapas ele se mostra bastante tradicional, mas é durante as longas viagens que o levam a visitar os fiéis confiados aos seus cuidados pastorais, que acontece a transformação radical da sua abordagem missionária, como relata o teólogo Michel Andraos”
Tradução: Orlando F R Almeida
Enquanto se amplia o alcance do iminente encontro em Cuba entre o Papa Francisco e o patriarca ortodoxo russo Cirilo, corre-se o rico de deixar em segundo plano um outro momento da próxima viagem Bergoglio ao México (sem contar os imprevistos, que agora já fazem parte do pontificado), um momento que, pelo menos para as populações indígenas, terá uma importância tal que só será menor do que a canonização de Oscar Romero.
Em 15 de fevereiro, quando da visita à Catedral da Paz, em San Cristóbal de las Casas em Chiapas, Bergoglio, acompanhado pelo clero local, irá rezar em caráter particular no túmulo do bispo Samuel Ruiz García, falecido em 2011, um pastor que guiou a diocese por 40 anos, muito próximo à teologia da libertação e, frequentemente acusado de simpatizar com o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).
Ruiz, que pouco antes de sua morte no hospital na Cidade do México com a idade de 86 anos, tinha reiterado o desejo de ser sepultado na sua diocese, era conhecido como um estrênuo defensor das populações locais, de modo que pode ser declarado o fundador da Igreja indígena de Chiapas em razão da sua ação apaixonada voltada em reivindicar o valor e contribuição dos grupos indígenas para o catolicismo contemporâneo pós-conciliar.
Mas lembra-se também o seu papel fundamental como mediador durante a revolta do Exército Zapatista de Libertação Nacional em 1994, entre o movimento liderado pelo comandante Marcos e o governo, o que lhe valeu uma certa desconfiança da parte de Roma.

No entanto, em uma entrevista dada em 2000 (ano de sua renúncia ao atingir a idade de 76 anos), à revista mensal “Popoli” [Povos] dos jesuítas, Ruiz revelou que o então Cardeal Ratzinger, aliás crítico da “teologia índia”, lhe tinha confidenciado em uma conversa “ter entendido coisas que eu não tinha entendido antes”.
“É difícil imaginar Chiapas sem lembrar logo a figura e o trabalho pastoral de Mons. Samuel Ruiz García “, escreve Luis Badilla, coordenador de “Il Sismografo” on-line, citando este particular.
As relações Ruiz com o Movimento zapatista são explicadas na mensagem de condolências do comandante Marcos do EZLN:
“Embora tenha havido muitas diferenças grandes ou pequenas, muitas vezes divergências e distância, hoje queremos em vez disso enfatizar um compromisso e um caminho que não é de um indivíduo, mas de uma corrente inteira dentro da Igreja Católica.
Don Samuel Ruiz García também preparou uma geração de cristãos empenhados no testemunho do catolicismo: foi um homem, não somente preocupado com a situação de pobreza e marginalização das populações indígenas de Chiapas, mas que também colaborou com um heroico grupo pastoral para melhorar as condições desumanas de vida e de morte de muitas pessoas. Trabalhou com grande determinação para promover a paz com justiça e dignidade dos povos indígenas de Chiapas que arriscaram e ainda arriscam a vida, a liberdade e os próprios bens por causa da prepotência do poder político”.
Samuel Ruiz Garcia nasceu, primogênito de cinco filhos, em 1924, em Irapuato, Estado de Guanajuato. A mãe, Guadalupe García, era doméstica de uma família rica e o pai, Maclovio Ruiz Mejía, um trabalhador agrícola. Até à sua chegada a Chiapas, a sua história pode ser considerada semelhante à de muitos padres que depois se tornaram bispos da Igreja Católica fora da Europa.

Com a idade de quinze anos entra no seminário de León em Guanajuato, onde completa os estudos superiores. De lá, é mandado para a Universidade Gregoriana de Roma, onde obtém um doutorado em Sagrada Escritura em 1952. Três anos antes, em 1949, fora ordenado sacerdote e em 1959 é eleito bispo.
Como Romero, nos primeiros meses na sua diocese em Chiapas ele se mostra bastante tradicional, mas é durante as longas viagens que o levam a visitar os fiéis confiados aos seus cuidados pastorais, que acontece a transformação radical da sua abordagem missionária, como relata o teólogo Michel Andraos:
“Sem perceber, estou convencido de que estávamos do lado daqueles que oprimiam os indígenas”, dizia enquanto se preparava para aprender com determinação as línguas dos Maia, ou, como ele mesmo dirá num livro-entrevista de 2002, “Como os indígenas me converteram”.
“Se antes ele se tinha proposto ensinar o castelhano aos nativos, numa tentativa de libertá-los de sua subordinação perene, quem foi à escola foi ele próprio, não sem dificuldades e alguns imprevistos”, escreve Alberto Vitali em um livro recém-lançado (O bispo de Chiapas , Emi).
O Concílio Vaticano II confirmou a sua convicção: não só a decisão de traduzir Escritura, liturgia e orações nas línguas locais, mas também a necessidade de uma proximidade física, um autêntico compartilhamento da vida e do sofrimento do seu povo, de onde lhe veio o apelido de “J´ Tatic”, pai.

Em 1967, Ruiz é eleito presidente da Comissão Episcopal para os Povos Indígenas (CEPI), e de1968 a 1972 preside o Departamento das Missões da Conferência do Episcopado Latino-americano (CELAM), que na Conferência de Medellín desafiou os velhos modelos coloniais e marcou a nova consciência da Igreja na América Latina.
Naquele evento, enquanto Mons. Hélder Câmara fazia uma pergunta perturbadora: “Quando dois terços do mundo estão ainda pouco desenvolvidos, como podemos nos dar ao luxo de desperdiçar ingentes somas de dinheiro para construir templos de pedra?“, o bispo Ruiz acrescentava: “Todos seremos julgados no final do tempos sobre como teremos tratado os pobres e lhes dado de comer“.
Apesar das dificuldades – que muitas vezes acabam em hostilidade aberta – a sua ação não pára e, em 1988, funda o Centro de Direitos Humanos Frei Bartolomeu de las Casas (Frayba), um grande centro de ajuda humanitária.
Durante três anos, de 1994 a 1996, havia sido também indicado para o Prémio Nobel da Paz. Mas ao invés foi-lhe concedido o Prêmio Internacional Simon Bolivar da UNESCO em 2000
“por seu trabalho em defesa dos povos indígenas de Chiapas, o seu papel de mediador entre o governo e o Exército Zapatista de Libertação Nacional, e por seu empenho na promoção dos direitos humanos e da justiça social para os povos da América Latina”.
“Porque lá em cima entendem que a opção pelos pobres não morre com Dom Samuel – tinham escrito no comunicado do EZLN – ele vive e trabalha em todo aquele setor da Igreja católica, que decidiu ser coerente com o que é pregado”.
Ou, como dizem ainda hoje os indígenas “a semente plantada aqui em Chiapas já é uma grande árvore que produz muito fruto.”

Maria Teresa Pontara Pederiva
Leia também:
